A teoria em conflito

A carreira de André Villas-Boas evolui numa velocidade surreal. Aos vinte e tantos anos, o jovem Villas-Boas trabalhava com José Mourinho numa função de scout. No Brasil, o chamaríamos de olheiro, mas é prudente dizer que o scout não vai aos jogos apenas para observar os jogadores de times adversários. Seu talento e conhecimento do jogo logo levaram Mourinho a indicá-lo para o cargo de treinador. Após dois anos de carreira, Villas-Boas pulou de técnico do modesto Académica para gerenciar o Porto, equipe mais dominante no país nos últimos anos.

O Porto de Villas-Boas se revelou ainda mais forte do que aquele de Mourinho que conquistou a Champions de 2003/04, quem o assistia não tinha dúvidas. Com passes curtos, mais saída que contenção, e grande confiança de seu elenco – em especial Guarín, Hulk e é claro Falcão, o grande artilheiro da temporada -, o Porto foi campeão invicto. De TUDO que disputou. Campeonato Português, Taça de Portugal e a Europa League. E assim, seguindo o rumo óbvio para sua carreira, aos trinta e três anos, dos quais apenas três deles como treinador, André Villas-Boas pagou a multa ao Porto e foi ser manager do Chelsea.

- André Villas-Boas, técnico pela terceira temporada

É a partir do seu trabalho já na Inglaterra que proponho este texto. Quais teriam sido os movimentos e tentativas de Villlas-Boas, o que teria levado o seu time a fracassar até aqui?

Acho que poucos discordam que a crise do Chelsea era natural: o time já era envelhecido e mal administrado e pouco fez para recompor o elenco. Assim, temos nessa temporada uma equipe de estrelas velhas, poucos jovens talentosos e um banco de reservas questionável. Muito disso, naturalmente, vem da péssima mania de comprar jogadores caros e sem motivo. Quantas fortunas foram torradas em atletas que não são lá as mil maravilhas, Shaun Wright-Philips custando trinta milhões, ou mesmo um bom jogador como Nicolas Anelka, que veio por quase quarenta? É evidente que em algum momento Roman Abramovich cortaria gastos e quisesse retorno. Desde 2003, quando comprou o clube, foram três títulos de Premier League (05, 06 e 10), algumas Copas e apenas uma final de Champions. Do meio do ano passado em diante, Abramovich percebeu que seu time envelhecido não ia mais conseguir brigar com os grandes, e pior, o City aparecia como novo gigante bilionário. Se trocar de técnico a toda hora nunca foi seu melhor hábito, trazer o cara que seguia a trilha do mais vitorioso momento que o time passou (com José Mourinho) parecia um caminho sensato. E eu ainda acredito ser a decisão correta.

Mas vem sendo difícil para Villas-Boas lidar com problemas de vestiário, com a desconfiança, com jogadores que não fecham com as propostas dele. Como Frank Lampard, uma lenda que já vem capengando há algum tempo, com muitos problemas físicos e sem rendimento alto. Acostumado a ser o dono do time, viu-se com Villas-Boas em um novo papel. Em mais de seis meses, entrou e saiu do time titular muito, e nos melhores momentos, como na vitória épica contra o City em dezembro, veio do banco e melhorou o time, parecendo que exercer este papel lhe cabia bastante bem. Mas, nos bastidores, a pressão por sua volta era ensurdecedora. É assim em times grandes, não há paz.

Com Essien eternamente contundido, Villas-Boas iniciou a temporada sem um primeiro volante de qualidade. Em um primeiro momento, tentou vislumbrar um time mais solto, sem essa peça. Logo ficou evidente que o futebol inglês exige um meio mais ligado, menos desorganizado. Se em Portugal você podia ter um Guarín quase como seu primeiro volante, dando a saída à La Schweinsteiger, aqui havia mais necessidade de um jogador limpa vidros, ou de um meio mais consistente. E arrumá-lo não foi fácil. Ramires tem a velocidade, mas não é bom marcador nem passador. Lampard tem a técnica, mas nenhuma velocidade. E se Villas-Boas quisesse atuar com meias que soubessem se aproximar da frente, o time não podia ser tão lento. Dessa forma, o técnico correu pela primeira vez o risco de sacar Lampard do time. Sabendo que a torcida o via com desconfiança, teve de torcer para que houvesse uma melhoria. O time cresceu, mas pouco. O meio ainda era disfuncional. Atuar com Raul Meireles como seu primeiro homem me soou um equivoco. Meireles é um jogador eficiente, mas é melhor nos passes, um pouco mais próximo da frente.

