Ode ao jogador tático

Entre todas as posições pouco compreensíveis do futebol atual, no meio de zagueiros-zagueiros que não sabem marcar, primeiros volantes que não sabem passar, pontas velocistas que não sabem cruzar e centroavantes brigadores que não sabem chutar, todos cada vez mais numerosos sobretudo em nossos clubes pátrios tão ricos e simultaneamente tão falidos, no meio dessas posições que nos obrigam a repensar o vocabulário futebolístico para além dos nomes que conhecemos desde garoto (ou que pensávamos conhecer), adicionando, ao já vasto arsenal de expressões do torcedor, um sem-fim de novos xingamentos e gestos de baixo calão, no meio dessa frase longa e talvez um tanto ininteligível, uma figura em específico me chama a atenção, vagando pelo certame como um fantasma orgulhoso, fugindo das divididas e dos lances de perigo com uma sobriedade altiva, desaparecendo do campo com uma contundência aniquiladora, portando-se como um dândi blasé enquanto o resto do time, ingênuo e burro, sua bicas pela bola e ainda assim o reverencia, assim como o condenado à morte agradece a seu opressor por um dia a mais de sobrevivência. A essa figura que se destaca no meio de tanta gente, foi dado o honroso nome de jogador tático.

Renato Abreu, o jogador tático em seu esplendor

Ah, o jogador tático. O que eu não daria para ser um jogador tático? Eu, que sempre quis ser um craque, do porte de um Zidane, um Romário ou um Zico, mal sabia, em meus onze anos, que a verdadeira genialidade futebolística está no jogador tático. O jogador tático é aquele que descobriu, como um vigarista dos melhores filmes de gângster, que a fórmula de sucesso muitas vezes pode não ser produto exatamente do que você joga, mas daquilo que você finge jogar. Eis, sem sombra de dúvidas, a grande dificuldade do futebol. Muitos já disseram que chutar, cruzar, driblar, correr, dedicar-se é difícil. Oras, meus caros, difícil mesmo é enganar, durante anos, que se faz tudo isso.

Ser um jogador tático é uma obra de mestre. Requer certamente uma dose inestimável de malícia, um tanto de experiência, outro de puxa-saquismo. Requer estar sempre ao mesmo tempo no lugar certo do campo, aquele que o técnico o posicionou com tanto esmero, e ainda assim completamente distante do jogo. Requer uma disciplina férrea; nunca fazer um lance perigoso, nunca aparecer verdadeiramente, nunca brilhar. Requer talvez não gostar verdadeiramente de futebol, nunca ter gostado, e ainda assim jogar profissionalmente sem ter sentido jamais uma gota de prazer. Requer algo, digamos, insondável, que até hoje, mesmo após muito tentar, eu não consegui chegar perto de descobrir, com meus viciados olhos de peladeiro e fanático. Eis o grande mistério. Ele é como uma fórmula química perfeita; o complexo de carbono que passa por diamante, sem nunca ter deixado de ser apenas um grafite.

Outra definição possível para o jogador tático: aquela peça insubstituível pelo técnico, essencial para o funcionamento do time, louvada pelos colegas de equipe, cuja enorme inteligência futebolística pode ser exemplarmente acompanhada através da movimentação e da agudeza de suas investidas, que resulta, naturalmente, numa total invisibilidade dentro de campo, na completa falta de participação em jogadas de ataque (quando atacante), no campo de defesa (quando defensor) ou até mesmo nos dois lados, simultaneamente (quando meio-de-campo). O atacante famoso por marcar o defensor, ou o defensor conhecido por falhar em todos os gols, mas que mantém sua titularidade incontestável. Um jogador especialmente ativo em análises posteriores, em diagramações, pranchetas e programas de computador, em coberturas minuciosas do esquema de jogo, mas nunca no jogo de verdade. Gênios do desaparecimento.

Um exemplo: Renato Abreu (também conhecido como Kléberson). Outro: Luan, do Palmeiras.  Alguns diriam, com uma ponta de malícia (ou bondade): Robinho, hoje no Milan. Wellington, novamente no Flamengo (o Flamengo é a casa dos jogadores táticos). Ricardinho, em toda a sua carreira. Quem sabe Elano, no Santos, depois que deixou os problemas extracampo subirem à cabeça. Profissionais que voltaram ao Brasil semi-aposentados: Gilberto Silva, Emerson, Edmílson. Ou o curioso caso de Marcos Assunção: jogador tático por excelência com a bola rolando, mas que desequilibra nas bolas paradas. Marcos Assunção é o falso jogador tático, operando como um duplo mentiroso; finge ser uma figura que finge jogar, para aí brilhar de verdade. Uma equação até difícil de escrever.

Na seleção, eles existem aos borbotões. Em 1994, tínhamos dois (Zinho e Mazinho), apenas no meio-de-campo. Dizem as más línguas que o sonho de Parreira sempre foi (ainda é?) jogar com onze jogadores táticos, mas acabou obrigado a convocar Romário. Em 2002, Kléberson e Denílson, talvez o maior jogador tático da história, já que passou a vida inteira se vendendo como um craque (ou será que estou aqui falando novamente do Robinho?). Em 2010, novamente Kléberson, que não entrou em campo mas imbuiu todos de sua energia valiosa de jogador tático. Dunga, afinal, estava no time de Parreira, e sabia que não poderia faltar um em sua equipe.

