Meia-lua de ouro, 2011/2

Um ano é muita coisa. E, em termos de futebol, representa coisa demais, e por isso mesmo pode conter seu quê de injustiça ou justificar escolhas despropositadas. No caso de eleger os melhores jogadores do mundo na virada do ano, ainda há um complicador: na Europa os campeonatos nacionais começam no meio do ano e portanto uma eleição de fim de ano pega uma temporada no meio, em sua primeira metade, e a outra metade, mais decisiva, já escapando da memória. Um recorte semestral pode permitir escolhas tão estapafúrdias quanto o anual, é certo, mas pelo menos ele possibilita um olhar contínuo sobre o desempenho de equipes e jogadores isoladamente, tornando mais patentes as oscilações dos inconstantes e mantendo frescos na memória os melhores momentos e instantes decisivos. Portanto, ao invés de uma bola de ouro, prefiro dividir a pelota no meio e premiar com meias-luas os craques que se destacaram em cada posição na segunda metade de 2011. Através de um método ametódico, sem me basear excessivamente em estatísticas, títulos ou posição no campeonato, mas simplesmente observando a performance individual e como essa atuação altera ou melhora o jogo de sua equipe. Dei preferência, em caso de “empate técnico” entre um ou mais jogadores, àqueles que surgiram como revelação nos últimos semestres (não necessariamente neste apenas). Contusões também servem como elemento relativizador, embora em alguns casos o período de atividade dentro dos seis meses já justifique a escolha. Por fim, existe o limite da visibilidade. É possível que alguns craques estejam jogando no Atalanta, no Hertha Berlin, no PSV Eindhoven, mas simplesmente não os vi. Sem mais delongas, vamos às Meias-luas do semestre final de 2011.

1. Ilke Casillas (Real Madrid)
Difícil pensar em algum outro goleiro que possa estar na posição de maior do mundo nesse momento. Não é só que ele praticamente não falhe e domine todos os fundamentos necessários à sua posição. Sua serenidade transmite toda a confiança necessária a suas equipes (clube e seleção espanhola), e como se não fosse o bastante, Casillas tem um indelével senso de liderança que o torna simbolicamente ainda mais insuperável. Só falta aprender como não tomar gol do Messi, mas aí a tarefa é impossível.
Reserva: Manuel Neuer (Bayern de Munique)

2. Daniel Alves (Barcelona)
Daniel Alves é meu lateral-direito favorito há muitos anos, mesmo na época em que o Maicon arrebentava na Internazionale e na seleção nacional. Talvez um pouco em contraposição à ideia do lateral-mais-atacante-que-defensor e da lógica “lateral tem que ir na linha de fundo” eternizada no Brasil, mas sobretudo porque Dani Alves domina como poucos a marcação de flancos, a hora dos botes, o momento de cercar, além de como apoiador ser rápido, preciso nos passes e cruzamentos, e jamais esquecer de seu papel tático. Que ele tenha cometido erros bobos com a amarelinha não reduz nada da grandeza desse jogador, mesmo porque olha com quem ele tem que tabelar na seleção.
Reserva: Micah Richards (Manchester City)

3. Dedé (Vasco)
A partida que Dedé fez contra o Universitario do Peru pela Copa Sul-Americana foi uma das melhores atuações em qualquer posição desses últimos seis meses. Catártica, triunfo da garra mas também da técnica e da segurança, coroada com os momentos oportunos para classificar seu time com dois gols e uma assistência. Mas se Dedé está aqui não é por causa de um jogo, mas pela consistência como zagueiro, pelo fenomenal poder de antecipação na cabeça e no pé, e pela capacidade de crescer junto com a temperatura do jogo, algo fundamental do craque, e que separa os bons dos grandes.
Reserva: Thiago Silva (Milan)

4. Mats Hummels (Borussia Dortmund)
Num semestre em que os grandes zagueiros do mundo ficaram boa parte do tempo machucados (Piqué, Vidic) ou foram oscilantes (Terry), coube a Mats Hummels preencher a vaga de melhor zagueiro jogando na Europa. E esse jovem de 23 anos faz jus à deferência, limpando a bola e carregando-a com classe até o meio de campo, espanando de cabeça, sempre muito bem posicionado e também, como Dedé, servindo como medidor de garra de seu clube. No Borussia Dortmund campeão de 2010-2011 Sahin e Götze eram o cérebro e Hummels o coração. Em 2011-2012 falta um pouco do cérebro, mas o coração permanece firme.
Reserva: Holger Badstuber (Bayern de Munique)

