O novo Newcastle

Esse é o primeiro de uma série de textos em que irei abordar o Campeonato Inglês e times de algum destaque nele. Abrirei falando sobre o Newcastle, hoje sétimo colocado. Apenas quatro pontos atrás da zona de classificação da Champions, o time é a maior surpresa da temporada.

A defesa que dá ao Newcastle seu sucesso o celebra

Apesar dos insucessos recentes, o Newcastle tem quatro títulos ingleses, todos na era antiga do campeonato, e uma das torcidas mais fortes por lá. Seu santuário, o St James Park, está sempre lotado, com uma das maiores médias da Europa. Nas últimas décadas, o clube ficou famoso por ser a casa de Alan Shearer, talvez o melhor jogador inglês da geração 80/90, responsável por algumas das melhores campanhas do time no fim dos anos 90, incluindo aí dois vice-campeonatos. Shearer também era o astro do Blackburn Rovers, campeão de 1995. Durante a década passada, o time decaiu e,  após passar uma temporada na Championship – a segunda divisão inglesa –, reorganizou-se e teve alguns momentos dignos na volta à Premier League. Mas esta temporada trouxe uma novidade imprevisível: o Newcastle, enfim, ressurgiu como um bom time.

Sem investimentos altos, como o Stoke City, o time acreditou na consistência do trabalho de um treinador pouco conhecido e trouxe apenas alguns jogadores sem grandes custos. Por isso, nada indicava que Alan Pardew, seu atual técnico, levasse o Newcastle tão longe este ano. O time passou mais da metade do primeiro turno invicto, frequentando as primeiras vagas da Champions League. Todos sabiam que era normal que o time tivesse uma queda mais à frente, mas ainda assim, passado um turno inteiro, o Newcastle segue batendo de frente na briga pela vaga de um torneio europeu. Se voltássemos ao início da temporada, diria, mesmo como torcedor do time, que o objetivo era mais uma vez não ser rebaixado. Então como será que Pardew conseguiu levar o time a esse nível?

Demba Ba. O centroavante africano, ex-Hoffenheim, sempre fez muitos gols por onde passou. Mesmo assim, ele era visto com desconfiança pela torcida, que lembrava da infeliz passagem de Oba Oba Martins. O atacante nigeriano veio da Inter, jogou um bom futebol, mas foi como uma estrela em um time fadado a derrotas. Por não ter conseguido fazer algo além do esperado, ele foi jogado na vala comum dos responsáveis pelo rebaixamento. É um tanto injusto, mas compreensível, que esses torcedores desconfiassem também de Demba Ba.

Pois as desconfianças iniciais logo converteram-se em fanatismo, com Demba Ba sendo um dos principais atacantes dessa Premier League. Seus talentos o colocam seguramente à frente de qualquer atacante do Chelsea, por exemplo, mesmo diante de uma boa temporada de Sturridge. Difícil pensar quem está acima de Demba Ba no momento, excedendo os craques absolutos, como Van Persie e Kun Agüero. Ele se vira sozinho na parte de frente do Newcastle, e ver os jogos é notar como ele não faz muito esforço para isso.

Chega a ser piada que o comparem a Andy Carroll, o atacante do Liverpool vendido pelo Newcastle na temporada que passou. Enquanto o durão do Liverpool faz gols através da força e de chutes precisos, Demba Ba esbanja estilo, trabalha em espaços mínimos, posiciona-se e pensa à frente da maioria. É um centroavante de inteligência rara. O recente jogo em que o United caiu por 3 a 0 mostrou que mesmo os gigantes penam com sua presença, o que pode ser constatado no lindo gol de Ba, com o ótimo Rio Ferdinand falhando, que mudou a cara e a postura do jogo.

É duro pensar que seus companheiros variam entre Obertan, que tem alguma qualidade mas é omisso e desinteressado na maioria do tempo, e os toscos Ameobi e Best. O ataque é só Ba – e tem bastado.

