Sangue e amor no clássico do norte inglês

Shola Ameobi, o improvável herói de sempre

Neste domingo, aconteceu enfim o aguardado clássico inglês. Não, não falo de Arsenal e Liverpool, sem dúvida um confronto de tradições incontestáveis, mas sim daquele que é preciso estar atento para reconhecer seu valor. Refiro-me ao clássico das multidões de uma região que ama futebol como poucas, a do norte do curto território do país. E a grande rivalidade que lá se estabelece faz com que todos os olhos futebolísticos se voltem para o Newcastle e seu inimigo de fronteiras, o Sunderland.

Já falamos sobre o Newcastle aqui, mas é justo dizer que o time melhorou de lá pra cá. Melhorou em opções no elenco, com a chegada de Cissé, não o veterano (hoje no Queens Park Rangers), mas o que destacou-se recentemente no Freiburg, da Alemanha. O Cissé menos famoso é mais um atacante, destes bons, mas nada muito além disso. De qualquer forma, já está melhor do que se via por lá, Demba Ba à parte. Alan Pardew também tem fixado Taylor na meia, retirando-o de vez da lateral, o que permitiu a Santon ganhar a titularidade na lateral esquerda. Volto a falar desta questão porque me parece uma insistência tática de Pardew, e porque será importante mais à frente.

Relembro também que o Newcastle é o time para qual torço. Cabe o aviso para eventuais choques com o fato de que, evidentemente, estou olhando o clássico por esse ponto de vista.

De qualquer forma, lembremos também do Sunderland do técnico Martin O’Neill, talvez o treinador britânico mais elogiado atualmente pelos analistas. O’Neill, de histórico invejável à frente de times menos ricos que os de ponta, como Celtic e Aston Villa, é um técnico moderno, cuja administração do elenco é sempre elogiada por quem o acompanha de perto. Talvez isso, a relação pessoal com quem trabalha no time, ajude a mostrar o porquê de tantos jogadores alcançarem o pico com seu comando. Mas esse texto não é sobre o Sunderland, e sim sobre o clássico. Basta resumir aqui então que o time cresceu, e tem hoje junto ao City a melhor defesa do campeonato.

O clássico desta vez acontecia em Newcastle. E a recepção da torcida não podia ser mais hostil aos inimigos do Sunderland. O clima de pancadaria era evidente, e logo foi correspondido em campo. Cheick Tioté, aquele que é pura malvadeza, tomou um cotovelaço na cara no primeiro momento do jogo. Os times colocavam abertamente suas cartas: “aqui, é sangue”. Parecia um clássico inglês antigo; menos técnica e mais briga, dividida ganha valia quase como gol, lançamentos – ou, verdade, chutões mesmo – eram os maiores recursos técnicos. Logo, muitos pontapés tomaram conta do jogo, dominado pelo superior Sunderland, que tocava melhor a bola enquanto o outro time só dava bicuda.

O resultado disso tudo foi um pênalti meio cretino, medonho, com um puxão de camisa totalmente desnecessário na área do Newcastle. De zagueiro para zagueiro. Turner, do Sunderland, foi agarrado por Williamson, do time adversário. Nicklas Bendtner, aquele que era do Arsenal, bateu bem e fez. A falta de seriedade de quem comete um lance desses, cujo resultado óbvio é um gol fácil, espanta num jogo dessa dificuldade. Dali em diante vimos o Sunderland melhorar o nível do jogo; não mais reinou a pancadaria, e sim o toque de bola do time deles. Jogando com apenas um atacante, eles poluíram o centro e o Newcastle, sem meias capazes de buscar jogo, apenas assistia.

É aí que retorno ao equívoco de posicionamento do Taylor como meia. Embora um jogador de notável importância no time, ele é lateral. Tem, é verdade, cacoetes que permitem seu uso no meio, mas trata-se de um grande erro de estratégia. Taylor não busca a bola, e por isso Cabaye, o melhor do time no passe, não encontra parceiros, fazendo o time depender da descida de Jonás pelo lado. Jonás, como todos que acompanham a seleção argentina sabem, é um cara limitado. O fim do primeiro tempo teve até alguns ataques do Newcastle, justamente porque ele fez o que deu ali, mas é óbvio que o argentino, muito marcado, não levaria o time a lugar nenhum.

