A história se escreve, a golpes de destino, a golpes de casualidade, a golpes que são simplesmente golpes

Dois jogos de extrema importância para o cenário internacional aconteceram nessa última semana. Uma enorme lacuna separa esses jogos em termos de categoria, de força tática e até mesmo dos objetivos que estão em jogo, mas ainda assim foram dois jogos que carregaram a efígie histórica do futebol, aquele lance de dados que separa o lendário do regular, o notável do comum. O primeiro deles, indubitavelmente mais jogo, foi mais um embate entre Barcelona e Real Madrid, na casa deste último, na primeira rodada da Copa do Rei. O segundo foi no domingo, um jogo que ameaçava ser moroso mas que, pelo emocionante segundo tempo e pelas conclusões que se podem depreender de seu resultado, também alçou-se acima da regularidade costumeira. Foi Manchester City contra Tottenham no Etihad Stadium, em Manchester.

Desde que José Mourinho assumiu o Real Madrid e acirrou para níveis que ultrapassam a rivalidade histórica (como se fosse pouco), “el clásico” é o espetáculo mais dramático que o futebol pode mostrar. É também o mais completo do que podemos ver em termos de futebol, no papel e na prática, ainda que o papel e a prática divirjam. No papel, é um embate entre os dois melhores times do mundo. Na prática, é o Barcelona funcionando em seu mais alto nível de integração coletiva e comportamento tático. Desde que apanhou dos humilhantes 5 a 0 na Catalunha, Mourinho tenta encontrar um esquema tático para embolar o meio de campo, minimizar as trocas de passes do adversário e sua consequentemente escorchante posse de bola, e ainda assim mostrar-se decisivo no que o time tem de melhor, os contra-ataques e o jogo em profundidade. É talvez a maior humilhação para um treinador que se crê o maior do mundo: ter que armar seu time para jogar diferente diante do maior rival, não só rearmando taticamente a equipe mas também  tirando coelhos da cartola, trocando jogadores de posição e barrando titulares de forma duvidosa. Articulistas comentaram como um trunfo o fato de que novas goleadas não surgiram, mas a verdade é que em nenhum momento o time azul-grená teve sua superioridade técnica e tática ameaçada. Com sangue frio, o Barcelona sempre soube esperar o momento de vencer, e assim aconteceu seguidamente na campeonato nacional, na semifinal da Champions League e na Supercopa da Espanha, tudo isso na temporada passada. Nesse período, apenas uma Copa do Rei para o Real Madrid, com o título conquistado na prorrogação, ou seja, sem demonstrar sua superioridade no tempo regular, seja no aspecto “título moral” seja efetivamente com a vantagem no placar.

A temporada 2011-2012 acena fortemente com a possibilidade de um campeonato nacional indo para Madri, mas no que diz respeito à rivalidade de “el clásico”, o jogo desse meio de semana mostrou que Guardiola e seus comandados permanecem sendo o grande time do planeta. Mas o que foi mostrado do outro lado é que Mourinho ainda luta loucamente para criar um esquema que impeça o Barcelona de jogar seu jogo e, como os mais risíveis vilões de desenho animado com sonhos de onipotência, termina bufando de raiva ou caindo no desfiladeiro moral ao ver suas apostas novamente fracassando diante não só do resultado – o que, claro, é decisivo, mas não é só o que importa -, mas também dos avassaladores indicadores de posse de bola, finalizações certas e erradas, etc. E, talvez principalmente, porque jogo a jogo só onze em campo sentem-se senhores de si num “clásico”, e não são os do time de branco.

No jogo de quarta última, assim como no jogo de 10 de dezembro, o Real saiu na frente e pôde praticar mais confortavelmente seu jogo de retranca e contra-ataque. Nos dois jogos, o gol surgiu de eventualidades, uma bobagem de Victor Valdés no primeiro jogo e uma falha de Pinto no segundo, ams é bem verdade que o time de Mourinho teve um ou outro contra-ataque com clara possibilidade de gol, frustrada por passe errado ou mau controle de bola. Quando o jogo assenta, no entanto, a impecável troca de passes do Barcelona obriga os jogadores de branco a correr desarvoradamente na marcação, e a fantástica mobilidade de Iniesta, Messi, Fabregas e cia. inevitavelmente cria espaços que serão utilizados com resultados fatais para o rival. Depois de transformar Pepe num meia, Mourinho apostou em Altintop como lateral-direito, e em ambos os casos as apostas não renderam os objetivos idealizados, porque novamente o Barcelona jogou como quis. Mas, ironia das ironias, o primeiro gol do Barça surgiu também de um lance casual, um escanteio mal marcado em que Puyol apareceu correndo no meio da grande área e cabeceou sozinho para o gol.

