Bundesliga, a liga

Grafite, melhor jogador do campeonato em sua última edição digna da emoção


Venho, nos últimos textos, tratando em pequenos comentários da atual Bundesliga. Essa temporada tão equilibrada tem reacendido a disputa nesse torneio. Com os estádios mais cheios da Europa, a Bundesliga tem um mérito que poucos outros locais tem no continente. A Alemanha valoriza o público, sem o lobotomizar. Explico: ao contrário do público de teatro da Inglaterra ou da apatia madrilenha na Espanha, por exemplo, a torcida na Alemanha é vibrante, louca. As cidades se fecham nas suas equipes, tanto que os campeões de torcida não são necessariamente clubes imensos; vide Dortmund e Schalke. Gelsenkirchen, a cidade onde o Schalke nasceu e vive, é uma cidade relativamente pequena, de menos de meio milhão de pessoas, mas, como todos os times de lá, tem os ultras, abreviação para os ultra apaixonados, que assistem aos jogos sempre de pé e berrando. A questão é que lá, como em Dortmund, o time tem um papel central na existência das pessoas. Por isso, uma localização mais suntuosa como Munique não tem esse mesmo atrativo. Ou mesmo Berlim, a capital, que tem um dos times menos interessantes da Alemanha, o Hertha, que vive basicamente do fato de ser o time de Berlim.

Mas falemos de futebol. Recentemente vimos alguns times dispararem sem piedade, como o Dortmund ano passado, abrindo mais de dez pontos a quinze rodadas do fim. Ficava evidente, é claro, sua superioridade. A equipe de Dortmund tinha média de 22 anos e trazia revelações em todas as partes. Mats Hummels na zaga, Sahin, Grosskreutz, Kagawa no meio, uma variedade de estilos e nacionalidades. E, claro, Mario Gotze, a estrela do time, alçado como novo grande talento de um país tão rico em futebol ainda aos dezenove anos. Seu encaixe na seleção não demorou, e o sucesso de jogadores do Dortmund também por lá ajudaram a diferenciar o talento do Dortmund dessa geração de um bom time como aquele do Wolfsburg que venceu o título há três anos – talvez o último campeonato tão disputado quanto o que vemos hoje.

A equipe de Wolfsburg, da cidade da Wolks, a montadora, realmente era um timaço. Mas um timaço de tiro pequeno, que viveu seis meses perfeitos. Pra se ter uma ideia, os “lobos” – como são apelidados – eram apenas o oitavo passada metade do campeonato. O grande time alemão, Bayern, jogou mal demais do início ao fim daquele ano, quando Jurgen Klinsmann se arriscou a assumir o time. Deu num tremendo fracasso, queimando jogadores ótimos como Klose e Podolski e acabando de vez com a carreira em grande futebol de Luca Toni. Um ano antes, esse mesmo time, com esses mesmos jogadores, havia sobrado no campeonato.

O Wolfsburg tinha Josué na melhor fase, colocado como capitão por Felix Magath, e Mismovic como o cérebro; provavelmente era ele o craque do time, embora os louros ficassem para os atacantes. Um jogador inteligente, de ótima visão, Misimovic foi eleito o melhor meia daquele campeonato; desde então, infelizmente jogou apenas em times menos interessantes, o Galatasaray e o Lokomotiv , o que é uma pena. Para se ter uma ideia, quando foi substituído por Diego, na temporada seguinte, o que se viu foi um desastre que quase fez do time um rebaixado. Cito esse caso porque Diego é um jogador que os brasileiros conhecem e sabem que é bom; além disso, foi, alguns anos antes, o destaque da Bundesliga pelo Werder Bremen. Mas Misimovic, no Wolfsburg, era incomparavelmente superior.

Grafite teve seu ano de ouro, e o time ainda revelou no segundo semestre o Dzeko. Juntos, fizeram quase sessenta gols. Grafite fez um a mais e por isso foi o artilheiro. Vale dizer que esse foi o ano em que o Hoffenheim, então conhecido no Brasil por ser o time que nem na segunda divisão ainda estava quando contratou Carlos Eduardo, fez muitos duvidarem do que viam. Foram campeões do turno inicial com Ibisevic, um centroavante bósnio, em estado de graça – ele tinha praticamente média de um gol por jogo até estourar o joelho e perder todo o outro turno. Difícil saber o que teria acontecido se Ibisevic continuasse saudável.

