Kairos, ou timing, ou o momento oportuno

Sem precisar mergulhar na filosofia, dá pra discutir um pouquinho sobre as questões do tempo no futebol sem soar metido a besta. Porque o futebol pede. Existe, para além do tempo cronometrado de 45 minutos e dos acréscimos regulamentares, boa parte de uma outra dimensão de tempo que escapa da cronologia, dos segundos, do tempo mensurável e domesticável do relógio. Cronos é a palavra grega para definir esse tempo “gráfico”, dos dias e das noites, da passagem contada do tempo, do tempo na dimensão dos afazeres humanos e das projeções. Mas ao tempo contido e definível, os gregos propunham duas outras palavras para caracterizar aspectos mais selvagens do tempo, digamos, o tempo que ultrapassa a experiência humana e o tempo intensivo, aquele que dá a impressão de passar turbilhões num segundo, aquele átimo que não equivale a qualquer outro átimo que venha a seguir ou antes, mas que é o momento decisivo em que algo se abre e se fecha rapidamente, como um vórtice de ficção científica, mas dentro da vivência habitual. O tempo aquém da experiência humana, o tempo da eternidade, é o aion, mas para o futebol ele não importa tanto. Agora, o kairos, esse termo que dá conta do momento de tempo intensivo, ele é fundamental para o esporte em geral, e para o futebol em particular: ele se resolve na superação, nas disposições súbitas, num tipo de compreensão que não é exatamente racional, mas de sintonia com um ritmo subterrâneo, como se o andamento de todas coisas tivesse marés invisíveis porém captáveis em situações decisivas. São esses os momentos que fazem a glória, porque eles não podem acontecer a qualquer dia e a qualquer hora, e precisam de alguém para agir no exato trecho de tempo em que uma ação se faz necessária. E não é só nas situações de conquista ou de eliminação iminente que elas aparecem, embora esse tipo de situação seja obviamente catalisador de situações de tempo intensivo.

Aproveitar um momento para dar a volta por cima não é necessariamente individual. Há timings coletivos, em que um grupo inteiro parece se levantar e tomar as rédeas de uma situação. Quando a mudança de disposição é brutal e o fundo do fosso acaba virando um trampolim, aos olhos do torcedor essa dobra temporal parece assumir uma aura de mágica, de surpresa extraterrena. Foi o que aconteceu na majestosa vitória do Arsenal contra o Tottenham nesse domingo. O time perdia de 2 a 0 no primeiro tempo e, apesar de não estar jogando terrivelmente mal, parecia um tanto apático e letárgico. Somava-se a essa impressão o fato de que o time de Arsène Wenger foi incapaz de qualquer reação à sapatada que tomara do Milan pelas oitavas-de-final da Champions League, naquele que era o jogo mais importante do time na temporada até então. E quando o primeiro tempo ameaçava acabar modorrento e sem horizontes para os vermelhos londrinos, eis que o time vira um fulminante rolo compressor e, guiado por Van Persie novamente em estado de graça, reverte nos cinco minutos finais a desvantagem colocando o placar em 2 a 2. O que se viu na volta do segundo tempo foi algo indescritível, com atuações de gala vindo até de jogadores de quem não se podia esperar nada, como Rosicky. Toques de bola precisos e objetivos, tabelinhas vistosas e sobretudo um gás vindo de sabe-se lá onde fizeram o Arsenal voltar de um 0-2 e aplicar um vexaminoso 5 a 2 em seu maior rival (em termos de relevância) londrino com o ímpeto de um time campeão. Van Persie, Walcott e companhia fizeram um verdadeiro desfile para seus torcedores, tiveram sua melhor atuação na temporada, de longe, e mostraram que esse grupo está longe de ser o time pálido e sem brio que muitos apontavam por conta dos resultados desfavoráveis na Premier League, da colocação mediana e da virtual eliminação na Champions. O Arsenal terá que arcar com a ausência de títulos na temporada, mas essa atuação específica redime parcialmente os momentos mais baixos da temporada (a goleada contra o United, os 4 a 0 para o Milan) e contraria muito os comentadores que viam, até com alguma razão, esse escrete como um amplo repositório de sangue de barata.

Existe também o kairos falhado, aquele momento oportuno tornado inoportuno porque uma determinada ação intempestiva se mostra um verdadeiro equívoco diante das circunstâncias que estão em jogo. Neste último domingo, o maior exemplo foi o zagueiro Dedé, na derrota do Vasco para o Fluminente por 3 a 1 na final da Taça Guanabara. Depois que o clube da cruz de malta tomou seu terceiro gol, Dedé repetiu um perfil outrora vitorioso e decidiu assumir o comando de energia da equipe como já fizera, e bem, em jogos decisivos da Copa Sulamericana. A lição dura da semana é que o kairos não é reprodutível em qualquer lugar nem em qualquer tempo — isso está contido na própria definição do termo, e o que vimos em campo foi um melancólico exemplo de jogador à deriva esperando a situação consagradora que nunca viria. Quando se falha o momento oportuno, tudo que se vê é excesso e desorientação, e depois dos 3 a 0 Dedé virou essa trágica figura em busca de uma catarse mas sem qualquer “leitura de jogo” ou força de termômetro para ocupar o espaço exato do gramado para fazer a diferença, ou mesmo servir de motor para o time. Ao contrário, o que se viu foi um craque desandado tantando ser meia-armador, depois ponta e por fim centro-avante, com infatigável disposição, comovente até, porém mais desesperado do que raçudo. Se antes era a raça que contagiava na Sulamericana, dessa vez foi o desnorteamento, e o Vasco com Dedé-atacante parecia pior, mesmo na necessidade cega de fazer três gols em 25 minutos, do que o Vasco com Dedé-zagueiro. Não foi ele a razão da derrota – esta foi ocasião de dois deslizes, um pênalti tolo de Fagner e uma antecipação falha de Fernando Prass num chute venenoso de Deco -, mas, como é comum no craque, para bem e para mal, ele encarnou aquilo que estava latente no grupo, e foi a maior fonte de dramaticidade vinda do lado do clube da caravela. O olhar ao final não era de desapontamento, de reconhecimento diante da ironia do destino que é um time com 100% de aproveitamento perder na final para um time que não teria se classificado se o Vasco facilitasse um jogo para o Boavista; era um olhar de “o que está acontecendo?”. Jovem e grande jogador que é, ele terá tempo de descobrir e aprender com o infortúnio que protagonizou e do qual padeceu diante dos olhos do Rio de Janeiro inteiro. O momento é oportuno.

 

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