Ases de copas, dois de ouros

Existem aqueles que minimizam a importância das copas que transcorrem em paralelo aos campeonatos nacionais da Europa e à Champions League. Os argumentos são justos e é verdade que a longo prazo esse tipo de título tende a ser visto como uma conquista de consolação celebrada na ausência de algo maior para comemorar. No entanto, eles existem e os clubes se esforçam para vencer essas competições, geralmente poupando esforços nas primeiras rodadas mas passando a ir com tudo uma vez que o time atinge as fases mais adiantadas do mata-mata. A discussão em torno dos méritos desse tipo de troféu, no entanto, tende a ser fastidiosa depois que se iniciam as ideias preliminares, já que não dá pra sair muito além da bipolaridade em torno dos argumentos “não vale um campeonato” e “é um título”. O fato efetivo é que nenhum time entra em disputa pra perder. E outro, pontual para os dias de hoje, é que essas copas produzem jogos capazes de alterar o moral e o desempenho de certos clubes em momentos decisivos, chegando eventualmente a reordenar as partilhas de forças construídas ao longo das temporadas.

No caso das retas finais das copas europeias desse ano, há três vencedores, ainda que não se sagrem campeões. Dois desses vencedores, curiosamente, são adversários e um está inclusive eliminado. Ainda assim, é inevitável a percepção de que Liverpool, absoluto, mas também Barcelona e Real Madrid saem com a energia revigorada depois dos resultados da última semana em suas disputas de copa nacional. O Liverpool conseguiu a façanha de eliminar os dois maiores bichos-papões da Inglaterra em duas competições diferentes, os dois grandes de Manchester que ocupam com distância folgada as duas primeiras colocações do campeonato. Já o Barcelona eliminou o Real Madrid no segundo jogo da Copa do Rei, mas a verdade é que el clásico já é uma espécie de título por si só. Mas, mesmo eliminado, o que o Real Madrid jogou contra o Barcelona ajuda a apagar a imagem de time amedrontado pela superioridade do rival. O que o time de Madri jogou no Camp Nou foi o futebol de um time brioso que impõe seu estilo, e ainda que o resultado final tenha sido desfavorável, a superioridade em termos de lances perigosos ficou evidente, e isso é algo que os torcedores do Real devem comemorar. E muito.

Mas a grande sensação mundial da semana foi o Liverpool. Os comandados de Kenny Dalglish superaram de forma emocionante o Manchester United pela FA Cup (= Copa da Inglaterra) no último fim de semana, pela quarta rodada da competição (fase de 32, ou pré-oitavas). Em termos de emoção e intensidade, contudo, foi o jogo contra o Manchester City pela Copa da Liga (= Carling Cup) aquele que alçou o Liverpool a um patamar heroico na temporada, fazendo o time chegar a uma final e ser finalmente apresentado ao novo Wembley, onde será disputada a final contra o Cardiff. Novesfora estar vivo em ambas a competições, existe o fator estratégico, psicológico e moral de bater nessas copas as duas equipes merecidamente mais badaladas da Inglaterra. Sobretudo num momento em que os doze meses de Kenny Dalglish no comando do time não serviram muito para subir o Liverpool na tabela da Premier League. Se sua principal tarefa era voltar ao big four, o resultado efetivo, olhando hoje a tabela, é admitir apenas um lugar modesto no mid five, esses cinco times que lutam sem sucesso para acompanhar os times de Manchester na classificação (a saber, Tottenham, Arsenal, Chelsea, Newcastle e Liverpool). Ainda que nos números do campeonato a presença de Dalglish não se imponha de forma marcante, o espírito da equipe está significativamente mudado de um ano para cá, e parte disso é visível nas duas passagens pelos mata-mata dessa semana.

O Liverpool de Kenny Dalglish é um time raçudo e atlético, compensando em esforço e disposição o que não tem em brilhantismo. É um time que deveria depender do talento de Steven Gerrard, e que ainda aposta nele como maestro de sua equipe, um lance que é uma mistura de gratidão (pelas glórias passadas) e desespero (porque não há outra opção no horizonte). Na impossibilidade de Gerrard ocupar o papel que deveria ser seu (um tanto por suas contusões, outro por ser naturalmente oscilante), o Liverpool se reorganiza como um time fisicamente muito atlético no meio-campo, que confia ofensivamente nas disparadas dos meias Henderson e Downing nos lados de campo ou nas subidas dos laterais Campbell e José Enrique, que na melhor das hipóteses conseguem colocar a bola no pé de atacantes em condição de marcar. Um deles é gênio, Suárez. Em sua ausência, existe a garra de Craig Bellamy, a mobilidade de Kuyt ou o sabe-se-lá-o-quê de Andy Carroll. Contra o City na quarta, foi a garra que venceu, com uma atuação brilhante de Bellamy, que quase vomitou os bofes em campo, foi o termômetro de energia da equipe e terminou recompensado ao fazer o gol do empate que garantiu a passagem do Liverpool a uma final inglesa pela primeira vez em seis anos.

