Em que pé estava ontem? Em que pé está agora?

Chegamos a um momento da temporada europeia de futebol em que vale a pena passar os olhos no passado imediato para tentar entender o que está acontecendo no presente, quais expectativas foram preenchidas, quais foram frustradas, quais se mantiveram em banho maria. No exato momento da escrita deste artigo não há ainda nenhum eliminado na fase de mata-mata da Champions League e os campeonatos nacionais já começam a encontrar uma definição que provavelmente se concretizará nas últimas rodadas sagrando campeão, vice e demais classificados para os próximos campeonatos europeus. E as reviravoltas do primeiro turno? As decadências e as súbitas arrancadas? As mais ferrenhas rivalidades? As distorções provocadas por circunstâncias da atualidade? É bom tentar entender um pouco em que pé está o futebol europeu dando o sensato passo atrás e tentando perspectivar os sucessos, os insucessos, os fiascos e as glórias.

Com numeração arbitrária, vamos aos principais temas:

1. Real Madrid. É preciso que se diga: independente de não ser um futebol com a rara beleza coletiva do Barcelona ou individual de Messi, e tampouco ser um exemplar que inova taticamente e põe questões ao futebol como um todo, como o time de Guardiola, o Real Madrid é o time que vem praticando o melhor futebol do mundo nessa temporada. Mourinho é antipático e recalcado, há jogadores questionáveis na equipe titular — Pepe, Arbeloa — e existe uma covardia quase ontológica na hora de jogar contra o Barcelona, seu maior rival, mas tudo isso é detalhe para o fato de que quando o time engrena, é um verdadeiro rolo compressor contra qualquer adversário, jogando com velocidade, profundidade e passes rápidos com destino certeiro ao gol adversário. Ao contrário do futebol cadenciado do Barcelona, é um futebol relâmpago e devastador, que produz uma quantidade inacreditável de goleadas e gols das mais variadas espécies (ao contrário do gol mais plástico e coletivo, mas também mais homogêneo em forma, do rival catalão). Com dez pontos de vantagem sobre o único real adversário, o Real Madrid é o virtual campeão espanhol, e isso é algo que ninguém ou muito poucos previam que fosse acontecer antes do campeonato chegar aos seus 25% finais. Dos últimos 21 jogos de La Liga, o time de Mourinho venceu 20 e perdeu apenas um, para o Barcelona. São números espantosos, e um prognóstico excelente, porque só há um jogo contra o Barcelona no returno. Ou seja: pode perder as duas, o campeonato será vencido pelo time que menos tropeçou contra o segundo escalão do campeonato, ou seja, os outros 18 que não são Barcelona e Real Madrid. O Real tem o campeonato nas mãos, mas se no final da temporada só tiver a taça da Liga, ainda assim será um time contestado. Só uma goleada-revide contra o Barcelona, ou uma eliminação na Champions contra o rival (e a possível conquista do torneio), parece ser o caminho para uma glória plena quando os campeonatos acabarem.

2. Barcelona. Todo mundo espera do Barcelona o time infalível, o time perfeito, o time incapaz de perder um campeonato, ainda mais nos detalhes. Dado o contexto, estar com o segundo lugar em La Liga virtualmente garantido soa como um verdadeiro fiasco diante das expectativas depositadas pelos olhos de todos os admiradores do mundo (e pelo veneno de todos os detratores, que se aproveitarão para reforçar as teses — furadas, claro — que o Barcelona não é tão bom assim). O fato é que é o melhor time do mundo, sim, nos jogos decisivos, e ainda é o time que obriga todos os outros do mundo a jogarem de outra forma, ou simplesmente não jogarem porque não vêem a cor da bola. Se ganhar a Copa do Rei, o que deve acontecer, e se vencer a Champions, a derrota no campeonato nacional não será tão lamentada assim, e será vista como um prêmio de consolação para Mourinho (ainda mais se os madrilenhos perderem novamente no returno: serão os campeões dos jogos pequenos). Nos jogos importantes permanece o Barcelona de sempre, mas nos jogos cotidianos uma ameaça de apatia se instala, uma apatia extremamente perigosa não só porque o rival não peca, mas porque a mentalidade burocrática pode mostrar as caras. Se não levantarem a Champions League, os jornalistas vão começar a contestar a excelência do time, nem que seja para aparecer ou para mudar um pouquinho a pauta de suas editorias. Para quem vê futebol com o olho sereno, menos interessado nas manchetes e nos furos de reportagem, eles apenas conseguirão a proeza de não serem a melhor equipe da temporada mas permanecerem sendo a melhor do mundo. São as ironias do futebol.

