O único

O time do Barcelona, contra os seus marcadores.

Desde que acompanho futebol, já pude presenciar alguns grandes times e, especialmente, alguns grandes jogadores. Vi quando garoto Van Basten – meu primeiro ídolo – fazer gols e mais gols pelo Milan antes de ter sua carreira precocemente interrompida. Vi o Manchester United de Alex Ferguson nas encarnações de Eric Cantona, David Beckham e Cristiano Ronaldo. Vi Romário dar uma Copa do Mundo para o Brasil, e depois Ronaldo e Rivaldo darem outra. Vi Zidane acabar duas vezes com o Brasil. Vi o Palmeiras (e o Cruzeiro) de Vanderlei Luxemburgo. Vi o Vasco de Juninho, Felipe e Edmundo. Vi, felizmente, o Flamengo de Júnior e o de Petkovic. Vi o futebol praticamente ser soterrado nas retrancas vitoriosas de Once Caldas na Libertadores e da Grécia na Eurocopa. Vi e me decepcionei após algum tempo com os galácticos no Real. Vi e me encantei barbaramente com os dribles de Ronaldinho Gaúcho, talvez o mais puro talento do futebol, levando à loucura a defesa do Real Madrid. Vi muito, muito mais coisa.

Mas, durante esses vinte anos de futebol, nunca vi algo próximo ao atual time do Barcelona, que se aperfeiçoa a cada ano, mesmo que não mantenha necessariamente o vigor. O Barcelona é diferente. É o único time do mundo. É o ponto de chegada possível. É a perfeição tática jamais imaginável. É o inabalável. O infalível. O apolínio. Vê-lo jogar é ter a sensação maravilhosa e angustiante de testemunhar o final da História.

Os elogios podem parecer hiperbólicos – e naturalmente são, o escriba aqui assume – mas não são de forma alguma infundados. Peguemos um jogo do Barcelona, qualquer um. A goleada de 4 a 0 sobre o Santos. As vitórias polêmicas sobre o Real Madrid de Mourinho. As vitórias fáceis sobre o Manchester United de Ferguson. Os empates contra Milan e Espanyol. A derrota para o Getafe. Os resultados variam, mas o jogo é sempre o mesmo. Barcelona com a posse de bola, comandando as ações, marcando por pressão, roubando a redonda no campo de ataque. O outro time, qualquer outro time, do poderoso Real ao frágil Getafe, na retranca. Todos os jogos. O mesmo Barcelona de um lado. A mesma retranca do outro, na tentativa de um contra-ataque salvador.

É claro que um defensor do futebol contemporâneo certamente diria que cada retranca é uma retranca, que os Once Caldas e as Grécias do mundo têm suas qualidades únicas, que a posição de dez jogadores parados naquele espaço mínimo que se chama “sua própria área” pode sim variar de jogo a jogo, mas sejamos francos: os ataques se diferem uns dos outros, as retrancas não. Algumas calham de ganhar jogos e, quando você tem o pior time (ou seja, todos os times que não são o Barcelona), sua eficiência é comprovadamente alta, e infelizmente quando você tem o melhor time, às vezes também.

Mas não estamos aqui para discutir as falsas variações das retrancas – ou estamos? quem sabe em um próximo texto – e sim times de verdade. Ou um, especificamente. Porque os outros, quando enfrentam o Barça, são sempre o mesmo. Eis a grande questão de se assistir a uma partida do escrete catalão. Parece que assistimos ao mesmo jogo, em loop, repetidas vezes, com a diferença que o número de gols, felizmente, de vez em quando muda. É como acompanhar o fundo de tela de uma televisão sem programação, com a marca correndo lentamente de um lado para outro feito pingue-pongue, e torcer para um dia ela acertar a quina.

Hoje, o esquema de jogo do Barça é tão conhecido quanto um drible do Garrincha e, como um drible do Garrincha, ninguém no mundo sabe como parar. Ele vai para a direita, sempre para a direita, previsivelmente para a direita, e o marcador que o estudou e o conhece como a palma de sua mão, que já levou aquele drible nos jogos anteriores e mesmo naquele, cinco minutos antes, o marcador que se aplicou taticamente dias e dias (ou meses, no caso do Santos),  o marcador que se concentra e pensa “agora vai” vai também, e toma o drible. Todos tomam. Mourinho que o diga.

Mas não é culpa exclusiva de Mourinho. O que ele faz nos jogos com o Barça todo mundo faz. Ou melhor, o Barça faz com todo mundo. Ao prender a posse de bola incessantemente e roubá-la em uma fração de segundos, ao diminuir o espaço do campo em cinquenta por cento (nos jogos do time culé, só existe o campo de ataque), ao se movimentar como se tivesse vinte e dois jogadores em vez de onze, ao brincar de bobinho com um time adversário inteiro e ainda assim não perder a bola, ao ser esse “monstro que”, como disse Wisnik, “ataca sem se expor”, ao praticar um jogo tão belo quanto automático, ao ter Messi, acima de tudo, ao ter Messi, eu repito, ao ter Messi, eu nunca me cansarei de dizer, ao ter Messi o time não oferece outra possibilidade ao inimigo: é a retranca, e pronto. Acostume-se com ela, amigão.