É uma coisa estranha de se dizer, mas o Liverpool lembra um pouco o futebol brasileiro dos últimos anos, ao menos na forma de conjugar disposição tática, força de marcação e ataque verticalizado pelas laterais. Com Suárez há mais opções, devidas à mobilidade do jogador e a seu talento. As forças do Liverpool de Dalglish, em todo caso, são a disciplina e o posicionamento na marcação, que garantem uma equipe coesa defensivamente e disposta a contra-ataques perigosos. Posto assim, é até explicável que o time brilhe nas partidas grandes e nos mata-matas, mas que empate excessivamente em seu próprio estádio (em que a prerrogativa do ataque é do time da casa) ou perde pontos preciosos contra times menores (igualmente armados na defesa). A posição do Liverpool nas tabelas inglesas dessa temporada é a antípoda de um paradoxo: ela é o espelho de um time aplicado mas que não sabe trabalhar a bola quando tem volume de jogo e uma defesa bem armada a transpor.

Na Europa continental, temos o duelo dos dois melhores times do mundo. E a grande novidade dessa volta da Copa do Rei, a bem-vinda novidade, foi que o Real Madrid efetivamente jogou como um dos dois melhores times do mundo, e no primeiro tempo poderia ter desferido um placar vergonhoso contra seus rivais da Catalunha, com direito a um tiro maravilhoso de Ozil, uma falha grotesca de Gerard Piqué logo no primeiro minuto de jogo e uma ou outra defesa perigosa de Pinto, que aliás também cometeu um erro grotesco de saída de bola não aproveitado pelo time de branco. Como quem não faz leva, o Real foi punido com dois gols no final da primeira etapa em que brilharam as estrelas de Messi, em mais uma arrancada sublime e um passe certeiro para Pedro Rodríguez, que substituíra Iniesta, machucado, e de Daniel Alves, com um fulminante tiro na entrada da área que acertou o ângulo de Casillas, já nos acréscimos.

O primeiro tempo foi do Real, com o ritmo do Real, e o Barcelona saiu vitorioso. No segundo tempo, o ritmo foi do Barcelona, com maior toque de bola, mas os erros de passe do primeiro tempo continuaram ocorrendo ‒ atribuíveis apenas até certo ponto à marcação do time de Madri ‒, e dessa vez os atacantes da capital espanhola souberam aproveitar, e Ozil deu um magnífico passe para Cristiano Ronaldo botar na frente, limpar do goleiro e tocar para o gol vazio, e poucos minutos depois Benzema receber um rebote vindo de falha individual de Xavi, dar um balão desconcertante em Puyol e tocar para o gol. A grande pergunta: o 2 a 2 representa o que foi o jogo? A resposta é dupla, oposta, esquizofrênica: se formos olhar os melhores momentos, não, mas se prestarmos atenção aos demais fatores envolvidos, sim. O Barcelona errou como poucas vezes acontece, e sofreu com atuações individuais sofríveis de Xavi e Fabregas, que apareceram pouco e mal no jogo. Mas o Real Madrid, por sua vez, novamente se mostrou incapaz de conter a mobilidade dos atacantes e meias do Barça por outro meio além das faltas, e deve dar-se por contente de não ter terminado o jogo com oito em campo (ironicamente, Pepe não está entre os que deveriam ter sido expulsos). O Barcelona sai como vencedor por ter jogado seu pior jogo decisivo em anos e ainda assim ter saído com um empate. O Real Madrid também sai como vencedor, mesmo derrotado, por ter provado que pode jogar seu jogo e derrotar seu maior rival sem ter que se armar taticamente como time pequeno. A nota amarga é a constatação de que as simulações de agressão e a catimba chegaram para ficar no clásico, com situações embaraçosas para Pepe, Piqué, Fabregas e Busquets.

Como nota final desta já longa coluna, gostaria de limpar a barra dos árbitros de ambos os 2 a 2 decisivos das copas. Não que eles tenham tomado todas as decisões corretas. Mas em nenhum momento foi tomada uma decisão que não fosse plausível ou coerente com a lógica seguida desde o primeiro minuto. Torcedores do Manchester City reclamam de um pênalti sofrido por Dzeko (que de fato aconteceu) e da marcação do pênalti por bola batida na mão de Micah Richards (lance interpretativo, em que pode plausivelmente ser argumentado que um defensor com os braços abertos estende ilegalmente seu corpo e que mesmo um toque sem intenção constitui infração), mas ambos são lances muito rápidos e fáceis de analisar apenas depois da câmera lenta. No caso de Barcelona e Real Madrid, a reclamação pela expulsão de Sérgio Ramos é ridícula. Ele cometera minutos antes uma falta besta, deixando um pezinho maroto para desarmar contra-ataque, sem luta por posse de bola, e antes dele Diarra já merecia ter sido mandado para o chuveiro antes de terminar o primeiro tempo. Coentrão é outro que poderia ter tranquilamente recebido o segundo amarelo. Diante disso, expulsar Ramos no finalzinho do jogo, mesmo que tenha sido por uma simulação em que Busquets barganhava uma agressão via cotovelo, é algo a se ctiticar? E puxar braço de marcador para ficar livre em bola parada e finalizar para dentro, ficou legítimo agora? O Real Madrid vale bem mais que isso, mas em certas horas nem os jogadores parecem lembrar…

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