Foi por essa altura que ele trouxe Juan Manuel Mata para o meio, ele que até então estava mais ligado às pontas. Com os brilhos de Sturridge no ataque, Villas-Boas logo começou a retirar do time peças mais velhas, como Malouda, apostando no garoto que pela primeira vez não correu riscos de empréstimo para o resto do ano. Deu certo, e ele virou o melhor atacante do time. Fernando Torres entrava e saia do time, sendo que suas atuações às vezes nem eram horríveis, mas eram sempre recheadas de lances patéticos, que iam enlouquecendo os torcedores. Logo ficou evidente que Drogba deveria ser o titular, mas ele só ficou disponível de fato mais à frente da temporada, e ainda assim com sinais de que já não era o gênio de outrora. A outra contratação para o ataque, Lukaku, um jogador novo que foi trazido como promessa, mal apareceu no time.

Na altura de setembro, Villas-Boas escalava seu meio com Meireles como primeiro homem, Ramires dando a correria como o segundo e Lampard mais a frente. Não gosto dessa formação, embora envolva os mais talentosos no elenco no momento, considerando a lesão de Essien. Acho que Meirelles e Lampard juntos fazem Ramires ficar sobrecarregado tanto atrás quanto na frente, e ele não é o tipo de jogador sobre o qual o time deve olhar assim, como o fator decisivo. Sua velocidade lhe dá condições de brigar com jogadores mais fortes, lhe permite ir ao ataque sempre, mas é preciso que existam jogadores mais técnicos se envolvendo no jogo. Com Lampard longe e sem ser mais capaz de buscar o jogo, o meia inglês também sumia, pois a bola pouco chegava. Pouco depois ele se machucou, e sua volta foi consideravelmente melhor do que esse período.

No 3-5 com o Arsenal, Villas-Boas colocou Mikel como primeiro volante, o que era adequado, um jogador mais afeito a ser de fato o primeiro volante, e ainda com boa qualidade no passe. Mas o mais esquisito era o posicionamento ofensivo, com Mata andando entre a ponta e o meio. Foi um dos experimentos teóricos do técnico, que previa que na movimentação do Arsenal ele acharia espaços, e que a defesa despedaçada dos Gunners não conseguiria responder. Com Sturridge e Torres mais ao centro, o time fez uma boa partida. A derrota teve mais a ver com o incrível jogo do Arsenal, que dali em frente arranjou uma sequência de ótimas vitórias, voltando a brigar pelas posições de cima do campeonato. Nesse momento, é o principal adversário do Chelsea pela Champions.

Outra derrota decisiva foi aquele 1-2 para o Liverpool. Num jogo tenso, o Chelsea mais uma vez usou o meio com Mikel, Ramires e Lampard. O veterano seguia em baixa, e não estava bem na armação. Com Ramires trabalhando dobrado, e Mikel na sobra na defesa, o time se perdeu para enfrentar um ataque cheio de surpresas. O técnico do Liverpool, o lendário Kenny Dalglish, colocou quase quatro atacantes para cima deles, dois pelas pontas, Dirk Kuyt e Maxi Rodriguez, minando as laterais, e mais Bellamy e Luisito Suárez, o craque do time, pelo centro, mas sempre em movimento. Isso deu um baile nas teorias de Villas-Boas, que com muito afinco conseguiu até anular o meio do Liverpool, só que sem a posse de bola. Aliás, essa é uma das coisas que ele não conseguia se decidir: ser um time de contra-ataque, na escola do Mourinho, ou um time de posse, variando como deve se variar mas mostrando claramente uma falta de personalidade. O jogo contra o Liverpool teve a volta de Drogba ao ataque, melhorando o nível de ameaça. Afinal, com a média de gols de Torres, fica difícil criar uma ameaça constante a qualquer zaga adversária.

