Crônica de uma morte anunciada

Na temporada brasileira, que se iniciou nas últimas semanas, dois confrontos já adquiriram caráter decisivo: são os duelos entre Flamengo X Real Potosí e Internacional X Once Caldas pela pré-Libertadores, ambos definidos na próxima quarta-feira. Em caso de eliminação de algum dos dois times nacionais, sua participação no restante do semestre fica um tanto reduzida – sem Copa do Brasil, por ter ido à pré-Libertadores, e sem Libertadores, por ter ficado nela, o clube tem que se contentar com as migalhas de um campeonato regional inchado, falido e pouco competitivo. Como o cronista que vos escreve é carioca e, portanto, flamenguista, analisarei alguns pontos do rubro-negro da Gávea.

Apesar do quarto lugar no Campeonato Brasileiro do ano passado, uma posição até bastante razoável, mesmo que aquém das expectativas do clube e de sua altíssima folha de pagamento, não deve haver um torcedor rubro-negro que encha o peito, solte o grito e diga: “tivemos um bom ano”. Sim, ganhamos mais um Carioca de praxe. Sim, passamos o primeiro semestre praticamente invictos – apenas com uma derrota, que valeu por dez e custou a Copa do Brasil. Sim, contratamos a maior estrela do futebol brasileiro. Sim, mantivemos a maior parte desse elenco teoricamente vitorioso. Ainda assim, o time parece começar 2012 prestes a desabar num precipício sem fim, sem que haja qualquer corda de proteção à vista.

E por quê? Lembremos de alguns motivos:

1) Elenco. Ao contrário do que a presidenta Patrícia Amorim costuma pregar, o Flamengo não tem de fato um bom elenco, e seu time, em termos de quantidade, qualidade e flexibilidade, está muito distante de rivais do mesmo porte – Corinthians, Fluminense, Santos, Inter, São Paulo…

O plantel titular, envelhecido, não corre e tampouco marca direito, o que faz do time previsível no ataque e frágil na defesa. O goleiro é bom, apesar de não saber sair do gol, e seu maior problema é ter uma personalidade parecida com Bruno, de cuja história é melhor nem lembrar nem mencionar aqui. Passemos então aos zagueiros. Desatentos, descuidados, desajeitados e especialmente ruins em bolas aéreas, são como uma dupla antiga de filme de comédia, dessas que infelizmente não se fazem mais – ou melhor, se faz no Flamengo. Wellington, em especial, nosso rei das gags físicas, nosso Oliver Hardy sem bigode, com seu recorrente e infeliz problema para manter o peso e a bola, parece estar em campo apenas para Luxemburgo vendê-lo ao exterior e assim ganhar seus dez por cento por fora. Mas quem quer comprar?

Os laterais, apesar de bons, não representam mais a ameaça de antigamente, quando a força ofensiva de Juan e principalmente de Leo Moura abria espaços para o time e liberava a pressão do meio-de-campo. Se panela velha é que faz comida boa, essa já está um bocado requentada. Os volantes têm um problema curioso, alguns diriam um pouco contrário à própria essência do futebol: sabem marcar, mas não sabem passar, e isso quando já não sabem mais nenhuma das duas coisas, caso de Renato Abreu. Para piorar, o meio titular do Flamengo, hoje, é composto apenas desses volantes, porque futebol, afinal, não precisa de passe nem de velocidade nem de ataque. Do que precisa, bem, isso só o Luxa sabe responder.

O ataque tem um gênio (ou ex-gênio) do futebol, que parece muitas vezes ter perdido o interesse pelo jogo, talvez por não receber seus salários há meses, talvez por estar cansado da noitada anterior, talvez porque não tenha companheiros à altura mesmo. Parado na esquina, sem vontade de decidir nos momentos cruciais – como um LeBron James dos campos -, é, disparado, o nosso melhor jogador. Para finalizar, ou não finalizar, ou finalizar para fora, o centroavante é o Deivid. Desse não preciso escrever mais nada.

A base é variada, mas não é completa: temos, é verdade, a proeza de alguns volantes que até sabem passar, mas em geral os jogadores são ainda ou muito novos (Adryan, Thomás) ou muito limitados, caso de Negueba, cujo único fundamento que domina é o de correr, e depois disso de correr mais um pouco. Até Eder Luis sabe que fazer um cruzamento de vez em quando tem alguma importância. Não é o caso de pedir aqui por um Neymar ou um Lucas, que a gente sabe que quem não tem CT não pode cobrar muito, mas a verdade é que o Flamengo dos últimos anos ainda não conseguiu produzir nem um Oscar.

O resto do banco tem o Bottinelli – e só.

Visto assim, é quase um milagre termos alcançado o quarto lugar do Campeonato Brasileiro.

