Um atraso na passagem do cetro

Tudo estava preparado, apenas esperando a confirmação. Isso porque, da primeira vez, o acontecimento surgiu meio de surpresa e ninguém estava a postos para fazer a grande declaração. Dessa vez, tudo a postos. O Manchester United vinha de duas derrotas seguidas, uma para time pequeno e outra um taxativo 3 a 0 para o Newcastle. Do outro lado, o Manchester City, já líder do campeonato, com time entrosado, elenco estelar e a confiança de quem impiedosamente meteu 6 a 1 no primeiro turno da temporada. A ocasião era a terceira rodada da Copa da Inglaterra, em que um caprichoso golpe de sorte acabou colocando à frente o claudicante dono do cetro e o salivante potencial sucessor.

Só que o futebol optou por pregar a peça e reescrever o fim da história. Ou ao menos complicar a trama. Em todo caso, os prognósticos não foram confirmados, e, a julgar pelo desenvolvimento do embate, cada lance foi escrito com requintes de ironia, surpresa e malícia. Antes da bola rolar, o United já acusava o golpe do ambulatório hiperlotado ao desaposentar Paul Scholes e colocá-lo no banco de reservas. Do lado do City, as ausências de Barry, cumprindo suspensão, e dos irmãos Touré, servindo a Costa do Marfim na Copa Africana de Nações, não pareciam tão sofridas diante das mazelas semelhantes do time rival. Mais um quesito em que o time azul-celeste, além da fase, do aproveitamento e da confiança, parecia levar franca vantagem.

E foi isso que os primeiros minutos da partida apontaram, com domínio de posse de bola e domínio total das ações ofensivas. Até que, em dois lances e três minutos, foi-se tudo aos ares.  Num lance de rapidez e habilidade – o primeiro ataque do United, aliás –, Rooney conduziu a bola no meio, deu passe em profundidade para Valencia, que avançou e cruzou na cabeça do mesmo Rooney, que da entrada da grande área acertou um tiro veloz e certeiro que bateu na trave e foi dormir na rede. Momentos depois, o zagueiro Kompany, do City, foi disputar a bola com Nani e desferiu um atabalhoado carrinho de pernas abertas e solas visíveis. O veloz ponta do United sequer foi atingido, mas a natureza do lance foi suficiente para o árbitro Chris Foy enviar Kompany mais cedo ao chuveiro, sob a reclamação geral da plateia do Etihad Stadium e de um bom número de especialistas. Perdendo de 1 a 0 e com um jogador a menos, o City ficou abalado e sem controle, ainda que o técnico Mancini tenha reorganizado bem o time em campo jogando Mica Richards para a zaga e o meiocampista Milner para a cobertura do flanco direito.

Com o brio dos injustamente descartados, o United tomou controle do primeiro tempo e em dois lances de habilidade ampliaram o placar, primeiro com um voleio fulminante de Welbeck e depois com um pênalti de Rooney mal cobrado que voltou ao jogador e, novamente de cabeça, conduziu a redonda ao fundo da rede. No intervalo, contudo, ninguém estava contente. Torcedores do United pediam uma goleada para rivalizar com o vexame tomado meses antes (“We want seven!”), enquanto o City ainda sonhava com a classificação. O City se rearrumou num 3-5-1, com Richards, Savic e Lescott na defesa, e, do lado do United,Paul Scholes era efetivado na titular. Os red devils tinham o controle moral e a partida seguia no ritmo que eles queriam, e o City, apenas na base da obstinação e do talento, conseguiu dois gols – um deles em falha de Scholes no flanco esquerdo e uma devolução bisonha da parte do goleiro Lindegaard – para tornar a partida mais emocionante. Mas, depois dos 3 a 2 no placar, o United praticamente não foi ameaçado. Restou aos torcedores azuis vociferar contra uma decisão possivelmente exagerada do juiz da peleja.