Foi em dezembro que vimos o mais próximo do bom Chelsea do técnico. Foi quando, em vez do meio com Mikel, Ramires e Lampard, Villas-Boas tirou dois e passou a ter Oriol Romeu como seu primeiro volante. O jogador que veio do Barcelona não tem lá qualidades tão grandes com as bolas nos pés, mas funciona melhor na velocidade e se envolve mais no jogo que Mikel, e, com Meireles agora como armador, o time perdia em técnica comparado com Lampard, mas ganhava em trabalho. Tornou-se um time mais forte, com mais pegada. Com Mata trocando de posições entre meia e ataque, Sturridge firmado na frente e o centroavante variando, o time chegou ao seu melhor momento, bateu várias boas equipes no campeonato e ressurgiu na Champions. Foi com Drogba, aliás, seu auge. De vez em nunca, ele parece se relembrar do jogador que foi.

O último ponto que queria destacar é a essencialidade de dois jogadores nesse time: Ramires e Sturridge. Sobre o brasileiro, como já falei, não sou grande fã, mas acho que sua velocidade o coloca como peça fundamental no Chelsea. É bem demonstrativo do elenco mediano do time hoje, principalmente perto de outros tempos, que um jogador que eu não ache sequer selecionável para Mano Menezes seja um dos mais importantes deles. Sturridge, por sua vez, faz especialmente o trabalho de pressão muito bem, volta com os meias, se posiciona quase como um meia pelos lados, batendo de frente com figuras como David Silva quando eles se defrontam. Como o Chelsea gosta de atuar no esquema de contra-ataque, mesmo contra adversários toscos, Sturridge é essencial, pois apenas ele e Ramires têm, do meio pra frente, o super arranque para pegar os times desprevenidos. Isso sem entrar no méritos de gols e jogadas em que ele chamou a responsabilidade para si. Sem dúvida, é um dos melhores do time na temporada, junto do Mata. É como o Welbeck para o United, um jogador que o time sempre optou por emprestar, mas que apareceu jogando muita bola no começo da temporada. Lá, no entanto, a disputa por posição é grande. Aqui, Sturridge é o que eles têm.

* * *
Relembrando… Andriy Schevchenko

* * *
E o que dizer de Martin O’Neill, que desde que assumiu o Sunderland venceu 4 de 6 jogos? O’Neill foi o técnico daquele Villa que comentei por aqui. Desde então estava sem treinar, e mostra que segue como um dos grandes na Premier League.

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2 respostas em “A teoria em conflito

  1. Bom post, vc tocou em várias questões essenciais sobre o Chelsea hoje, mas quando li o título “A teoria em conflito”, eu estava esperando que vc também falasse de algo que parece ser esquecido sempre que mencionam André Villas-Boas: é evidentemente um homem inteligente, que sabe muito de futebol, um verdadeiro apóstolo de Mourinho (isso foi um elogio? Isso foi um elogio), mas com pouca experiência como profissional. Por mais impressionante que tenha sido a campanha do Porto, o time não enfrentou NENHUM adversário de peso internacional em todas as suas conquistas. Eu acho que ainda falta para Villas-Boas a sabedoria para enfrentar esse tipo de adversário.

    Com relação ao elenco, acho que que hoje está muito claro que a preferência de Villas-Boas por jogadores portugueses e espanhóis, mesmo quando discutíveis (Ramires, Torres, David Luiz, etc) é uma jogada política dele para quebrar as panelinhas derrubam-técnicos do Chelsea.

    E o Drogba é certeza que vai para o futebol chinês, né? O Fernando Torres precisa melhorar.

  2. Vc pegou o sentido mesmo. Queria dar essa impressão do Villas-Boa sintelectual lidando com sua inexperiencia no campo, os problemas de vestário. Achei que seria mais interessante só sugerir e me concentrar na aplicação dessas ideias dele, mas quem já o viu lidando e tratando das mudanças, pode perceber que ele realmente é um cara que pensa muito a cada jogo

    Aproveitar pra dizer que a seção do Relembrando ficou pela metade, nesse jogo o Shevchenko faz quatro gols no Camp Nou, no fim dos anos 90. A segunda parte a Uefa bloqueou, dada a raridade do material, é uma pena

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