Os anos seguintes foram chatos, sem grandes disputas, com Bayern e Dortmund sendo líderes disparados. O Schalke teve uma temporada interessante, mas enganadora, com sua ida às semis da Champions. É tranquilo dizer que esse acontecimento não passou de acidental. Mas o mérito, especialmente de Raúl, que foi corajoso ao ir jogar noutro time depois de décadas, não pode ser negado.

O que será da fase final desse campeonato é difícil saber, mas dá pra dizer que a Bundesliga tem de novo a cara de sua torcida. A cara de emoção.

* * *

Nesta semana, após um período de guerra com a FA e a imprensa da Inglaterra, foi anunciado o pedido do técnico Fabio Capello de demissão da seleção inglesa. A imprensa caiu em cima dele, o acusando de abandonar o time. Mas a verdade é que seria um absurdo dizer que havia qualquer clima para continuar. Depois de trocas de acusações, Capello não seguiria comandando um time para quem não o queria. Só que é mais prático, como sempre, linchar o indivíduo.

O trabalho de Capello foi brilhante em muitos momentos, mas foi ruim na hora da Copa, o que faz toda a diferença, e se a demissão ocorresse por esse motivo, teria sido bem recebida. Mas demitir, e atacar, o técnico que defende um jogador?

John Terry, então capitão, foi acusado de racismo contra Anton Ferdinand, jogador do Queens Park Rangers, o que levou a FA a considerá-lo inapto para esse posto. Capello saiu em defesa dele, dizendo que o jogador não havia ainda sido julgado, que não o podiam incriminar, e o pior, que estavam passando por cima de sua autoridade. Com sua força sobre o elenco abalada, sem a FA ao seu lado, não fazia sentido continuar.

Resta esperar agora algum amadurecimento da imprensa, que ela passe a tentar ver para além de preconceitos tão medonhos quanto os acusados ao Terry.

O novo caminho deve ser o de Harry Redknapp, o melhor técnico inglês atualmente, pois a FA anda sentindo a pressão do povo local. Mas será que ele deveria ir pra lá? Afinal, a Eurocopa tá aí. Não haverá muito preparo. E o Tottenham vive seu melhor tempo. Seria, por um risco enorme de fracasso, deixar o lucro do Tottenham para quem quer que assumisse.

Guus Hiddink foi outro que teria se oferecido. Guus é um grande treinador que vem tendo nos últimos anos trabalhos menores, inferiores a si. Ele já provou ser capaz de assumir um time e fazer dele campeão em pouco tempo, vide o Chelsea, que pegou no começo de um semestre e levou ao título da FA Cup, com todos suplicando para que ele não fosse embora. Mas, como sempre, Guus preferiu dirigir times nacionais, e deixou os ingleses na mão. Seria a chance de recuperar esse momento e, quem sabe, reformular a seleção. Acho que ele é capaz, e é um dos poucos que pode realmente fazer isso em tão pouco tempo.

Outras figuras teriam aparecido se oferecendo, mas nenhum deve ter condições de assumir. Um outro caminho possível, e menos radical, é que Stuart Pearce, o treinador do time sub-21, possa assumir. Ele é bom técnico, ou ao menos é o que se prevê pelos números.

* * *

Apostas na Champions:

Zenit x Benfica – ZENIT.
CSKA x Real – REAL
Apoel x Lyon – LYON
Arsenal x Milan – ARSENAL
Internazionale x Olimpique de Marselha – INTER
Bayer Leverkusen x Barcelona – BARCELONA
Chelsea x Napoli – CHELSEA
Basel x Bayern de Munique – BAYERN

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5 respostas em “Bundesliga, a liga

  1. A torcida da Bundesliga é fantástica, mas eu tenho algumas dúvidas quanto a real qualidade dos times, em parte por causa do mau desempenho na CL (mas, sendo justo, daria para usar o mesmo argumento com os ingleses esse ano, embora as eliminações de Manchester tenham sido aberrações).

