Tottenham, o novo antigo grande

Londres tem incontáveis times de tradição. Podemos dizer que é a casa de pelo menos três enormes confrontos: Arsenal vs Tottenham, Millwall vs West Ham e Chelsea vs Fulham. Isso sem esquecer de outros times tradicionais, como o Queens Park Rangers. Se West Ham e Millwall, que se degladiam num nível único, pode ser considerada a mais violenta das rivalidades, Tottenham e Arsenal talvez possa ser considerada a mais dura, no sentido de que os times de fato rivalizam por algo mais que um bairro, que a simples gana de se odiar o adversário. São times grandes, de ambições grandes. E isso faz com que a vitória de um time seja tão sentida quanto a derrota do outro.

Um exemplo disso aconteceu recentemente, quando o Arsenal conquistou uma vitória emocionante contra o Sunderland na Premier League, marcando o gol da vitória aos 37 do segundo tempo. Em vez de comemorar, Jack Wilshere, meia do Arsenal criado por lá, disse que o Newcastle, que estava sendo goleado pelo Tottenham, acabava com o seu dia. Assim é o histórico entre esses dois times.

Nos últimos anos, o sucesso do Arsenal foi muito maior, especialmente depois da chegada de Arsène Wenger, que recolocou o time como um dos grandes do mundo. É fácil de se esquecer, mas Wenger revolucionou muito o estilo do futebol. A Premier League deve a ele o fato de seus jogos hoje serem mais vistosos, técnicos; o Arsenal é a cara do bom futebol desde que ele está lá. É preciso dizer, também, que o técnico é tido como uma das melhores pessoas no mundo do esporte, tratando de forma especial cada um que trabalha com ele – pergunte a quem já fez parte de seu time. Mas chega de Wenger e chega de Arsenal, que esses nem são o assunto do texto.

Vamos, enfim, a seu rival. O Tottenham gozou de grandes times em alguns momentos da história. Nos anos 70, foi até postulante a título europeu. É um grande, tanto na torcida, fanática, que lota seu estádio num dos bairros mais pobres de Londres, quanto na tradição. Mas há algum tempo vinha decaindo. Após alguns anos ruins, em que Martin Jol e Juande Ramos não conseguiram dar um padrão tático e competitivo ao time, alternando momentos de bom e mal futebol, a melhor decisão da diretoria veio com a contratação de Harry Redknapp. Ao contrário dos outros dois, Redknapp encontrou logo um formato pra equipe. O Tottenham aprendeu a usar os lados do campo, muito ao estilo do melhor Sevilla de alguns anos atrás. Aaron Lennon sempre foi importante nisso, mas após Redknapp chegar, ele foi pouco a pouco redescobrindo no elenco outros grandes jogadores. E muito de seu sucesso deve-se à revelação de Gareth Bale.

Gareth Bale não foge do jogo

Muitos nem lembram, mas Bale começou no Tottenham como lateral. Enquanto jogadores menos incisivos jogavam ali na frente, ele fazia uma dupla com Corluka, que defendia enquanto Bale atacava. Após algumas tentativas infrutíferas com jogadores agora já esquecidos, Redknapp percebeu que o craque do time sempre esteve à sua vista, e o avançou de vez. Suas jogadas são impressionantes, e mesmo nos momentos mais discretos ele ainda domina os laterais adversários. Parece que sua habilidade nos pés é tão nata que sequer passa pelo cérebro. Bale é um cara que não pensa duas vezes antes de dividir, de tentar passar pelos marcadores; um jogador que marca muitos gols finalizando cruzado sem qualquer visão do alvo. Fora isso, ele bate faltas, chuta bem de muitos lugares e tem a mentalidade de vencedor. É, enfim, um jogador completo. A passagem de Bale para o meio marcou o início do sucesso do Tottenham, que chegou à Champions pela primeira vez em anos.