2) Esquema Tático. Esse item poderia se chamar Vanderlei Luxemburgo, mas certos nomes não merecem ser escritos em negrito que é para não inflar o ego. Como escrito, o Flamengo passou o primeiro semestre inteiro do ano passado com apenas uma derrota. Mas, como quem viu as partidas bem sabe, o Flamengo também passou o semestre inteiro do ano passado sem nenhum bom jogo. Se a presidenta do clube, por razões de marketing, pode até exaltar o primeiro feito, o técnico teoricamente deveria olhar apenas para o segundo. Mas, alheio a isso, Vanderlei manteve, até às raias do inacreditável, um time com base nesse grande retrospecto de sucessos magros contra os Boavistas e Bonsucessos e vitórias nos pênaltis contra os Vascos e Fluminenses. No discurso, uma (falsa) invencibilidade serviu como garantia de uma equipe bem montada pelo restante do ano.

E assim tivemos no Brasileirão um time cujos pontas (Gaúcho e Thiago Neves) ficavam isolados nos lados do campo, sem comunicação com o restante da equipe. Por não serem exatamente pontas de movimentação nem excelentes jogadores em nível tático, os dois mantinham-se por ali, esperando uma bola chegar, torcendo para ter alguém para passá-la. O grande problema é que esse alguém era um pouco difícil de existir, pois no restante do meio-de-campo ficavam Airton, fixo atrás, Williams, que até aparecia, mas errava o passe depois, e, bem, Renato Abreu, que não marca nem passa nem se coloca em campo. Renato Abreu funciona como uma autêntica âncora: se por um lado serve para dar espaços na defesa, por outro serve também para anular as jogadas de ataque.  Igualmente nulo em todos os sentidos. Mas, por motivos insondáveis, era – e ainda é – nosso titular absoluto.

Os laterais em geral não tinham espaço para subir, pois, naturalmente, as pontas já estavam ocupadas, e por isso mantinham-se meio atrás, meio na frente, meio em lugar nenhum, sem saber direito onde deveriam estar. Sobrava na frente Deivid, preso entre os zagueiros, e sinceramente ele não parecia preocupar-se muito com isso.

Para piorar, dos quatro homens mais adiantados da equipe (Deivid, Gaúcho, T. Neves e Renato), só o agora tricolor dava alguma movimentação, não sendo também exatamente um velocista. Dessa forma, restava um time lento e sem jogadas, absolutamente incapaz de criar uma triangulação, fazer uma movimentação de ataque anteriormente treinada, existir de fato como um time.

Os jogos seguiam num ritmo monocórdico, no qual os gols pareciam não uma dificuldade, mas uma impossibilidade física. Se praticamente tivemos o melhor ataque do Brasileirão, muito se deu por causa de lances isolados de habilidade de Ronaldinho Gaúcho (e essa estatística mostra que eles não foram tão isolados assim), de lances de sorte de Thiago Neves (que não jogou particularmente bem, mas teve estrela) e de lances de oportunismo de Deivid (o que nos faz imaginar de como seria se o time tivesse alguém de verdade na frente).

Fora isso, essa estatística diz muito, mas muito, sobre a qualidade técnica do Brasileirão como um todo. Onde mais um time mal treinado, lento, sem ataque e sem jogada, previsível, com um craque velho e desinteressado, ia se tornar praticamente o líder de gols de um Campeonato?

A defesa era um outro problema. Como nenhum dos quatro nomes acima mencionados marca de verdade, o Flamengo se tornava, absurdamente, um time de retranca no qual a retranca ficava sobrecarregada. E sobrecarregar Wellington só tem um resultado: bola na rede. Para pior, Alex Silva, a solução, voltou sem ritmo e sem vontade de jogo, rivalizando com Wellington para ver quem deixava mais o atacante do outro time entrar. Não que David Braz, Ronaldo Angelim ou Gustavo tenham feito papeis melhores. Um time lento, sem ataque e sem defesa – eis o Flamengo de 2011.

Quando percebeu que o esquema que tinha idealizado de fato não funcionava (e foram necessários dez jogos sem vitória para isso), Vanderlei tentou mudanças, lançou jovens promessas e voltou com velhos nomes felizmente esquecidos, como Fierro. Mas suas mudanças eram aleatórias e muitas vezes simplesmente não faziam sentido. As substituições no decorrer do jogo pareciam programadas de antemão, como se o jogo em si de fato não importasse. Garotos eram promovidos, barrados e assim queimados sem nenhuma explicação aparente. A única explicação possível é que o técnico tinha apenas um esquema, um único esquema possível, na cabeça, e sem ele simplesmente pifou. Técnico pifado só tem uma solução…

Novamente: visto assim, é quase um milagre termos alcançado o quarto lugar do Campeonato Brasileiro.

É claro que qualquer clube sério demitiria um técnico desses no início, no meio ou até no final do Brasileiro. Mas esse é o Flamengo. Uma multa milionária e o fato de Vanderlei gerenciar também a construção do CT impedem, ou pelo menos, dificultam muito que ele saia. Isso, aliás, merece um capítulo à parte.