Mourinho não se acostuma, é claro, e posso vê-lo irritado na conferência do título espanhol do Real Madrid em maio quando perguntado se aquele time dele, aquele esquadrão que ganha de todos os pequenos e não consegue ganhar de um, apenas um adversário, é mesmo o melhor time da Espanha. Ele ficará transtornado, como sempre fica, porque sabe que a resposta, a resposta que ele nunca irá assumir, é “não”.  Ferguson – e o time inteiro do Manchester, diga-se de passagem – entrou na final da Champions já ciente dessa resposta. Os outros, menores, nascem com essa certeza. É a retranca, e pronto. E assim os outros esquemas táticos, todos os outros que eu me acostumei a ver nos últimos vinte anos, vão sucumbindo: as estrelas e a profundidade do Real; a juventude e a rapidez do Arsenal; os talentos incontestes dos Meninos da Vila; a aplicação tática do Manchester United. Tudo vira Once Caldas.

Por isso o esquema do Barcelona, tão claro quanto impossível, ou tão claro porque impossível, sobra como o único esquema tático inventado. O único jogo inventado. O único futebol inventado. O único, com exceção da retranca. Os outros times tentam imitá-lo, mas não conseguem. Técnicos pensam em se aposentar, ou se suicidar, ou voltar ao maternal, ou se mudar para ligas menores, como a inglesa, a italiana e a alemã, onde não existe Barcelona e, portanto, não existe futebol. O Barcelona criou um buraco negro, sem ar, sem gravidade, sem esquemas, em que sobra apenas o time e a bola, rodando sem parar de pé em pé.

Pois aí, naturalmente, o Barcelona começa de fato a perder. O time, no quarto ano de uma série de títulos, jogadas, goleadas acachapantes, depois de mudar a história do futebol até seu final legítimo, encontra seu limite, nunca antes pensado: após destronar todos os adversários, um a um, com requintes de crueldade, como se fosse tão fácil quanto escovar os dentes, sobra apenas o desafio final, o óbvio ululante; destronar a si mesmo. Como a jiboia que come o próprio rabo porque já não existem bois.

É nessa arrogância típica dos soberanos, dos reis entediados com seu próprio poder, de quem tem tudo e por isso não tem mais nada, de quem detém a chave da história, que o time enfim cai, de cabeça erguida, sabendo que caiu para si e não para os outros – num processo onde talvez ainda caibam alguns espanhois e algumas Champions no caminho. Os jogos parecem chegar ao limite do sadismo; se eles sabem que podem fazer gols a qualquer momento, então por que de fato fazê-los? Sair de campo com um empate, ou mesmo uma derrota, mas a sensação de que isso aconteceu porque ele, o Barcelona, quis assim.  Não há nada mais humilhante.

E, em pouco tempo, se nenhum técnico vier com um novo esquema, um esquema de verdade, um esquema que reinvente o futebol, um esquema que leve a História para frente, assistiremos à contra-revolução, à volta retrógada do velho esporte bretão. Não que eu esteja reclamando; é assim que a roda gira, sempre. Mas que todos tenham certeza. Quando o Barcelona realmente começar a perder títulos por acreditar demais em seus próprios saltos, não estaremos acompanhando um novo capítulo na História do futebol, mas um regresso inegável, a descida do Olimpo, o retorno a um mundo terreno e imperfeito, onde os times jogam de igual para igual, os dramas são humanos, os resultados imprevisíveis, os jogadores não se chamam apenas Messi e os esquemas táticos se multiplicam.

Um mundo onde os Once Caldas da vida, para o bem ou para o mal, podem sonhar em novamente destruir o futebol e conquistar a Liga dos Campeões.

***

Esse o primeiro de uma série de textos que pretendo escrever sobre o time do Barcelona. Aproveito e indico alguns (bons) escritos sobre o time, que serviram de referência para esse aqui, e provavelmente para os próximos também. As colunas de José Miguel Wisnik e Francisco Bosco publicadas no O Globo após a goleada contra o Santos, disponíveis respectivamente aqui e aqui, e o texto de Jonathan Wilson sobre a decadência do Barça, indicado pelo leitor Bruno Amato, disponível aqui.

E, como os outros autores da Revista Contra-Ataque, aproveito para dar as boas-vindas a todos os leitores e dizer que espero que esse espaço vingue por muito, muito tempo.

Boas leituras.

Anúncios

2 respostas em “O único

  1. Pingback: O caso Xavi ou Quando passar a bola para o lado virou arte | contra-ataque – revista de futebol

  2. Pingback: O estranho caso do Barcelona | contra-ataque – revista de futebol

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s