6. José Enrique (Liverpool)
José Enrique é nessa lista o único titular que não pode (ainda) ser considerado um grande jogador, mas sua escolha é decorrente da inacreditável seca de laterais-esquerdos de alto nível jogando no futebol mundial. Em todo caso, suas habilidades defensivas e suas subidas cheias de categoria ao ataque o credenciam como o grande lateral da Premier League em seu primeiro turno, e, no desempate com esbaforidos de cabeça quente que precisam levar tática mais a sério (Marcelo) e craques que mostram timidez incompatível com seu talento (Lahm), José Enrique ganha a escolha por ser o mais equilibrado.
Reserva: Philipp Lahm (Bayern de Munique)

5. Gnégnéri Yayá Touré (Manchester City)
Podem dizer que Touré não está jogando de primeiro volante, mas a verdade é que seu posicionamento defensivo no atual Manchester City não mudou tanto assim, e que são seus velozes arranques, garantidos pela presença de mais um volante a seu lado (no caso, Barry), que amplificam a impressão de que Touré ficou “mais ofensivo”. Na verdade o esquema de Mancini apenas abriu espaço para que o marfinense exibisse seu futebol completo com fulminantes subidas ao ataque, que até quando ele corre sozinho parece a invasão de uma esquadra inimiga, e a mesma habilidade no desarme e na antecipação que sabemos de tempos atrás.
Reserva: Alex Song (Arsenal)

8. Bastian Schweinsteiger (Bayern de Munique)
O termo “jogador completo” caiu em vulgata e anda sendo utilizado inapropriadamente, mas seria injustiça abdicar dele para falar de Schweinsteiger. Senhor absoluto do meio de campo do Bayern, ele conduz o time, ele é a respiração, o ritmo, o sangue, o maestro. Um estilo límpido e elegante de tocar a bola e ao mesmo tempo uma energia incansável para se movimentar por todos os lados do campo, atacando, defendendo, cobrando escanteios, faltas etc. sem nunca cantar de galo ou chamar a atenção para si mesmo. Uma contusão séria na clavícula, seguida de operação, fez com que ele não jogasse novembro e dezembro, mas ainda assim sua presença no começo do campeonato foi fundamental para a liderança de seu clube na Bundesliga.
Reserva: Xabi Alonso (Real Madrid)

10. Xavi Hernández (Barcelona)
O que dizer quando seu estilo de jogo forma um time e é a expressão mais perfeita de uma filosofia de jogo, e mesmo assim ninguém no mundo consegue imitar sequer palidamente seu modo de jogar… além de seus próprios companheiros de equipe. O primeiro turno de 2011-2012 mostrou que mesmo com a futura aposentadoria de Xavi o Barcelona terá em Thiago Alcântara e Cesc Fabregas substitutos à altura (ou quase), mas quando o homem volta para assumir sua posição todo mundo se recorda que como ele não tem ninguém. Nem vou mencionar as assustadoras estatísticas de passes certos ou os lances decisivos para não cansar o leitor.
Reserva: Ryan Giggs (Manchester United)

7. Andrés Iniesta (Barcelona)
Iniesta é o equilíbrio perfeito entre a serenidade e o cálculo de Xavi e o ímpeto de Lionel Messi, um meio-campo ofensivo completo que cadencia o jogo quando é necessário e conduz com grande categoria a bola à frente, encontrando ângulos geniais para passe, deslocando-se ou correndo com a bola ou para recebê-la à frente. Outro jogador cujas estatísticas jogo a jogo deixam estupefato. Mas novamente não há nenhuma obrigação de colocá-las aqui. A facilidade de seu toque de bola já é a prova necessária.
Reserva: David Silva (Manchester City)

9. Lionel Messi (Barcelona)
O maior do mundo. De novo. Fácil. Sem necessidade de parágrafo explicativo.
Reserva: Robin Van Persie (Arsenal)

11. Cristiano Ronaldo (Real Madrid)
A inferioridade do Real Madrid ao Barcelona e o pronunciadamente menor poder de fogo em momentos decisivos na comparação com Messi não são o suficiente para retirar de Cristiano Ronaldo a vaga de número 2 no ataque da Meia-lua 2011/2. O atacante português ainda tem um arranque formidável e decisivo, uma enorme capacidade de encontrar seu colega de ataque na cara do gol, sabe limpar uma bola, bater faltas como poucos e é um exímio cabeceador. Não é Messi, mas ninguém pode culpá-lo por isso. Ainda é de longe o segundo jogador mais perigoso do mundo.
Reserva: Neymar (Santos)

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7 respostas em “Meia-lua de ouro, 2011/2

  1. A seleção é ótima, mas apesar dos poréns, não consigo concordar com José Enrique na frente do Marcelo, e Neymar tomando o lugar de Aguero ou Demba Ba hehe

  2. É meio estranha uma lista quase de pré-temporada, onde a Liga ainda não chegou nas oitavas e antes do Campeonatos pegarem mesmo fogo, mas achei bacana e vamos lá, hehe.