    O pedido de demissão do Capello é um assunto cheio de nuances, que uma imprensa que quer “um técnico inglês” dá pouco espaço, mas antes dele virar mártir convém lembrar que, em parte, ele mesmo criou esse imbrólio com John Terry e a faixa de capitão desde o Bridge, ou seja, foi inconsistente em suas decisões e se comunica mal com a imprensa.

    Quantos palpites na Champions baseados só na camisa, Gui! Os meus:

    Zenit x Benfica – BENFICA
    CSKA x Real – REAL
    Apoel x Lyon – LYON (mas se tem uma zebra realmente possível é esta)
    Arsenal x Milan – ARSENAL
    Internazionale x Olimpique de Marselha – OLIMPIQUE
    Bayer Leverkusen x Barcelona – BARCELONA
    Chelsea x Napoli – NAPOLI
    Basel x Bayern de Munique – BAYERN

  2. Eu concordo que envolve nuances, e que o Capello já havia ele mesmo tirada a faixa do Terry antes, mas a diferença concreta ali é que o Terry fez, inegávelmente, o que lhe tirou ela, agora o cara nem foi julgado.

    E de cara no primeiro palpite o teu troca em relação ao meu um de menos camisa por um de mais… A Inter eu at´vejo não indo, mas o Napoli acho difícil, a fase deles é longe de boa, se o Chelsea vai mal, o Napoli vai bem pior, já que ocupa posições inferiores num campeonato bem pior que o PL hehe. Gosto do Napoli, mas eles não tem engrenado, acho que já foram até onde conseguem ir.
    O Basel me parece um time bom, mas caiu contra um ruim de enfrentar

  3. Tudo bem Filipe, eu não sei como funciona exatamente o ranking de desempenho, mas uma simples olhada nas tabelas de mata-mata das últimas, digamos, cinco ou seis Champions, revela que só o Bayern de Munique vai longe de fato (em alguns anos nem isso, mas pelo menos teve um vice). E o Schalke, vamos concordar, foi uma grande zebra. É possível que estejamos vendo o começo de um novo período de ascenção dos clubes alemães na Europa? Tudo bem, é possível. Meu ponto é: são bons times, o campeonato é bom (melhor que o italiano, com certeza), mas ainda parece faltar força ou experiência para os clubes (especialmente aqueles sem Munique no nome). O melhor exemplo que posso dar é do Borussia Dortmund, campeão alemão, eliminado na 1ª fase.

  4. Bruno, nos ultimos 5 anos em media chegam 2 ingles e um espanhol (nas costas essencialmente do Barcelona) as semifinais, das outras 5 vagas foram 2 alemães, 2 italianos e um frances. Nas quartas são 13 ingleses, 7 espanhois e 5 alemães e italianos.

    Alias, Schalke ganhou o mesmo numero de jogos de mata mata que o Real Madrid neste periodo e ganhou uma serie a mais. Claro que o Real é melhor, mas menciono isso para apontar que salvo por Barcelona, Manchester e Chelsea literalmente ninguém produz regularmente na Champions nos ultimos anos, então falar que só o Bayern mesmo que vai bem ignora que fora da Inglaterra isto vale para todos as ligas. A grande questão na Alemanha – que eu diria ser um dos trunfos para a qualidade da Liga mas que reflete mal na Champions – é que as regras financeiras lá tornam muito facil uma rotação maior no topo, então os times sequer vão a Champions com a mesma frequencia do que nas outras ligas top (até o todo poderoso Bayern falhou de ir num ano).

    E eu realmente acho um erro enorme julgar a qualidade das ligas pelo desempenho na Champions já que isto no máximo te dá uma noção distorcida dos times top (basta pensar na serie de eliminações em oitavas do Real ou neste ano nos dois Manchesters ou mesmo do Dortmund que é bem melhor que qualquer time italiano). A Bundesliga tem bem mais times de qualidade no bloco intermediario que o Espanhol e o Italiano (o Hamburgo que é o decimo colocado lá brigaria por vaga na Champions na Espanha). Inclusive isto tem o efeito de desgastar os times mais fortes muito mais do que nestas ligas inclusive porque ao contrario dos ingleses eles não tem grana para ter bancos de luxo.

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