Algumas observações sobre temas candentes

1. Ficar o tempo todo trocando de treinador não é um sinal de quanto um time vai mal. É sinal de quanto uma diretoria é incapaz de pensar a médio e longo prazo, fingindo apagar labaredas quando há um incêndio muito maior sendo abafado, e esse desastre subterrâneo quase sempre está na desorganização, no conflito imediato de interesses ou na ausência de uma toada que cadencie um período de vigência. Nessa semana, muito a se discutir sobre isso, com alguns treinadores que volta e meia aparecem nesse tipo de berlinda, como Caio Júnior e Wanderley Luxemburgo, mas também com um que não costuma frequentar as listinhas do chama-e-cai, André Villas-Boas, atual treinador do Chelsea. A discussão sobre Caio Júnior é um tanto patética. Independente dos fracos resultados obtidos pelo Grêmio nas oito rodadas (!!!) em que liderou o clube, demitir um técnico com base apenas nesse curto período de trabalho é um atestado duplo de incompetência da parte da diretoria, primeiro porque é uma confissão de que errou no começo, e em segundo lugar porque sequer deu uma chance justa de fazer valer uma aposta de trabalho. A dança do entra e sai da posição de treinador diz muito, muito mesmo sobre o futebol brasileiro no que ele tem de mais amadorístico e burro. É verdade que o momento certo do técnico ser mandado embora é um assunto delicado que envolve relacionamento com diretoria, relacionamento com os jogadores e resultados obtidos. Desses, só o terceiro é plenamente claro para o admirador do esporte, e os dois primeiros cabem às especulações ou aos furos de reportagem dos jornalistas. No melhor dos mundos, um treinador deve ter a tranquilidade com a diretoria e com seu elenco para fazer o trabalho que determina. Mas de acordo com quão um ambiente está ocupado por arrivistas, arruaceiros ou indisciplinados (dirigentes incluídos), a estabilidade no cargo é cada vez mais incerta.

Independente da ausência completa de dados, é possível dar seus tostões sobre as demissões de técnicos. A uma demissão de técnico após oito jogos, nem cabe análise minuciosa. É simplesmente uma trapalhada. No caso de André Villas-Boas e sua possível impermanência no Chelsea, a discussão é mais matizada. Sabe-se da sede do magnata Roman Abramovich por sacar treinadores que não correspondem rapidamente a objetivos imediatos, mas no caso de Villas-Boas a situação não parece ser tanto fundada em resultados, mas na ausência de um padrão de jogo e posicionamento em que o time possa se organizar e jogar com tranquilidade. O Villas-Boas do Chelsea 2011-2012 parece ser uma má versão do que Alex Ferguson faz com o Manchester United: um time titular de quinze ou dezesseis, só que num essa estratégia surge como opção de jogo, e no outro transparece o caráter de experiência, de tentar encontrar no meio da competição a identidade e o padrão de jogo da equipe. Um ponto que parece ter sido apontado pelos defensores do técnico foi o modo como ele conseguiu renovar as estrelas do time, virando de Lampard e Drogba os holofotes e desviando-os para Daniel Sturridge e Juan Mata. Por outro lado, as experiências efetuadas no meio-de-campo a partir da lesão de Essien e da decadência de Lampard não podem ser consideradas exatamente satisfatórias. Durante os últimos meses rodaram pelo meio-campo azul-londrino Mikel, Essien (recuperado nas últimas semanas), Romeu, Raul Meireles, Ramires, Lampard, Mata e eventualmente Malouda jogando entre ponta e meia, e a cada jogo a mobilidade do meio-campo é alterada e oscilam gravemente quesitos como segurança, velocidade, opções de profundidade e controle de bola. Ramires vai de segundo volante a quase atacante, Mata é jogado uma hora ou outra para atuar na lateral do campo, Raul Meireles é relocado para primeiro volante (como ontem, com o Napoli, logrando resultados muito insatisfatórios com sua atuação) ou tem que ocupar um terceiro meia, posição na qual ele parece muito desconfortável. Independente da posição na tabela da Premier League (um quinto lugar muito, muito longe da briga pelo título) ou da possível eliminação nas oitavas-de-finais da Champions League, a justificativa mais legítima para a saída de Villas-Boas é a bagunça meio-campista que ele nunca arrumou (há outras possíveis contestações, como apostar em Bosingwa ou Romeu, ou ainda não usar Malouda com mais frequência).