    – É engraçado você colocar o Daniel Alves como esse lateral-direito completo quando ele claramente tem menos poder de marcação que o Maicon em seu auge e principalmente quando, nessa temporada, o Daniel vem jogando praticamente como um ponta, o jogador menos tático e mais ofensivo do time do Barça, que pensou que, se é pra deixar espaço atrás mesmo, melhor ele ficar na frente de uma vez.

    – Dedé no lugar do Thiago Silva… hmmm… ah tá, tinha esquecido que você é vascaíno. Mas falando sério agora, podiam ser os dois, né?

    – Acho complicada a inclusão do Iniesta na meia-lua porque, como sempre, ele ficou contundido boa parte do tempo, mas principalmente porque, fora um título resultante de uma conquista no primeiro semestre, a verdade é que a temporada do Barça por enquanto não está tão sensacional assim (ou será que a concorrência com o segundo melhor time do mundo no Espanhol nos engana?).

    – A falta de jogadores italianos é fruto de você não ver o campeonato ou achar ruim mesmo?

    – De resto, queria ver a lista do Guilherme também, que se bobear não vai ter nem o Messi! (E com certeza terá o Demba Ba!).

    Ah, e faltou o técnico, pô.

    • Daniel Alves: Ele não “vem jogando” como um ponta, ele jogou assim contra o Santos e em alguns outros jogos. Na Supercopa da Espanha, por exemplo, ele teve a incumbência de marcar o Cristiano Ronaldo e a taxa de sucesso foi algo bem próximo dos 100% de aproveitamento entre cercar e dar bote.
      Thiago Silva é melhor jogador do que Dedé, ao menos até agora. Assim como Vidic é melhor que os dois. Mas em nenhum dos jogos que vi esse ano o Thiago foi brilhante (talvez porque não tenha sido demandado tanto), enquanto Hummels e Dedé tiveram atuações espetaculares e contagiaram a equipe com suas respectivas energias.
      Iniesta jogou em todos os meses desse semestre, incluindo pré-temporada. E, tropeços para times menores à parte, quando o jogo é decisivo o Barcelona de hoje é tão mortal quanto em qualquer parte dos últimos dois anos. Pergunte a Santos e Real Madrid.
      A falta de jogadores italianos deve-se ao fato de eu tentar ver jogos do campeonato italiano e a indigência futebolística me incitar questões filosóficas sobre o sentido da vida. É óbvio que há bons jogadores, Chiellini, Pirlo, mas ninguém que eu considere no nível de time A do mundo.
      Técnico é o Guardiola de longe, muito longe em relação ao segundo colocado, que é o Alex Ferguson.

    • a propósito, nessa “pré-temporada” há gente que considere que o Espanhol já está praticamente vencido, um time que há 45 anos não vence um título importante é líder da Premier League e esse mesmo time, junto com o Manchester United, já saíram da Champions League, junto com Porto, Borussia Dortmund e outros.

      • acho que a lista é legal e faz sentido (toda força a ela), mas o que quis dizer é que, dependendo do segundo semestre, ele acaba “apagando” boa parte do que foi construído no primeiro. e se o tottenham é campeão inglês? e se o barça acaba vencendo o espanhol? e se uma surpresa surge no alemão? e se o apoel ganha a champions? e se… por mais que o “primeiro turno” dos torneios já permita tirar uma série de conclusões e seja um encaminhamento e tanto para o que virá no segundo, só lá em abril saberemos de fato quem fica e quem sai.

        de resto, muito boa essa frase: “A falta de jogadores italianos deve-se ao fato de eu tentar ver jogos do campeonato italiano e a indigência futebolística me incitar questões filosóficas sobre o sentido da vida.”. o triste é que o Campeonato Brasileiro (esse, sim, que acabou no segundo semestre) leve à mesma conclusão.

        ah, e acho que colocaria o Vargas e o técnico do La U na equipe reserva. Esse sim foi o time-surpresa do semestre.

  3. Acho a menção do Song uma excelente lembrança, mesmo como reserva, que na verdade seria o papel mais adequado, tem jogado melhor do que nunca mesmo, ótimo na marcação e aparecendo muito com passes longos e lançamentos. Continua errando apenas na cabeça, já que perde ela por pouco e acaba prejudicando o time com expulsões bobas e afins

  4. Pingback: O caso Xavi ou Quando passar a bola para o lado virou arte | contra-ataque – revista de futebol

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