Só que no início do 2o tempo, para balancear os lances bisonhos entre os dois times, Tioté, que já havia batido em todo mundo, revoltado, enlouquecido, levou no pescoço outro cotovelaço. Cesseignon foi o agressor dessa vez. O juiz, descrente, parecia falar para o jogador do Sunderland: “tá maluco?!”. O show pirotécnico que Tioté fez no chão nem se fez necessário; imediatamente o agressor foi expulso. O Newcastle, já naquele momento mais arisco do que no começo do jogo, tentou se reinventar com um a mais, na necessidade moral de vencer seus inimigos combalidos. Mas o Sunderland é bom, tem fibra, defende bem demais. E Gardner, um desses jogadores compostos praticamente de raça, ainda conseguia criar lances de perigo, mesmo vendo o Newcastle crescer no jogo.

Naquele momento, a pergunta de todo torcedor do Newcastle era a mesma: será que Demba Ba seria capaz de fazer algo?

E o jogo continuou. O Newcastle, desde o intervalo, já havia se remodelado. Taylor voltara para a lateral e Santon havia sido substituído por Ben Arfa. Não melhorava tanto a qualidade técnica do time, mas com um meia de criação em campo a bola pelo menos arriscava ir pra quem poderia decidir. Só que a real mudança veio quando Cissé, mal no jogo, deixou os gramados. Em seu lugar, Shola Ameobi. A princípio, uma substituição desastrosa. Quem conhece Ameobi sabe que ele, embora uma lenda, é um jogador no máximo limitado, para ser bondoso. Um tosco, para ser sincero. Mas estamos num clássico. Aqui o amor prevalece. Ameobi conhece o jogo, vive ele tem uma década.

Não demora muito e Fraizer Campbell, atacante da seleção, que entrou no Sunderland pra ser a referência nos contra-ataques da equipe com um a menos, errou feio e deu um carrinho em Ameobi. Sabe-se lá por que um atacante faz um pênalti noutro atacante; não há maior sentido, fora o do puro e simples erro individual. Talvez, no entanto, fosse na verdade uma questão cosmológica. A lenda Ameobi parecia destinada a mudar o jogo. Mas no Newcastle o destino hoje não pertence a ele, nem a Cabaye, nem a quem que de fato estivesse melhor no jogo. O pênalti, e a responsabilidade de empatar o jogo, restando dez minutos a serem jogados, ficaram nos pés de Demba Ba.

Só que Demba Ba não empata. O craque bate muito mal, o goleiro espalma. Lágrimas começam a rolar; do jogador, do técnico, de todo mundo. Nesse espetáculo triste ao torcedor do Newcastle, só restava torcer para que o jogo não mudasse a posição na tabela. Trunfo de consolação que parecia pequeno, muito pequeno, na sentida derrota. Mas, como diz o ditado, “o jogo só acaba quando termina”, e ele nunca pareceu tão válido. Na última jogada da partida, o time, que não desistia, que já sem padrão de jogo insistia em ficar lançando bolas pro meio da área, que na base da garra e do nervosismo suplicava pela chance de amenizar o desastre que oferecia à sua torcida, enfim vibrou.

O gol surgiu como poderia surgir; numa jogada tipo bate-bate, com a bola pingando de tudo que é lado. Fator decisão, o sujeito que é parte do futuro hall da fama do Newcastle, ele mesmo, o tosco Shola Ameobi, surgiu para colocar a bola dentro da rede adversária. Meio que tropeçando, deselegante como lhe é possível, empatou o jogo. O destino do clássico era dele.

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Será mesmo que ali, naquele momento, importava o fato do Newcastle ficar perto da Europa League como tanto pretende, ou o Sunderland mais longe do top 10, como é sua meta? O resultado, ao fim, era de jogadores vitoriosos, de ambos os lados, protagonistas de uma batalha digna de quem sabe o que é futebol.

* * *

Não dá pra deixar de registrar também o bom jogo de Liverpool e Arsenal. Como sempre, os times de Wenger são uma delícia de ver. Nem sempre para quem torce, é verdade, principalmente em tempos recentes, mas nessas últimas partidas, já que a virada sobre o Tottenham foi ainda mais épica, o time do Arsenal parece enfim se encontrar. O Liverpool teve a frente no começo, mas nunca desenvolveu bem a vantagem. Conseguiu o gol num lance ridículo em que Koscielny acabou errando e colocando pra dentro, mas antes já havia perdido pênalti com Kuyt batendo mal e Szczęsny fazendo grande defesa após a primeira rebatida. Dali em diante, foi o clássico wengeriano: um grande cruzamento levou à cabeçada certeira de Van Persie, e o Arsenal tomou conta. A vitória de virada está longe de ser parte memorável dos confrontos, mas muda sim o rumo do Arsenal, que se firma com alguma sobra já na Champions e ainda vai com tudo pra cima do Tottenham pelo terceiro. Ao Liverpool, depois da Carling Cup, resta pensar na próxima temporada, ou sei lá, noutro título de taça com a FA Cup.

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