Mesmo assim, um dos dramas de Redknapp continuou: encontrar, na frente, o atacante ideal para o galês. Muitos tentaram ser esse jogador, como Pavlyuchenko ou Peter Crouch. Antes deles, Darren Bent era o titular, mas logo saiu com as novas contratações. O mesmo aconteceu com o grandalhão inglês, que fez sucesso, bem mais do que os críticos pensam, mas abaixo da referência que o time necessitava. A verdade é que Jermaine Defoe sempre foi o melhor nome para a posição, mas Redknapp nunca confiou nele. Muito baixo, sem porte, irregular. Só que o baixinho é bom, e deve servir de opção mesmo sem ser um ídolo.

Mas nessa temporada, algo mudou. Depois de tantos nomes, chegou Adebayor. O atacante, que fez muito sucesso no rival Arsenal, chegando a ter inclusive temporadas de craque, não conseguiu o mesmo no City, que o trouxe junto com Robinho. Na época de sua ida para Manchester, a torcida dos Gunners já havia odiado Adebayor; mal sabiam eles que no final das contas o togolês faria a passagem, muito mais desesperadora, para o Tottenham. E que teria finalmente uma volta aos bons tempos de quando jogou no Arsenal. Adebayor pode não ficar em definitivo, mas tem tudo a ver com a principal mudança do time na temporada.

Redknapp remontou o time em torno do centroavante togolês. Com um cara mais forte na frente, o posicionamento de Van der Vaart, outra contratação importante da temporada passada, foi repensado, e o holandês acabou caindo para o lado do campo. Antes atuando quase como um atacante de ofício, Van der Vaart rendia menos do que podia. Ele é um bom jogador, mas avoado. Aliás, o meio, como um todo, é determinante para o sucesso do time. Luka Modric, que Redknapp recusou-se a vender por milhões, é o principal armador. Não é, nem nunca foi, um clássico meia; sempre fez o papel do médio central, próximo do que Fábregas fazia no Arsenal. É um jogador que olha pro jogo, movimenta o time, aparece na frente, mas não tem o marketing pessoal e nem o ego do espanhol. É bem verdade que também não faz os gols de Fábregas, o que sempre lhe fez parecer pior que o rival, com certa justiça.

A chegada de Scott Parker, e a ida de Van der Vaart pro lado, tiraram Aaron Lennon do time principal. Isso e uma lesão. Parker é um fenomenal volante. Talvez o melhor do mundo hoje, nessa função de destruidor. É um jogador sério, com capacidade de motivar o time, que não deixa uma bola passar sem pegar nela. Ainda precisa de mais sucesso para entrar na História como um jogador vitorioso, mas tem o potencial. Merece já ser o novo capitão da Inglaterra. Com Modric e Parker, tem sido muito comum, nas partidas em que Lennon fica fora (e elas são cada vez mais numerosas), que outro volante jogue ao lado de Scott. Geralmente alguém mais orientado a ir à frente, como Huddlestone, com sabugos de longe, ou Sandro, que marca mais, mas tem boa chegada. Apesar de ter feito sucesso no time, o brasileiro também sofre com lesões.

O maior problema do Tottenham está nas laterais. Assou-Ekkoto é até um bom jogador, mas inferior ao nível geral. O fato é que o Tottenham já não pode ser time pra brigar por quinto, sexto da liga, e num nível maior ele destoa. Walker, garoto, ainda é promessa, mas é a priori um problema ainda maior. Fato é que times maiores sofrem com isso também, como o United, mas este tem uma estrutura mais bem organizada, com mais opções, e acima disso o técnico tem todo o elenco plenamente confiante nele. Isso tudo torna o processo de improviso de jogadores mais prático e plausível. O Tottenham ainda está em processo de construção, buscando montar um elenco mais completo. Os zagueiros, por exemplo, são muitos, bons e experientes. Ninguém ali é gênio, mas todos são bons o bastante.

Ano passado, a equipe ficou em primeiro na Champions num grupo com a Inter, superou o Milan nas oitavas e terminou perdendo para o Real Madrid. O caminho foi difícil, mas o time chegou às quartas com um time modesto, sem super investimentos – o que comprova o sucesso da temporada. Redknapp se livrou de alguns antigos jogadores que já não jogavam tanto, como Jermaine Jenas, e foi mudando a cara do time. Priorizar um desempenho lá custou o quarto lugar na Premier League (o time chegou em quinto, atrás de seu maior rival), mas nessa temporada o Tottenham demonstra mais uma vez estar à frente de muitos times mais endinheirados. Inclusive, dessa vez, do Arsenal de Wenger.

