O estranho caso do Barcelona

Entendendo o time do Barcelona

Em certo momento de O Estranho Caso de Angélica, último longa de Manoel de Oliveira, o protagonista Isaac, transtornado com a assombração da falecida, vai ao campo tentar esquecer seus fantasmas. Chegando lá, segue uma carroça que trota pela estrada. O que vemos então, em se tratando de uma obra de Manoel, parece-nos quase inaceitável. O filme, de súbito, sem aviso prévio ou preparação, procura nesse trotar reproduzir o estado de espírito do fotógrafo judeu; a câmera na mão, cambaleante, desgovernada, imita o passo dos cavalos e a tensão de Isaac, os dois no mesmo movimento: um exterior e outro interior.

São dois planos em sequência, absolutamente alheios à estética do filme e, podemos afirmar, à do próprio Manoel. A câmera mais parece um objeto roubado de um curta ruim dos irmãos Dardenne, atrapalhada, tateante, de uma maneira ingênua, quase infantil. Assistimos, em choque, a essa curta sequência alienígena, uma sequência fracassada, que talvez devesse ser esquecida na hora da montagem. É quando percebemos que se trata, na verdade, de uma sequência absolutamente fundamental, talvez a mais fundamental de todo o filme.

No restante do Estranho Caso de Angélica, reconheço, estamos em terreno familiar: os bons e velhos enquadramentos precisos, pictóricos; os planos rigorosos, fixos, ou quando não, movimentos suaves e elegantes de câmera; os cortes desestabilizadores, rearrumando o eixo à necessidade das cenas; o senso de humor agudo e discreto; a frontalidade desconcertante e reveladora das ações. Mesmo nas novidades, que não são poucas (em especial o uso brilhante, fantasmático e quase nostálgico de efeitos digitais), Manoel mantém uma identidade facilmente reconhecível.

Mas existe um momento, no entanto, que essa identidade propositalmente escapa: são os dois planos citados anteriormente, os planos da câmera na mão. E esses “erros” talvez sejam mais significativos do que todo o resto de seus acertos.

Manoel, do alto de seu centenário, poderia repetir para sempre o que vem praticando desde jovem, e provavelmente conseguiria aí mais uma meia-dúzia de obras-primas. Todos aplaudiriam; eu, inclusive, seria o primeiro. Como diz o ditado: “em time que está ganhando não se mexe”. Mas o Homem não envelhece; por isso tenta, e por isso erra. Ele não se acanha em empunhar uma câmera na mão canhestra e desajeitada, como um pobre estudante qualquer. Manoel sabe que a arte não é feita apenas de acertos. Ele tenta ir além, encontrar aquilo que, em oitenta anos de cinema, ainda não aprendeu. O medo, esse sentimento dos medíocres, dos covardes, dos retranqueiros, Manoel deixa para os simples mortais.

Mas regressemos à terra. Esse blog, afinal, é um blog de futebol.

Na semana passada, no bar, enquanto reclamava do Renato Abreu como novo camisa dez da gestão de Joel Santana no Flamengo (mas tergiverso; isso é um texto futuro), iniciei uma conversa com Guilherme Martins sobre o melhor time, por unanimidade, dos últimos cinco anos. Nela, criticava o Barcelona e seus recentes fracassos, argumentando que isso, talvez, viesse de uma necessidade boba de Pep Guardiola em mudar seu esquema. Uma necessidade sem necessidade alguma.

Afinal, ele barrou Pedro e Villa – titulares da campanha irretocável do ano passado – sem nem dar aos dois uma chance real nessa temporada (digo isso antes da séria contusão do espanhol); colocou Daniel Alves na ponta quando ele funcionava perfeitamente começando na linha dos zagueiros, ocasionando assim uma série de impedimentos do lateral seguida de gols nas suas costas; atrasou Messi mais para o meio-de-campo, onde seus dribles demoram para encontrar a área adversária e consequentemente o gol; ele, enfim, sem mudar o esquema de fato, tentou melhorar o que, na temporada passada, aparentava ser perfeito.

Já passadas algumas Serramaltes (explico: eu estava em São Paulo), eu dizia, para quem quisesse ouvir, que do ponto-de-vista prático, essas ações eram inaceitáveis. Afinal, “em time que está ganhando não se mexe”. A velha máxima futebolística, tão antiga quanto a própria criação da bola, aqui se estabelecia novamente. Guilherme concordou, balançou a cabeça, pensou e deu a sentença definitiva: – “mas para o Barcelona ganhar talvez não seja o princípio”.

Eu voltei andando pelas ruas bêbado (creio que nesse momento da história isso já pareça uma redundância), pensativo, remoendo as palavras de Guilherme. Como alguém pode subverter uma máxima tão óbvia, clara, cristalina? Uma máxima tão máxima quanto a terra é redonda e dois e dois são quatro? Uma máxima tão simples e correta quanto a regra de impedimento? Como, para um time de futebol, o princípio máximo, mínimo e único pode não ser ganhar?

Quando, no dia seguinte, assisti ao Estranho Caso de Angélica, pude, enfim, encontrar a resposta. A cada plano de Manoel, entendia melhor a filosofia de Pep Guardiola. Os enquadramentos únicos, perfeitos, me remetiam aos dribles de Messi. A obsessão de Ricardo Trêpa aos passes de Xavi. O CGI que conduz Pilar Ayala rumo aos céus à posse de bola sobrenatural de seus jogadores. A câmera tremida de um Paul Greengrass amador às derrotas e falhas inexplicáveis dessa temporada.

Está certo: para o Barcelona chegar a Manoel de Oliveira, ainda precisa comer muito arroz de polvo. Mas talvez o time catalão hoje, após um ano de sucesso absoluto e outros muito acima da média, após nos ensinar como se pratica um futebol nunca antes visto, esteja como a carroça desembestada do filme do sábio português. Procurando novos caminhos, voltando à escola, fracassando miseravelmente; porque ganhar, acertar, encantar sempre talvez não seja mesmo, no fundo, o princípio de absolutamente nada.

***

Esse é o terceiro de uma série de textos que estou escrevendo sobre o Barcelona. Os dois primeiros podem ser lidos aqui e aqui.

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