3. Bayern de Munique vs. Borussia Dortmund. Os resultados de sábado colocaram o time de Dortmund sete pontos à frente de seu principal adversário na luta pelo título. Foram dois jogos emocionantes decididos nos 15min finais em ambos os casos, desfavoravelmente para o time de Munique e favoravelmente para os atuais campeões. O Bayern continua praticando um futebol vistoso, com boas trocas de passe e futebol envolvente, além das jogadas individuais de jogadores de nível mundial (Lahm, Robben, Ribéry, Müller… Schweinsteiger está machucado), mas ofensivamente é um time com um rol relativamente pequeno de opções e uma previsibilidade de movimentos que nos maus momentos beira o angustiante. O Borussia, ao contrário, parecia no começo da temporada que não ia se recuperar da perda de Sahin e, posteriormente, da contusão de Mario Götze, seu melhor jogador (e grande revelação da seleção alemã, a conferir na Eurocopa). Mas o grande mérito do Borussia é que é um time muito brigador, em que ninguém é estrela e todos estão dispostos a encarar o papel de carregador de piano, do mediano centroavante Lewandowski ao brilhante zagueiro Hümmels, hoje o único titular do time que é postulante ao primeiro escalão de jogadores mundiais. Mas é um time muito arrumado e bom de ver jogar, com jogadores ágeis nas laterais, volantes e meias, e o brilho inesperado de Shinji Kagawa, que na ausência de Götze assumiu a liderança do time e tem jogado alguns jogos melhor do que David Silva. Sete pontos no contexto da Bundesliga, com times muito mais equilibrados que no campeonato espanhol, por exemplo, é muito pouco. Ainda assim, basta ver o Borussia jogar e comparar com o Bayern jogando que dá pra ver uma clara diferença de postura, e mesmo uma fibra de time vitorioso. É tudo uma questão de timing e pode se esvair, mas neste exato momento as fichas de qualquer um no pleno domínio das faculdades mentais está nos negro-amarelos de Dortmund. E pensar que o Bayern começou o ano como o time mais fulminante da Europa, com uma defesa quase perfeita. Sábado até Neuer frangou. Uma superação na Champions League, bem possível, chegando a uma semifinal ou a uma eventual final, redime o escrete de Jupp Heynckes, que aliás talvez seja o maior culpado pela pouca mobilidade e variedade de jogadas de seus comandados.

4. A volta dos que não foram: Arsenal, Tottenham, Chelsea. Se havia um time que desde o começo da temporada tinha uma morte prematura anunciada desde o começo da temporada, esse time era o Arsenal. Uma derrota acachapante para o United logo no começo deu o tom, e a teimosia de Arsène Wenger em atuar mais incisivamente no mercado de compra e venda nas janelas de transferência dava o Arsenal como carta fora do baralho para voos mais altos na temporada. O que se vê nessas últimas semanas é que o time que morreu na praia foi o Chelsea, com papel passado pelo próprio dono do time Roman Abramovich quando demitiu André Villas-Boas depois da derrota para o West Bromwich no sábado. Quanto ao Arsenal, o time acaba de fazer duas viradas gloriosas contra times grandes nas duas últimas rodadas, e chega para brigar pela terceira posição no campeonato contra um Tottenham que ameaça estar perdendo o gás depois de um excelente primeiro turno e um futebol vistoso, cortesia de Modric e Bale. Chelsea e Arsenal devem sair derrotados da Champions, tornando essa a primeira Champions League desde 1995 que não tem um time inglês nas quartas-de-final. Mas a virtual eliminação é mais sofrida para o Chelsea, que tem um time mais experiente, do que para o Arsenal, que é visto como uma equipe em reformulação, com alguns jovens talentos que só estão se encontrando agora no time (Chamberlain, por exemplo)

5. Manchester City vs. Manchester United. Esse sim é o confronto mais disputado dos quatro grandes campeonatos nacionais. Ambos têm time para sagrarem-se vencedores, e ambos têm rivais com plenas possibilidades de arrancar pontos desses dois times que estão sobrando na Premier League. Exemplo: saldo de gols do Manchester CIty: 50; saldo de gols do Manchester United: 39; saldo de gols do terceiro melhor: 19 (Tottenham). O City mantém a excelente fase doméstica (abstraindo o período em que Yayá Touré desfalcou a equipe) e o United, que em momentos parecia claudicante, é hoje um desafiante à altura, ainda mais com as voltas de Ashley Young e Anderson, recuperados de contusão. Num desafio parelho como esse, prognóstico é chute. É possível que a experiência de já estar num time que frequenta os primeiros lugares favoreça os Red Devils, mas até agora os azuis de Manchester não mostraram nenhum sinal de esmorecimentl com a cada vez mais próxima reta final do campeonato. O curioso é que o desafio mais eletrizante das temporadas nacionais da Europa era também, em certa medida, o mais previsível (excetuando a obviedade em dizer que Barça e Real iriam disputar o título espanhol). Era esperado ver os dois na disputa pelo título. Mas dado o histórico desse ano, o fim do campeonato verá uma rivalidade ainda mais forte, tendo de um lado uma goleada constrangedora (City sobre o United) e uma eliminação em copa (United sobre o City). Vai ferver.

6. Itália. Os prognósticos começaram um tanto amorfos, emparelhando Napoli, Inter, Milan, Juventus e mesmo Udinese na disputa do título. A Juventus foi senhora do primeiro turno, sem brilhar, sem encantar, mas com um pragmatismo que funcionava o suficiente para garantir os três pontos a quase cada rodada. Napoli e Udinese mostrando-se irregulares ao longo do campeonato, e a Inter vivendo um de seus maiores fiascos da história recente (o próximo passo é deixar de brigar até por Liga Europa), sobrou o Milan para fazer frente, e é o que vem acontecendo ultimamente. O Juventus pode cometer a proeza de ser um time invicto no campeonato e não terminar campeão com o retrospecto. Dado o passado recente de infortúnios e maracutaias, seria muito bom para a Itália ver uma Juve forte novamente ganhando o campeonato. No entanto, basta ver o time jogando que é difícil pensar que eles têm futebol para serem chamados de grande equipe da Itália. A honra cabe ao Milan mesmo, que ainda que não seja um time bárbaro, tem grandes jogadores para tomar a responsabilidade da partida (Ibrahimovic em particular) e, talvez mais que isso, parece ser a única equipe italiana que parece saber a camisa que está vestindo. Como o Bayern, o Milan postula um lugarzinho na final ou nas semis, e chegar lá já será um belo feito para somar-se ao iminente título nacional.

Dito tudo isso, fica difícil pensar a Champions League ser vencida por um time não-espanhol. Mas em futebol muita coisa pode acontecer, e os dados estão lançados. Bem-vindos aos momentos decisivos da temporada europeia 2011-2012.

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