3) A administração do clube. O Flamengo iniciou o ano passado com uma ótima notícia. Através de uma parceria com a Traffic, conseguiu contratar Ronaldinho Gaúcho, outrora melhor jogador do mundo, pela “bagatela” de um milhão por mês. Do Flamengo, saíam apenas 250 mil reais, e da empresa parceira o restante. Como ela lucraria? Sendo a responsável por achar um patrocinador máster para o time e conseguindo um percentual sobre o contrato quando o patrocínio passasse de 20 milhões.

Teoricamente, um ótimo negócio para o clube, não? O grande problema é que a Traffic não conseguiu esse tal contrato acima de 30 milhões (que é o quanto ela precisava para começar a ganhar dinheiro nas negociações), e, como não ganhava nada com um patrocínio menor, simplesmente preferiu não fechar patrocínio algum. Com isso, o Flamengo passou o ano sem ninguém para estampar a marca na camisa.

Precisando dessa grana, o time fechou com uma empresa sem avisar a Traffic, que ficou sem um tostão na negociação e se sentiu passada para trás. Como, absurdamente, nunca tinha assinado nenhum contrato com o Flamengo e toda essa parceria milionária estava amparada apenas por um “acordo de cavalheiros”, a Traffic naturalmente preferiu deixar de pagar o Gaúcho, esquecer o prejuízo e deixar tudo para lá. E como por fim, aparentemente, o Flamengo também não tem grana para o salário de seu craque, preferiu botar a culpa na empresa parceira e não pagar o maior nome do elenco.

Fora isso, o Flamengo não conseguiu, nesse meio tempo, fazer um, um, apenas um projeto de marketing vinculando a imagem do dentuço a algum produto ou projeto que revertesse sua presença em lucro. Mesmo com os “seis meses de invencibilidade”. Mesmo com a maior torcida do Brasil.

E assim começamos 2012. É só capitular.

O time com a maior torcida do Brasil sem nenhum patrocínio ou projetos de marketing; o time sem dinheiro para pagar salários em dia ou fazer contratações porque, afinal, passou o ano anterior inteiro sem patrocínio ou projetos de marketing; a grande contratação da zaga no segundo semestre do ano passado (Alex Silva) deixando o time na mão numa hora crucial porque o time está sem dinheiro para pagar salários em dia; o time devendo cinco meses de salário ao maior nome do elenco e postergando infinitamente o prazo de pagamento porque tomou calote da Traffic e passou o ano anterior inteiro sem patrocínio ou projetos de marketing; o maior nome do elenco desinteressado, chateado e fazendo o que bem deseja porque tem cinco meses de salário atrasado nas costas; o time sem poder cobrar do maior nome do elenco absolutamente nada porque deve a ele cinco salários; o treinador estrela brigado com o maior nome do elenco porque quer que ele treine, mas ninguém, nem ele, pode cobrar isso; o treinador estrela brigado com o vice de futebol e o diretor de finanças porque o time prometeu contratações, mas não tem grana para isso; o treinador estrela brigado com todo mundo porque, afinal, é uma estrela e se acha mais importante que o time, mas o time não tem dinheiro para demiti-lo porque, bem, acho que vocês já sabem.

Faltou apenas dizer que, como desculpa para isso tudo, o time manteve uma postura de dizer que, antes de contratar, estava trabalhando para renovar com as contratações da temporada passada – e esse trabalho todo resultou em, depois de meses de investidas e tratativas, ver um de seus maiores ídolos, Thiago Neves, trocar, por baixo do pano, a camisa do Flamengo pela do Fluminense. E que, para aplacar a ira da torcida, o time acabou contratando, a preço de ouro, um jogador supervalorizado mas identificado com o clube, como se fosse um ótimo negócio.

E assim chegamos a fevereiro.

Não é de se estranhar quando vemos o rubro-negro cabisbaixo, triste, revoltado, mesmo tendo o time na (pré)Libertadores da America, mesmo tendo tido um 2011 muito acima de 2010. Quando encontramos o rubro-negro sentado na calçada, antevendo a derrota, a desgraça, a tragédia, não é caso de confundi-lo com um torcedor do Botafogo que inadvertidamente trocou a camisa: a culpa não é do destino; a culpa é do próprio Flamengo.

E assim, se na próxima quarta-feira o time fizer o vexame de perder em casa para um grupo de jogadores semiprofissionais que mal sabem passar a bola (meio como onze Renatos Abreus), nenhum torcedor, pelo menos nenhum torcedor razoavelmente razoável, se surpreenderá. E se o Flamengo golear, porque afinal nada leva a crer que o Real Potosí seja melhor do que o Bonsucesso ou o Boavista, a peneira estará tapada – mas o sol, inclemente, continuará queimando.

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