Os deuses do futebol, no entanto, parecem rir dos anseios madrilhistas: o gol de Puyol, por mais fortuito que tenha sido o lance, apareceu aos olhos de todos que assistiam à partida, como um desígnio do destino sendo realizado. O efeito, claro, é provocado pela superioridade tática e pelo profundo domínio de jogo do time do Barcelona: a sensação de que uma hora ou outra a bola vai entrar. Se não for num mágico lance de brilho e talento individual, será pela persistência do conjunto. Messi brilhou, para variar, colocando Abidal na cara do gol para dar números finais à partida, mas é o gol de Puyol – a naturalidade do guol de Puyol, melhor dizendo – que revela toda dimensão trágica do controle exercido pelo Barcelona jogando seu jogo mais importante. É o momento do paradoxo em que mesmo a casualidade soa como expressão do inevitável.

Golpes de casualidade também ocorreram, e aos montes, no jogo do Etihad Stadium no último domingo. Um 0-0 morno no primeiro tempo, depois dois gols caídos mais ou menos no colo do Manchester City, depois dois gols brigados e obtidos pelo Tottenham para empatar a partida, e finalmente um gol de pênalti para desequilibrar o placar em favor dos azuis de Manchester. Ao contrário do “clásico”, o segundo tempo de City-Tottenham era sentido como uma partida aberta, imprevisível, e a sucessão de gols parecia oscilar ao ritmo de um misto de oportunismo, talento e garra, mas jamais com o estigma de uma expressão do destino sendo escrito. Ele acaba sendo, eventualmente, mas isso acontece mais pelo placar final do que pelo senso “narrativo” que o jogo cria. Mas se há o trágico do destino, há também a dramaturgia da casualidade, e aconteceu que um jogador iluminado para o bem e para o mal, Mario Balotelli, fosse calçado na grande área, recebido o pênalti e convertido a infração com o sangue frio que lhe é peculiar. O mesmo Balotelli que poucos minutos antes havia chutado maldosamente a cabeça de um adversário caído, num momento em que a bola já estava fora de jogo. Houvesse sido pego em flagrante, o atacante italiano seria imediatamente expulso e consequentemente não estaria em campo ser decisivo momentos depois. Injustiça ou não, são coisas do futebol, e a vitória do Manchester City é o mais perfeito exemplo do que o time é nessa temporada: aquela equipe cheia de talentos mas que funciona meio aos trancos e barrancos, tecnicamente aplicada, brilhante em momentos, porém escorando-se firmemente na sorte para conquistar seu campeonato nacional. Sorte não só de seus resultados, mas também pelo fato de que os grandes times ingleses dos últimos cinco anos, Manchester United, Chelsea e Arsenal, estarem nitidamente em momento de rearticulação e lograrem diversos resultados desfavoráveis. No fim das contas, uma vez o título garantido e o troféu nas mãos do capitão, o campeão entrará para a História, sem apelação ou resmungos dos derrotados. A carga do destino manifesto, no entanto, parece hoje muito distante da temporada 2011-2012 da Premier League britânica.

Há os golpes do destino, há os golpes da casualidade, e há também golpes, simplesmente golpes. O chute covarde de Balotelli em Scott Parker, muito mais perigoso, mas também o pisão de Pepe na mão de Messi, igualmente gratuito e maldoso, não merecem qualquer palavra de glória. Merecem, sim, suspensões. Enquanto escrevo esse texto, Balotelli é cotado para uma suspensão por quatro jogos, enquanto Pepe recebe férias “disciplinares” de seu próprio clube, e ficará fora por duas semanas. Em ambos os casos, e tomadas as variadas proporções das agressões, a sensação é que é muito pouco. Não é nem questão de evocar o fairplay. É que semelhantes formas de deslealdade devem ser repudiadas e exemplarmente punidas. Não são situações de jogo, não é a partida jogada, são irrupções grosseiras de não-futebol que não merecem nada além da infâmia.

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Uma resposta em “A história se escreve, a golpes de destino, a golpes de casualidade, a golpes que são simplesmente golpes

  1. Ruy, acho que dá para tranquilamente acrescentar a esses dois casos, um terceiro: Arsenal x Manchester United. A torcida vaia Arsene Wenger quando ele tira Chamberlain de campo para colocar Arshavin, num momento em que a equipe estava começando a dar trabalho pro United, Robin Van Persie protestando de forma espontânea até, e alguns minutos depois Arshavin falha na marcação e o Arsenal perde a partida.

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