Futebol de veteranos

por Paulo Mendes Campos

O espetáculo começa quando eles chegam, aí por volta das duas e meia das tardes de sábado. O campo tem pouco menos de 50 metros de comprimento, cabendo seis de cada lado, um louco no gol, dois zagueiros, dois na frente e um armando pelo meio. Olhos luzindo, eles calçam os sapatos de tênis ou basquete. Três ou quatro senhores, sempre suspeitos, confabulam a um canto, escalando, conforme a frequência, três ou quatro times para o torneio vesperal.

– O meu está uma droga.
– O seu perto do meu é um escrete.
– E o meu! Nelson e Mauricinho juntos! Essa não!
– O meu está mais ou menos, mas só tem jogador de defesa.

Logo depois do par-ou-ímpar é preciso recondicionar os times. Todos estão descontentes ou fingem descontentamento, até que um deles se abraça com a bola e gesticulando com o outro braço brada:

– Vamos começar, gente! Anda escurecendo cedo.

Todos resmungam, mas acabam concordando, e há uma aparência de calma. Antes que se dê a saída, são indispensáveis mais duas brigas: a primeira, dentro de cada time, pois ninguém quer começar no gol; a segunda, envolvendo todos, é sobre o juiz.

– Se o Zé Catimba apitar eu não jogo.
– Por quê?
– Porque ele tem cisma comigo.
– O Lúcio não veio hoje?
– Está em casa tocando trombone.
– Apita você, Armandinho.
– Nem por vinte mil cruzeiros.
– E você, Tavares?
– Só apito se ninguém reclamar.
– Prometo que do meu lado ninguém reclama.
– Eu nunca reclamo mesmo.

Prometem, mas não cumprem. Todos reclamam de tudo e de todos, do juiz que não viu mão, do adversário que cometeu obstrução, você que me trancou pelas costas, do companheiro que não passou, essa nem o Garrincha tenta fazer, do goleiro que papou um frango.

– Você não viu que eu não consegui matar a bola?
– Vi: você está sem revólver.

As partidas se sucedem, a gana de vencer é feroz, o suor escorre, os corações disparam, há cruentos suspiros de fadiga, as mãos esfregam os rins quando a bola vai fora, as botinadas vão e vêm, recíprocas. Mas não esmorecem, é preciso não esmorecer, pois aqui ninguém mais é criança.

Mas aqui somos todos umas crianças, crianças de 30 e poucos, de trinta e muitos, de 40, os dois mais velhos aí pelos 50. Crianças numa pelada crepuscular, que pode ser a última de nossa vida, o cemitério, a orfandade de nossos filhos. Mas é por isso mesmo que não podemos perder, é por isso mesmo que fazemos das tripas coração, é atrás de uma nesga da infância que andamos a correr, é a maturidade irremediável que estamos tentando driblar, é contra o tempo que perseguimos o gol.

Visto de fora, sobretudo por uma pessoa que já arqueje ao correr para pegar o ônibus, nosso espetáculo pode ser triste e ridículo. De dentro, dou minha palavra de honra, trata-se de uma vivência bonita e alegre. Um viciado em leituras psicanalistas diria que estamos querendo provar a nós mesmos que… ainda não ficaremos velhos. E diria a verdade. Ignorando no entanto que, de antemão, já nos sabemos derrotados; aí reside uma rejubilação de músculos e espírito, uma poesia que vai tangenciar a própria dramaticidade do tempo e a incapacidade humana de revertê-lo.

Mais tarde, tomando uma cerveja, os cavalões estão vermelhos por fora e purificados por dentro. Pudicamente, um dirá que a pelada ajuda a manter a forma; outro alega que deseja perder um pouco de peso; outro cinicamente acha que não há nada como esse exercício para fazer boca para uma cervejinha estupidamente gelada.

Mas no fundo, em segredo, sabem todos que a pelada é boa porque dar um chute bonito faz um bem extraordinário à alma do homem. Sobretudo se o homem é brasileiro.

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