2. Mas o assunto da futebolândia é a iminente eliminação dos dois times ingleses restantes na Champions League. Já que os dois times de Manchester foram eliminados na fase de grupos, cabe a Arsenal e Chelsea manter a presença inglesa na competição, e fazer valer a escrita de que desde a temporada de 1996-1997 há pelo menos um time da Inglaterra nas quartas-de-final da mais importante competição europeia. Na verdade, a estatística fica mais dramática se notarmos que, das últimas sete competições, em seis houve um time inglês na final, em três temporadas houve três clubes ocupando 75% das vagas dos semifinalistas e em duas delas houve um campeão vindo da Inglaterra, com destaque para a final caseira entre Manchester United e Chelsea em 2008.

São números grandiosos o suficiente para começar a falar sobre uma possível decadência do futebol inglês na comparação com outros clubes e países da Europa. Mas números e performances podem ser enganadores e contar apenas parte da história. Um exemplo a ser dado vem do curioso fato de que são times italianos que estão prestes a eliminar os dois remanescentes ingleses, ambos londrinos, e que um deles já tratou de despachar o atual contendor a campeão da Premier League ainda na fase de grupos. Estamos prestes a uma quarta de final de Champions League com três times italianos e nenhum time inglês, mas observando semanalmente as atuações dos clubes em seus campeonatos caseiros, seria absolutamente insano supor uma superioridade italiana na beleza do futebol praticado, na riqueza tática ou no talento individual de alguns jogadores (afinal, para cada Ibrahimovic há um Van Persie, para cada Sneijder um Giggs e assim por diante). Apesar das constrangedoras eliminações precoces, os dois times de Manchester são muito mais times do que qualquer dos italianos que postulam suas chegadas às quartas da Champions. O Napoli é um desses apaixonantes casos de superação, e pode render ainda muitas emoções na competição, mas é evidentemente um time irregular que não consegue reproduzir no dia-a-dia de trabalho o alto padrão que tem mostrado nos jogos decisivos contra times europeus. A Internazionale, hoje fora da zona de classificação para a Europa League no ano que vem (assim como o Napoli, aliás), se conseguir chegar um pouco longe na Europa, deverá agradecer a sua camisa e a sua camisa apenas. Sobra o Milan, esse sim o único aparentemente capaz de chegar a uma final em condições de disputar, graças a um dos 4-3-3 mais malucos já criados nos últimos anos e a um entrosamento monstro da equipe, além dos óbvios talentos individuais em defesa, meio e ataque.

Independente de um Milan forte e de um Juventus renascido, o futebol do campeonato italiano de 2011-2012 é um futebol murrinha, apequenado, raquítico em emoção, a anos-luz da distância de alguns dos jogos que a Premier League já viveu esse ano, históricos (a goleada do City contra o United no duelo de Manchester, ou a bordoada do United sobre um Arsenal atônito), ou os eliminatórios das copas britânicas, alguns inclusive mencionados em colunas passadas. E não é o argumento do vibrante-porque-disputado com que muitos tentam safar o futebol praticado no Brasil não. É disputado porque bem jogado mesmo. Nesse quesito, a que distância o Tottenham, terceiro inglês, está da Udinese, terceiro italiano, ou Lazio e Roma estão de Chelsea e Arsenal. Mas a comparação é protocolar. Ela não serve para muita coisa, mas serve para relativizar o bafafá em torno do mau desempenho dos times da Inglaterra na liga europeia. A Champions League é o grande campeonato mundial, mas não é o noves fora que dá atestado de qualidade a campeonatos nacionais. Os clubes ingleses podem dar adeus à competição europeia ainda na fase de oitavas, mas a Premier League segue intocada como o mais coeso e bem jogado campeonato nacional do mundo.

3. Assistir a Stevenage X Tottenham pela F.A. Cup traz comparações mentais curiosas. Quando se vê time grande jogando em estádio de time pequeno no Brasil, as circunstâncias são as piores possíveis, e tudo é perpassado por uma atmosfera de indigência e pauperismo, geralmente com um exíguo número de espectadores e a impressão de que todas as instalações precisam urgentemente de reparos. O Stevenage é um time da League One, a terceira divisão da Inglaterra, e seu gramado não é propriamente um primor (estava ruim, para ser exato), mas que diferença em ver um estádio modesto mas charmoso (capacidade 7100 torcedores), todo ocupado por um público vibrante formando um conjunto orgânico, uma boa visão de se ter quando nosso pão de cada dia é estar acostumado a precariedade em todos os níveis, dos grandes estádios que já parecem carcaças aos pequenos estádios que parecem pedir para ser sacrificados. Mas deixemos a inoperância dos operadores tupiniquins para outra ocasião, porque já falamos muito dela, e fiquemos com a graça comovente de ver um dos grandes ingleses jogar num campinho minúsculo e meio tosco, porém gracioso.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s