O entrepasso

Era dia primeiro de fevereiro de 2012, uma quarta-feira. Eu voltava pra casa à noite e conferia no relógio que daria tempo de assistir aos dez ou quinze minutos finais do confronto entre Flamengo e Real Potosí, pela pré-Libertadores. Mas, sendo sincero, meu interesse no jogo era bem pequeno; claro que a ideia de chegar em casa e ter um joguinho pra ver é sempre bacana, mas minha animação não ia muito além disso. É provável que minha maior curiosidade fosse acompanhar a transmissão da equipe da nova Fox Sports pelo FX.

Estava há pouquíssimo tempo em frente a TV, quando, num ataque rubro-negro, Negueba desperdiçou um lance ignorando a presença de Ronaldinho livre pelo outro lado do campo. A transmissão imediatamente cortou para um plano próximo ao jogador, que fazia caretas, reclamava e gesticulava explicando o que seu jovem companheiro deveria ter feito: passar pra ele, claro. Passaram-se alguns minutos e, novamente, o Flamengo desperdiça um ataque onde a bola não chegou nos pés de seu craque maior. E lá foi a transmissão buscar Ronaldinho indignado, impaciente, querendo bola. É claro que a busca pelo plano próximo de Ronaldinho é algo quase obrigatório, ele é a estrela; e ainda havia todo o caso Flamengo/Traffic/salários. Mas aquela câmera, aquelas imagens, pareciam prever algo; pareciam suplicar para que a bola chegasse nele. Algo como: “não temam, não hesitem, dá no cara que ele resolve”.

Lá se foram mais alguns minutos mornos. O Potosí, precisando de um gol, vai a frente e deixa alguns espaços. Surge a oportunidade do contra-ataque rubro-negro. Léo Moura recebe a bola na direita e vê Ronaldinho na esquerda. Entendendo o que estava acontecendo, sabendo o certo a fazer, o experiente lateral direito inverte o jogo imediatamente. É um passe certeiro, mas alto e com força, uma bola difícil de se receber. O que se espera de um grande jogador? Que o difícil se torne fácil; a expectativa ali era de um belíssimo domínio, aquela bola que, por um instante, parece dormir colada à chuteira – matadas como as que Rivaldo fazia no seu auge catalão. E era exatamente isso que Ronaldinho pretendia fazer.

O que se espera de um craque? O inesperado. O domínio de bola não deu certo, não saiu conforme mandava o script. A bola dormiu, mas não pelo instante suficiente. Ela não voltou a quicar, ficou no chão, mas deslizou e perdeu contato com o pé do craque. A partir daqui, pensemos nas reações dos envolvidos no lance. Na hora em que a bola se aproxima do pé de Ronaldinho livre, o zagueiro mais próximo ao lance hesita. Sua reação parece evidenciar sua dúvida sobre o que fazer; ele sabe que Ronaldinho vai dominar a bola como ninguém e fazer o gol. O goleiro reafirma a ideia. Ele já se adianta em direção a linha da pequena área, tentando diminuir o ângulo para a finalização iminente que está por vir. Porém, o pequeno erro de Ronaldinho desmonta as dúvidas e certezas dos dois defensores. A bola escapou e é hora de dar o bote, diminuir o espaço. O zagueiro dá um pique pronto para o desarme e o goleiro vai em direção ao lance, também pretendendo abafar a bola. Ronaldinho não hesita nem por um instante. Como se tudo estivesse planejado, ele dá alguns pequenos passos em direção a bola, acertando a posição de seu tronco e a posição de seus pés. No meio daquele movimento, num instante imprevisível, num instante quase impossível, ele muda de direção. A bola, já completamente sob seu domínio, obedece milimetricamente. O zagueiro, claro, não acompanha e é atravessado pela pelota. O goleiro, sem entender exatamente o que havia acontecido, fica ali pelo meio do caminho sem saber pra onde ir. O canto esquerdo fica aberto e o gol se torna (como sempre parece ter sido) inevitável.

 

Esse lance me remete ao dribe de Neymar sobre Ronaldo Angelim em seu gol antológico contra o próprio Flamengo. E, nesse caso, uma lance muito mais difícil, mais vistoso, já que em velocidade e passando por vários adversários. Neymar chegou frente a frente com Angelim após um toque de direita que o livrou de seu perseguidor. O zagueiro flamenguista se postou para impedir o avanço do santista, mas o jovem craque tocou novamente a bola com a sola do pé direito, rolando-a em direção ao esquerdo que, naquele semi-instante, a adiantou com perfeição, deixando Angelim de braços abertos, como se a situação estivesse sob controle e fosse impossível Neymar dar prosseguimento ao lance. Não havia tempo aparente para esses dois toques na bola. Esperava-se mais um passo, mais um instante. Mas, entre eles, existe o craque.

 

E é aqui que vive a diferença entre o bom, até o grande jogador, e o craque. O grande jogador faz coisas belíssimas; lindos voleios, bicicletas perfeitas, grandes lançamentos, lances dignos da mais bela placa. Mas, com o craque, vive o imponderável. O erro se torna apenas mais um elemento da obra-prima final. Vemos um novo instante surgir num movimento que nossos olhos mal conseguem assimilar. O craque é aquele que desafia as leis da física e não joga no passo, como um simples mortal; ele cria no entrepasso.

Pra não perder a oportunidade, ressalto também o segundo gol de Messi contra o Santos na final do mundial interclubes. A bola vem da esquerda para Messi que se projeta em velocidade rumo ao gol. O passe é forte e um pouco atrás em relação ao rápido movimento do craque argentino. Com o pé esquerdo, Messi como que  engancha e puxa a bola para o trilho e ritmo de seu movimento. Porém, o toque parece forte demais e a bola se desgarra. Não há passos suficientes para Messi chegar antes do goleiro santista, que sai assertivo em direção a bola. Mas o que parecia um erro, revela-se uma isca e aparece esse instante quase ficcional, mudando a direção da bola e fazendo Rafael passar reto, vendido. E o gol surge completamente aberto e convidativo para o melhor jogador do mundo.

 

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