Assolado pelos técnicos, o futebol atual tem a marca do jogador tático. Cada equipe tem o seu, quase como um mascote, entrando em campo fantasiado de atleta. E, em tempos de carnaval, aproveito aqui para homenagear jogador tão especial. Como o clima é de festa, convido o leitor a participar do tributo. Qual, afinal, é o jogador tático de seu time?

Anúncios

6 respostas em “Ode ao jogador tático

  1. Leo, entendo sua raiva do Renato Pelé. Mas, enfim, não curto muito a associação das duas coisas, especialmente se considerarmos um Assunção. O cara não é sumido, quando não bate faltas. Ele é ruim, todo mundo sabe onde ele está, sempra tentando cobrir jogadores que ele não alcança. Comparação Robinho-Luan tem sentido, é a mesma função com a diferença da capacidade do Robinho de, raramente, fazer algo verdadeiramente produtivo. Mas o Assunção é ruim, mas é genial na bola parada. Tem motivo pra jogar, até que o Palmeiras se reforce e vire um time mais digno de sua bela torcida. Agora, acho totalmente diferente Robinhos e Luans (e Richarlyson, a peça-chave em títulos sãopaulinos que muitos odiavam) dessa velharia, jogadores que já jogavam mal muito antes de voltar ao Brasil. Esses caras não são fantasmas, que executem funções que técnicos gostam, são ruins, só. Enfim, saquei a ideia, todo jogador inútil e cuja presença em um elenco é explicável apenas para o técnico. Mas não consigo aceitar jogar esses caras ruins, que no máximo são boas figuras de grupo, junto de caras que podem ser limitados, mas que de fato fazem coisas. O Renato já não faz essas coisas há muito. Talvez, outrora, fosse esse jogador. Agora, mal tem sido jogador.

  2. Sim, é verdade que de fato eu juntei no mesmo pote jogadores limitados que se esforçam – tipo Robinho e Luan – e jogadores que parecem estar em campo apenas por uma vontade suprema do técnico ou fama ou empatia com a torcida – como Renato Abreu. Mas me parece que, se há realmente uma diferença clara entre esses dois grupos no que se refere à postura do jogador, não há tanto no que se refere à sua escalação. Cansei de ver o Felipão defender o Luan por ser “taticamente perfeito”, o Robinho no Milan por ser “taticamente perfeito”, o Renato Abreu ser convocado para a seleção (!) por ser “taticamente perfeito”. (Ok, o Marcos Assunção foi mais uma blague minha e o Robinho obviamente carrega um certo exagero). Realmente pensando agora, eu poderia ter falado desses dois “jogadores táticos”, o que engana e o que se esforça (ainda bem que existem os comentários), mas me parece que o ponto, em si, permanece imutável: o fato desse jogador ser um mal (ou até um bem) para o time, a titularidade absoluta, o carinho do técnico e da equipe, nada disso é justificável por sua produtividade real em campo. E o futebol tá cada vez mais cheio desses jogadores…

  3. Léo, acho injusto com o Zinho, maior campeão brasileiro de todos os tempos, e motor de 94. Obviamente tinhamos o Romário, mas a “enceradeira” era fundamental naquele time. O meu jogador tático infelizmente se foi: Marquinho, ou melhor, Marquídolo! Só que pra mim, sua “taticidade” em campo era genial!! Abraços, e saudações tricolores!

    • O triste é que um “jogador tático” clássico era mesmo fundamental para o título de 1994. Por essas e outras é que é complicado torcer para um time do Parreira. Ele, como eu disse, colocou o jogador tático como suprassumo de sua ideologia futebolística.

      Sobre o seu jogador tático, não se preocupe: o Deco já se aproximou perigosamente desse papel muitas vezes em sua carreira, e é só questão de tempo até aproximar-se novamente no Fluminense. (Ressalva feita ao belo fim de temporada passada e ao jogo de ontem.)

  4. Os táticos, se amparados por um bom técnico que sabem usufruir do potencial (limitado) que eles têm, dão suporte a aqueles que tem condiçoes de brilhar. Os táticos nao brilham porque não querem, nao brilham porque sabem até onde podem chegar (ver um fernandinho tentar o drible raio-x é irritante, porque tentar algo maior do que se consegue é coisa de peladeiro). Os táticos são os mais inteligentes, lêem o jogo próximos à maneira que o técnico lê, por isso são mais confiáveis: técnicos ficam menos irritados com erros de fundamentos do que com erros por burrice. Viva os esforçados táticos!! Viva Richarlyson!! Viva Belleti!! Viva Jorge Henrique!!!.

    Nao esqueçamos que Xavi, Messi, Zidane, Riquelme, Baresi, Lugano, Luzito Suarez (de leve), são, além de craques, brilhantes taticamente. Messi joga sem a bola, abre espaço, atrai a marcação, coisa que Neymar ainda nao sabe fazer.

    Muito bom o blog. sucesso!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s