O formato do meio, com três pelo centro e dois abertos, foge muito de uma regra comum por lá. Na Inglaterra, é bem mais típico se ver o meia ou o atacante centralizado atrás de outro do que a presença de mais um médio na parte central. Assim, se formam os esquemas 4-2-3-1, seja como o United faz, com Rooney voltando pro meio, seja como às vezes faz o City, com outro meia mais pelo centro. No Tottenham, Modric não joga próximo do ataque, mas dos volantes. No entanto, pelo estilo de jogo, Redknapp provou que isso faz o time mais ofensivo, e não menos. Dessa forma, ele aumenta a subida de jogadores-surpresa, dificultando a marcação, já que os volantes partem meio que juntos. A variação de jogadas também é extensa. Modric a todo momento alterna entre trazer o Van der Vaart pra dentro com seus passes ou abrir com Bale, que pode correr, cruzar ou cortar pra dentro pra finalizar, o que torna o time muito versátil.

A verdade é que a forma como todos funcionam juntos faz muita diferença, mas o Tottenham atual vive um momento brilhante, muito acima de qualquer expectativa que poderia ser criada a partir do conjunto, no papel, de seus jogadores.

* * *

Vamos à Champions.

O Milan atropelou o Arsenal em um jogo bem, bem estranho. O time londrino aparentemente entrou sem a pegada de um torneio tão forte. Esse tem sido o estigma da equipe de Wenger. Um time sem pegada, e com Rosicky em campo então… nem se fala. A se louvar a partida de Zlatan Ibrahimovic, mais uma vez confirmando que é um craque. Para quem cobra dele a falta de atuações de qualidade em jogos da Champions, aí está a resposta. Robinho apareceu bem com os gols, mas vive um momento um pouco confuso no time, sempre sendo preterido por outros. A partida ajuda sua moral, mas o dia-a-dia no italiano não parece assim tão positivo.

Barcelona passou por cima do Leverkusen com os percalços esperados. Venceu fora e continua com o mérito de não bobear em jogos mais importantes. Alexis e Fábregas, apesar de complicarem o esquema, como escreveu Leonardo Levis, têm se mostrado grandes contratações. Alexis assumiu a função de Villa, e até melhor que o espanhol. Fábregas dá mais opção no meio, especialmente pelo fato dos músculos de Iniesta parecerem de vidro.

Zenit e Benfica fizeram jogo fraco, mas muito divertido. Os times eram muito irregulares, erravam demais. Mas quem se importa, quando chovem gols e alternâncias de placar? Bem, talvez a gente se importe. Mas não deixou de ser um jogo legal, provavelmente oposto à esperada retranca do Zenit na volta.

Lyon e Apoel, bem, esse jogo eu descrevi no podcast, mas resumo aqui de novo, em uma linha. Nulo, como os dois times.

* * *
Relembrando… Robert Pires

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2 respostas em “Tottenham, o novo antigo grande

  1. Bom artigo sobre as qualidades do Tottenham, mas também sobre suas limitações, que para ser campeão provavelmente ainda precisa de um banco de reservas melhor (se é que vão conseguir isso com o orçamento que tem) e talvez de serem ainda mais incisivos e/ou mais confiança no ataque.

    Nisso eles são bem parecidos com o Arsenal, que passa por momentos bem piores. Curioso vc ter mencionado o quanto Arsene Wenger se dá bem com seus jogadores, lembro de ter lido (na temporada passada) um artigo com o papa Jonathan Wilson, argumentando que – apenas em parte – dos problemas do Arsenal passavam justamente por uma atmosfera de amizade excessiva entre elenco e técnico. Todos se gostavam muito e tinham dificuldade em fazer cobranças uns dos outros nos momentos difíceis e decisivos, o elenco não brigava em si, o Wenger sempre dá uma chance a mais para todo mundo, etc.

    O Redknapp parece ter boas relações, talvez até amizade com boa parte do elenco (não com todos hehe), mas não hesita em cortar alguém que deixou de render, como o goleiro brasileiro, que falhou em alguns momentos da reta final da PL e da CL.

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