Futebol de verdade

“Real football, real fans”; esse é o slogan da The Football League, que organiza os campeonatos equivalentes à primeira, segunda e terceira divisões do futebol inglês, além da Carling Cup. Acho que a partir dele, a partir do que ele quer dizer, há muita coisa a se pensar e a discutir. Uso aqui o futebol inglês como exemplo porque lá existe um grande número de times tradicionais, com grandes torcidas, espalhados por divisões menores. Lá, também, essas ligas são organizadas e, mesmo sem comparação possível com a Premier League, os times possuem algum poder financeiro. Outro motivo, talvez o mais definitivo, é o fato de que é a única divisão de acesso estrangeira com transmissão no Brasil.

Sei, claro, que esse slogan, defendendo as ligas menores, seus times e suas torcidas como representantes do futebol de verdade, tem muita ligação com a história recente específica do futebol inglês. Na Premier League, foram realizadas diversas mudanças com o objetivo de acabar com a violência das torcidas. Deu certo, mas muito se reclama hoje em dia da “platéia de teatro” que passou a predominar nos jogos da divisão principal; infelizmente, nunca fui num estádio na Inglaterra pra ter uma impressão mais direta, mas, nas transmissões, sinto diferença nos jogos da Premier em relação aos da Championship, e confesso que, esse último campeonato tem me agradado mais.

Um confronto, em especial, me fez pensar muito sobre essa questão. Foi Brighton & Hove contra Leeds United, ainda em setembro do ano passado, pela oitava rodada da segunda divisão inglesa. Apesar de não valer muito (era um jogo de início de um longo campeonato de pontos corridos) e de não ter grandes craques, foi uma das partidas que mais me prenderam e me emocionaram no primeiro semestre desta temporada do futebol europeu. O Leeds, visitante, terminou o primeiro tempo vencendo por 2 a 0. O primeiro, um gol chorado, após uma série de bolas rebatidas dentro da área, foi de Keogh. O segundo, um belo chute de fora de McCormack. No tempo final, os donos da casa voltaram indo pra cima e viraram o jogo. Mackail-Smith fez um belo gol depois de um lindíssimo drible dentro da área, Barnes empatou cobrando pênalti e Mackail-Smith, novamente, virou o jogo reafirmando sua competência perto do gol inimigo. O jogo já beirava os 40 do segundo do tempo e parecia sacramentado, mas o Leeds não desistiu. Nos acréscimos, um chutão pra frente foi escorado de cabeça e a bola caiu na área adversária; McCormack recebeu o passe e empatou o jogo, dando contornos finais ao resultado. Tudo isso aconteceu por causa do enorme empenho dos jogadores e também da grande participação das duas torcidas; foi um jogo corrido, ágil, brigado, extremamente bom de se assistir e torcer.

Pegando o gancho do Leeds, vale pensar na importância desses times super tradicionais que hoje se encontram em divisões inferiores dentro da lógica do “real football, real fans”. São equipes com grandes e apaixonadas torcidas, com força de camisa, mas que jogam com o desespero de quem está no fundo do poço. Nessa semana tivemos Nottingham Forest e Leicester pela FA Cup, um clássico regional entre dois times bem tradicionais, e essa rivalidade, esse peso do confronto, foram fundamentais para o bom jogo que aconteceu. A partida terminou com uma goleada histórica do Leicester, 4 a 0.

Indo além da Inglaterra, acho cabível pensar num paralelo disso para outros países. Me soa muito esquisita essa história de magnatas comprando times, injetando fortunas e montando equipes de uma hora pra outra. Pegando o Manchester City, por exemplo;  de repente meia dúzia de “ídolos” são contratados e jogados para a torcida. Ela, pelo menos a que frequenta o estádio, aceita, e não demora nada pra vermos bandeiras e faixas com nome e imagem dos novos craques, eleitos e forjados sei lá por quem.

Claro que esse fenômeno não é exclusivo dos times de magnatas; temos, por exemplo, o Real Madrid que, com a chegada de Mourinho, montou um time praticamente novo, um esquadrão internacional, tão global quanto impessoal. Isso também pode ser visto nesse estranho esforço atual para elitizar o futebol, como o Morumbi Concept Hall criado pelo São Paulo. Esse exagero do dinheiro parece, pra mim, tirar a identidade das equipes; cada vez menos se constroem ídolos, compramos eles prontos.

No Brasil tivemos recentemente algumas parcerias entre empresas e clubes que também acho um tanto bizarras. Como a da MSI com o Corinthians, montando o time de Tevez, Nilmar, Carlos Alberto e Roger, campeão brasileiro, mas rebaixado logo quando ela foi embora. Hoje temos a Unimed com o Fluminense, contratando jogadores só do meio para frente, e pagando salários surreais. Eu, sinceramente, não gostaria de uma parceria dessa pro meu time. Prefiro não ter um escrete cheio de figurões contratados a preço de ouro e apostar num time a ser montado, pensando num projeto de equipe.

Ainda no Brasil, o que acho mais triste nessa nova configuração é a completa desvalorização do futebol regional. Com a massificação da mídia, basicamente no país inteiro hoje se torce para os times dos grandes centros financeiros. Assim, equipes tradicionais, cheias de história, acabam sem ninguém nem perceber. Não há nenhuma estrutura para as divisões inferiores, aos poucos não há mais torcida e os times simplesmente acabam. Vemos exemplos disso no interior de São Paulo, como o Novorizontino. E se formos pras regiões Norte e Nordeste, o caos é bem maior.

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Uma resposta em “Futebol de verdade

  1. O interessante é que isso que o Chiko fala, da tradição, ela fica sempre evidente. Não importa o nível técnico, esses jogos de divisões inferiores sempre tem algo de diferente, os jogadores sentem aquilo de mais forte e a priori invisivel. É uma comprovaçnao que trabalhar no esporte é possível, que enfrentar os times grandes não é imprescindível pra que clubes não sumam, que é possível transformar estaduais em torneios diferentes. Claro que o caminho é turvo, que a cultura aqui é outra. Mas lá houve mudanças impressionantes, e hoje se ve o futebol tradicional tão bem quanto antes, oito divisões, o Crystal Palace enfrentando o United sem medo porque defendido pela camisa na FA.

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