Bulgarelli, sempre con noi!

Estádio Renato Dall'Ara

Estádio Renato Dall'Ara

Ir a um estádio de futebol pode ser uma coisa mágica. E, sinceramente, acho que isso independe de haver em campo um time para o qual eu torça. Há algo místico, inexplicável; algo extremamente envolvente, emocionante. Quando você dá por si, a imparcialidade já está além do portão de saída, ficou pra trás. E quando isso acontece, é sensacional, uma das grandes experiências que alguém pode viver.
Claro que essa catarse emocional não é algo corriqueiro, acontece apenas vez ou outra.

E foi o que ocorreu no dia 19 de fevereiro de 2011, há pouco mais de um ano, em Bolonha, na Itália. Era um jogo, digamos, qualquer; não havia nada de grandioso envolvido, apenas um desespero crescente da torcida do Bologna, que via seu time cada vez mais próximo da zona de rebaixamento. O jogo era em casa contra o Palermo de Sirigu (hoje no Paris Saint Germain), Nocerino (no Milan) e do ídolo Javier Pastore (hoje também no time francês), e a vitória era fundamental.
Eu havia chegado naquele dia à cidade e ainda não sabia a grande simpatia que desenvolveria pelo lugar. Fui, assim que pude, ao Tabac mais próximo (aquelas lojinhas, originalmente tabacarias, mas que funcionam como pontos de venda de diversas coisas de utilidade pública) e comprei o ingresso pro jogo. Ingresso simples, meio caro e nominal; todo ingresso comprado na Itália é nominal e, quem vende, registra o número do documento do comprador – a medida, contou-me o vendedor, foi, claro, pra ajudar no combate a violência nos estádios. Na  hora da compra, escolhi, por acaso, sentar na Curva Bulgarelli. Bendita escolha!

Cheguei no estádio cedo, ainda muitos lugares vazios. Logo que escolhi onde sentar (lá, como cá, ninguém respeitava o lugar marcado no ingresso – confesso que a minha simpatia só aumentava), vi a grande bandeira com a imagem e o nome: Giacomo Bulgarelli. “Opa, a Curva”, pensei. Foi o primeiro friozinho na barriga; o primeiro indício de que aquele lugar, aquela torcida e aquele nome, Bulgarelli, não tinham nada de comum.

A torcida foi chegando, não em número suficiente para lotar o estádio, mas com paixão de sobra pra empurrar aquela equipe pra cima de qualquer adversário. E o estádio começou a aquecer: vieram alguns rocks clássicos, os jogadores anunciados pelo locutor e saudados pelos torcedores (com menção especial a Il Capitano Marco Di Vaio), a entrada em campo ao som de uma verdadeira canção dramática italiana. A partida começou e, ainda nos primeiros minutos, aconteceu a coisa mais incrível que presenciei de uma torcida num estádio de futebol: era uma falta pro time da casa, alguns torcedores começaram a pedir com gritos e gestos para todos levantarem. A torcida atendeu imediatamente ao pedido; eu, ainda tentando entender aquela lógica, ainda inocentemente imparcial, hesitei. Logo um torcedor insistiu e eu, claro, levantei. Aí veio o grito, em uníssono, cheio de vida, cheio de paixão: BULGARELLI SEMPRE CON NOI! Um instante de silêncio, tempo perfeito pra sentir um frio na barriga de verdade. Fiquei meio abismado, olhando aquele acontecimento maravilhoso do qual eu estava fazendo parte. E veio novamente: BULGARELLI SEMPRE CON NOI! Ainda meio assustado, meio fora do tempo, meio sem saber o que eu falava, gritei junto.

Giacomo Bulgarelli – em seus 16 anos de carreira, atuou apenas por dois times: Bologna FC 1909 e seleção italiana. É o maior ídolo da história do clube e representa o último momento de glória da equipe da Emilia-Romagna. Com Bulgarelli, o Bologna (e com Renato Dall’Ara, que dá nome ao seu estádio, na presidência) conquistou seu último título da Serie A, em 1964. O jogador, com a seleção, esteve nas Olímpiadas de 1960, nas Copas de 1962 e 1966, e na Eurocopa de 1968.

O jogo, tecnicamente, não foi bom. Aquela coisa truncada típica do campeonato italiano. As jogadas não davam certo para ambos os times, mas a torcida voltou pro segundo tempo apoiando ainda mais. Era como se pegassem os jogadores e os empurrassem pra cima dos adversários sicilianos. Foi uma etapa final agoniante, eletrizante. Estar no meio daquela Curva era estar no melhor lugar do mundo. E, como não podia ser diferente, no minuto final veio o gol. Empurrados, embalados, carregados pela torcida, os jogadores rossoblues arrancaram a vitória na marra, numa bela cabeçada de Daniele Paponi. O estádio explodiu em pulos, gritos, bandeiras e abraços!

 

Um pouco do que eu vi e ouvi.

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