Mas quanto ao grande lance polêmico da partida, vejamos mais atentamente. Um carrinho (ou algo próximo disso) em dividida de bola – não em disputa de bola, quando é legítimo entender o deslizamento dos jogadores como forma de chegar mais rápido à bola sem causar dano no adversário –, sobretudo com as solas na vista, é uma forma desleal de levar vantagem sobre o jogador rival, mas também, e principalmente, um tipo de lance cujo resultado é imprevisível, podendo dar em choque nenhum ou num desses choques que deixa o jogador fora de ação por seis meses, como no caso do zagueiro Bolívar, do Internacional/RS (com Bolívar foi sola, mas a analogia é aplicável). Pode-se discutir se aos 13 do primeiro tempo um amarelo não seria uma punição mais justa, mas de forma alguma pode-se censurar um árbitro que não tolera uma entrada desse tipo por princípio, ou seja, independente de ter havido choque com o jogador adversário.

Do ponto de vista técnico e tático, o jogo foi decidido em lances de habilidade individual de dois ou três jogadores. Mesmo nos momentos em que tinha menos posse de bola, o United mostrou uma segurança incomum para um time que perdeu duas seguidas e está jogando com o líder do campeonato que já tinha aplicado seis no último encontro. Quem deixou a desejar no quesito confiança, curiosamente, foi o time de Roberto Mancini que, sem Yayá Touré como o motor e o dono da garra do meio-campo, ficou sob a liderança de um modorrento David Silva (aliás substituído no segundo tempo) e dependendo dos inexistentes lampejos de Nasri e do oportunismo de Aguero, esse sim o único a impressionar com a camisa azul (Kolarov, autor de outro dos gols, teve atuação mediana). Do lado do United, foi Rooney quem conduziu o time em energia e talento. A escalação de Phil Jones na lateral-direita acabou resultando em bons momentos de apoio, malgrado dois lances ridículos em que o zagueiro de origem se confundiu com a bola na linha lateral. O eventual lateral Smalling, aqui na zaga, fez uma linha segura com Rio Ferdinand.

3 a 2 é um placar de jogo cheio de emoções, mas no caso de United X City, as emoções se deram não tanto pelas alterações de placar mas pelas expectativas criadas pelas situações atuais de ambos os times, e pelos desenrolares que efetivamente não aconteceram (goledada de troco ou confirmação da passagem do bastão). No caso do City, a eliminação em mais uma competição – sair da Champions League ainda na fase de grupos é uma humilhação terrível para um clube que gastou tanto para ter os jogadores que tem – pesa forte para a afirmação do clube como um dos pesos pesados da Europa. E ao mesmo tempo o City não pode almejar menos que isso. Do ponto de vista do United, o jogo toma as proporções de um renascimento na temporada, eliminando o rival da mesma cidade e dando provas de que o gás das temporadas passadas ainda não se esgotou. Para o prosseguimento do campeonato, em todo caso, o 3 a 2 na terceira rodada da Copa da Inglaterra não deve causar maiores sobressaltos. O City permanece sendo o favorito para conquistar um campeonato que não vence desde 1968 e os atuais campeões United precisam lutar não só contra seus rivais concitadinos, mas também contra a ascensão do Tottenham e, principalmente, contra o incrível poder magnético de seu departamento médico. Sabe-se lá qual desafio é o maior.

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Escrevo isso antes da eleição da Bola de Ouro (como se fizesse diferença). Mas ninguém em sã consciência pode ser capaz de dizer que algum outro jogador além de Lionel Messi merece o título de melhor do mundo. Seu poder de desequilibrar o jogo não tem comparação com o de qualquer outro, suas movimentações e dribles são os mais desconcertantes e belos, e sua visão de jogo gera passes açucarados para os gols dos colegas de equipe. As desculpas para minimizar seu impacto são pífias – “no Barcelona é mais fácil”, “com a camisa da seleção argentina ele ainda não disse a que veio”, “ele não é carismático” – e as patriotadas que esboçam colocar Neymar como um rival à altura são indignas de respeito. Ainda falta uma boa quantidade de feijão com arroz, mas o problema não é do jovem popstar santista: hoje ninguém é comparável ao que Messi faz entre as quatro linhas.

* * *

Aproveito esta primeira coluna para dar boas-vindas aos leitores do Contra-Ataque e salientar como é bom estar escrevendo numa condição de completo diletante, sem qualquer ambição ao posto de especialista. Esperem reflexões, comentários e observações despropositadas acerca do mundo do futebol, europeu em especial (mas não só), e de tudo mais que cerca o circo. Que os santos do ludopédio abençoem.

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