Mas é na defesa que o time se garante. Difícil é marcar gols no Newcastle. A zaga tem jogadores questionados por aqui, como o argentino Coloccini, mas que lá fazem sucesso. E não é justo acusá-lo apenas de ser querido por ser capitão e afins – ele comandou a defesa menos vazada durante muito tempo no campeonato. A variedade dos beques é interessante, com Taylor e Williamson ajudando, e os bons laterais Ryan Taylor e Danny Simpson apoiam até decentemente. Mesmo depois de enfrentar City, Chelsea e United, numa pesada sequência, a zaga do time permaneceu sólida. E olha que o Newcastle perdeu dois dos jogos com um bom número de gols sofridos, tendo sido essa sequência uma das maiores polêmicas em seu caminho.

Outro jogador de algum interesse é Santon, lateral que veio da Inter. José Mourinho sempre jogava com ele, o que levou o antigo titular Maxwell a ser vendido para Barcelona, exatamente para garantir o espaço do jovem ala. No fim, Mourinho saiu e Santon não resultou exatamente bom. Por isso, acabou vindo pros magpies de Newcastle. É um jogador de talento, mas ainda me parece uma promessa. Ryan Taylor, experiente, continua a ser o melhor lateral. Não vejo com bons olhos ele no meio, embora tenha sido lá que fez a partida em que o meio-de-campo do Newcastle melhor jogou, contra o United.

Fora isso, Tim Krul é um bom goleiro, mas por vezes vejo algum exagero nos elogios da imprensa. A idade conta a seu favor, é verdade. Tem vinte e poucos anos, e goleiros novos que falham pouco não costumam aparecer, vide o United com seu atual keeper, o De Gea. Apesar de ser um bom goleiro, talentoso, De Gea vive errando e perdeu a vaga no time titular.

Mas o maior mérito defensivo do Newcastle certamente pertence à consistência do time. E isso logicamente tem muito de Pardew, que mereceria algum tipo de prêmio como técnico-revelação. Vejo o time poucas vezes tremendo atrás, mesmo nos jogos em que ele foi mal. O maior problema é e sempre foi de toque de bola.

A recuperação, por sua vez, é excepcional, fruto de dois gigantes que jogam no meio. Tioté, marfinense, é muito mais conhecido no Brasil por ter participado de um lance forte na Copa. Foi ele quem dividiu a bola com Elano que acabou tirando o brasileiro do torneio. Divididas à parte, Tioté é um excepcional volante, que sai para o jogo com alguma qualidade. Mas é mesmo recuperando bolas que ele ganha partidas. Parece estranho dizer isso quando se tem no momento tantos times que comemoram seus médio-centro tocadores de bola, mas Tioté é essencial para o time como uma espécie de anti-tocador, ainda que seja também bem bom passando.

O outro achado do Newcastle no meio é o tal de Cabaye. Esse sim um armador que falseia como médio-centro, como há tantos nos bons times. Já joga pela seleção francesa e foi um dos destaques do time campeão de lá ano passado, o Lille, ainda que tratado com menos badalação. Não será surpresa se já começarem a considerá-lo o melhor daquele grupo, onde jogam ou jogaram Hazard, muito mais badalado, Sow, que faz gol pra caramba, Gervinho e Obraniak. Muitos certamente devem argumentar que o Lille é mais um desses que vence o Francês na falta de um time bom de verdade, mas foi assim que muitos jogadores apareceram. Didier Drogba, por exemplo, era o craque do Marseille, e nem campeão foi, já que o Lyon não permitiu.

Reflexões à parte, o fato é que Cabaye vem tendo uma boa temporada, e dá a impressão que será um desses meias que não devem seguir por muito tempo no Newcastle. Aconteceu com o Aston Villa, que montou excepcionais equipes em anos recentes e viu todos os meias saírem sem parar. Pegue a seleção da Inglaterra e conte quantos foram do Aston Villa nos últimos tempos. O número é impressionante. E não há dúvidas que o Villa é mais ou menos o que o Newcastle quer, hoje, tentar imitar. Ser um tradicional que é inferior aos mais ricos, mas que dá muito trabalho, seja a quem for.

Se a chave para o time é esse sistema de defesa dura, que não permite espaços ao adversário, o que houve para o time deixar de figurar entre os primeiros para apenas lutar com o Liverpool ali pelo sexto?

