O passarinho do Nelson na era da ubiquidade do videotape burro

A lição do Nelson Rodrigues cronista futebolístico é clara: o futebol é épico e o recurso à objetividade o reduz a um joguete de dados informativos, finalmente banalizando aquilo que deveria ser o último repositório cego da paixão. Um passarinho inventado num incêndio vagabundo pode ser uma mentira, mas ele redime o fogo e cria uma carga de dramaticidade que restitui ao evento sua vibração original. Da mesma forma, o videotape, que permite a análise da jogada em posições de câmera e velocidades diferentes, noves fora o deslumbre da tecnologia, acaba transformando a emoção em um discurso de certo e errado, o que pode ser muito bom para juízes e para dirigentes reclamões, mas desvirtua o calor da discussão para um papo praticamente oposto à beleza e aos circuitos de emoção de que o esporte é feito.

Glauber Rocha, polemizando, dizia que Machado de Assis era o rio encanado enquanto José de Alencar era o encontro do Rio Negro e do Solimões. Não precisamos concordar para entender que o passarinho e o videotape burro de Nelson Rodrigues encontram-se nesse mesmo registro grandioso, de uma prática jornalística-artística que transporta e comove através da linguagem, e assim faz jus à opulência dos sentimentos que o futebol desperta.

Diante de tudo isso, dizemos: é ótimo se isso render um Nelson Rodrigues. Só que a invenção de passarinhos em incêndios não está restrita aos gênios, e em geral as discussões de videotape burro têm entre seus interlocutores os chatos de botequim fechados em suas próprias verdades, não os dramaturgos fascinados pelas catarses da experiência humana.

Há, no entanto, uma mudança ainda mais séria a pôr em risco o triunfo da imaginação sobre a objetividade: é que de lá pra cá a confiança na evidência da imagem aumentou, e efetivamente se não vemos um passarinho em meio às chamas, esse passarinho não existe. Antes o estatuto da escrita tinha a força de um mandamento escrito em mármore: era o registro da imortalidade dos grandes feitos. Hoje é apenas a tirinha modesta que mostra o passarinho, e à imagem, essa sim, onipresente, total, panóptica, cabe brilhar.

Atualmente, é impensável discutir sobre objetos ausentes da imagem sem suspeitar de sua não-existência. Podemos pensar na segurada de camisa de Júnior Baiano na Copa do Mundo, uma infração marcada pelo juiz mas não ratificada por nenhuma câmera de vídeo que cobria a partida no estádio (a correção veio após o jogo, no testemunho único de um fotógrafo que flagrou o momento do agarrão). Ou, mais pateticamente, no objeto pesado que teria sido jogado na cabeça do então candidato à presidência da república José Serra, e que rendeu-lhe por algumas semanas piadas com a expressão “bolinha de papel”.

O passarinho do Nelson, convenhamos, é hoje impossível. Suas premissas, no entanto, são talvez ainda mais urgentes, no jornalismo e fora dele. O comodismo e o consumismo são parentes próximos do sedentarismo intelectual, e nossa era anda tão maravilhada com as potencialidades do LED, do HD, dos iPads e dos smart phones que se crê plenipotenciária quando, na verdade, está apenas mais dependente de dados e de coordenadas inofensivas para preencher seu cotidiano. Alguns chamam isso de diversão. A banheira de pequenas emoções encanadas nunca esteve tão cheia, mas o épico permanece do lado de fora da janela, rindo do Narciso de aquário em regime de perene autocomplacência. Pobre São Tomé de dedos enrugados, e todos nós somos um pouco essa figura, cada vez mais contemporânea.

O que não pode escapar de vista é que a escrita – e no caso a escrita sobre esportes – permanece tendo poder transportador à medida que filtre informações e forneça ao leitor condições de unir ou sintetizar imagens (linkadas ou narradas, pouco importa) capazes de transportá-lo e transformar a leitura numa aventura do pensamento e da sensibilidade. Remeter ad infinitum para a era dos passarinhos chamuscados e da burrice do VT é uma bobeira que derrapa ora na preguiça, ora numa incompreensão do tempo que se vive. É preciso lutar contra algumas das marcas desse tempo, não com as armas de Nelson, que simplesmente não surtem efeito hoje em dia, mas com seu instinto e com o clamor do épico que ele tanto defendeu.

Lutar assim, hoje, não é mandar às favas os tira-teimas e as estatísticas. Eles já são instituições da análise esportiva, e eventualmente nos permitem compreender de fato o que ocorre em campo. O fundamental é saber que o esporte não se reduz a isso, a taxas de acerto, a apitos desleixados, a linhas de impedimento, a porcentagens de desarmes realizados. O neoprimitivismo mitificante é tolo, mas a análise robótica não fica atrás em níveis de idealismo pseudocientífico. Nenhum risco, no entanto, em flertar com ambos sabendo das deficiências inerentes a cada um dos modelos.

A luta a ser travada, sempre, é saber que o holofote deve estar no drama humano. O videotape pode ajudar, o tira-teima também, a reprodução dos melhores momentos etc. Mas é o drama da vitória, do arranque, da plasticidade, da superação, da articulação tática, de todas as variáveis, que compõem a experiência esportiva. E é igualmente necessário saber que a escrita não é apenas um veículo através do qual o drama é narrado, mas que ela também é parte dele. Não com adjetivações de valor questionável ou descrições superlativas, mas simplesmente através da seleção do momento a contar (algo que o VT pode fazer também) e do engenhoso lapidar das circunstâncias que envolvem esse momento, psicológicas, físicas, emocionais, lógicas e outras (o que está muito aquém do registro de imagens e dos efeitos pós).

A luta é dar tempo à reflexão, restituir à experiência sua dramaticidade e fazer da escrita mais um palco do teatro vital, que move tanta gente em busca de emoções a fim de quebrar o ramerrame tedioso da objetividade cotidiana.

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