Além de ser algo absolutamente natural, já que o Newcastle não deve e nem vai jogar a Champions no próximo ano, o principal foi a tabela. O primeiro turno foi cruel. Depois de empatar com Arsenal, o time passou muitos jogos enfrentando equipes fracas, sobre as quais não podíamos mesmo imaginar que o time fosse atropelar, mas cujas vitórias magras mascaravam o fato do Newcastle não ser de fato um time criativo. É incrível que um habilidoso que nem é assim tão driblador como o Jonas vire um dos poucos jogadores que ameaça no ataque. Marcar o Jonas mesmo um time medíocre pode.

Por isso, quando se seguiu uma sequência de jogos contra times grandes, esfacelou-se tudo que Pardew havia feito antes, tirando a confiança de muitos jogadores que vinham sempre tranquilos, impondo derrotas, fazendo o time tomar gols, um gol feito para sete tomados na citada trinca. Até que o time se recompusesse e voltasse a atuar com mais firmeza, foram vários momentos fracos, mesmo com times medianos para ruins como adversários.

Mesmo assim, com a consistência e a qualidade do time sendo colocadas em questão, podemos ver que o Newcastle ainda briga com o Liverpool, aquele time que roubou um jogador seu por uma fortuna bizarra (quando tirou Carroll por trinta milhões de libras), de igual para igual, consegue bater o United inapelavelmente, vive uma era que parece de fato nova.

A torcida é para não cair como caiu o Aston Villa, vendendo todo mundo, e sim virar um novo Tottenham, hoje com toda a certeza melhor que clubes bem maiores ou mais ricos. Tão bem conduzido que recusou uma fortuna idêntica à de Carroll por Modric, um jogador incomparavelmente melhor que qualquer meia criativo do Chelsea ou Liverpool, apostando que, mesmo tendo ficado fora dessa Champions, era um escrete que poderia ser de fato um contender na temporada – e tem sido.

* * *

Queria desejar, como o Ruy, boas-vindas a todos. A ideia de uma revista que tenha textos todo dia sobre futebol parece algo impensável, especialmente quando a turma do site trabalha e vive de outro(s) meio(s). Mas seria difícil dizer que alguém aqui não seja fanático, pense e fale sobre esporte a todo momento – seja como pura apreciação estética, seja por diversão, seja por outros interesses quaisquer. O foco dos textos que tenho pensado é a Europa, mas não pretendo detalhar apenas times menos conhecidos como o do Newcastle. Sempre quis abrir com ele por ser o meu time, e o texto até mudou em relação ao que seria inicialmente, já que comecei a pensar nele na época que o time nem tinha perdido; o valor do time para o campeonato talvez tenha caído, mas o pessoal não.

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7 respostas em “O novo Newcastle

  1. O que eu acho legal no Newcastle atual é que apesar da defesa ser fundamental para o sucesso atual, não é um time que se tranca na defesa, ao menos não o tempo todo. Pelo contrário, vai ao ataque com regularidade durante a partida (ter o Demba Ba ajuda, claro). Se não vender todo mundo na próxima janela pode crescer e virar um novo Tottenham sim. Nos seus melhores momentos jogam muito mais do que o Liverpool, por exemplo.

    PBS: E o Coloccini tá jogando bem, o que é muito estranho.

  2. Pois é, passa longe de ser um time que fica esperando, os defeitos de ataque não vem de um desinteresse de atacar, mas de deficiencias

    O Coloccini é um mito

  3. O Mata faz uma boa temporada, até falarei dele no texto seguinte, mas acho o Modric melhor e mais relevante pro sucesso do Tottenham (que é maior que o do Chelsea, no ingles pelo menos). Acho que aí é um caso em que eu levei tb o jogador menos pela temporada, e mais pela carreira recente no time. Eu pensei tb que o Gerrard tem jogado bem quando joga, mas foram pouco mais de 10 jogos em muito tempo… O que é curioso do Tottenham, é que o Bale que deveria ser o craque tem sido menos decisivo, mas o time ainda assim faz uma temporada melhor

    Oba Oba fez gol do título do Birmingham ano passado, da Copa da Liga

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