Da arte de não cair ou Por que Messi é o melhor do mundo

Messi não cai

Que Messi é um fora-de-série, não resta a menor dúvida, e começar um texto assim é quase como afirmar, descobrindo a pólvora séculos atrasado, que um time tem onze homens, que a bola é redonda e que o Deivid definitivamente não se dá muito bem com ela. Mas é preciso iniciar a crônica de alguma forma, e as obviedades servem para isso. Pois bem, que fique claro: Messi é um fora-de-série. A cada lance, a cada gol, a cada corrida intransigente à meta adversária, como um míssil teleguiado que não compreende obstáculos, as perguntas parecem evoluir: “ele é o melhor da temporada?”, “é o melhor de seu tempo?”, “é o melhor da Argentina?”, “afinal, é o melhor de todos e pronto?”.

A este blog não cabe respondê-las, é claro, ainda que a inclinação desse escriba seja simplesmente descartar as primeiras perguntas e pensar muito refletidamente sobre as últimas, dando logo ao jogador o prêmio hors-concours de todas as temporadas em que estiver em atividade e deixando o título de melhor do ano como um troféu de consolação para os Cristianos Ronaldos e Xavis da vida.

De qualquer forma, não custa nada relembrar os méritos do atacante: a verticalidade absoluta, como se um imã invisível puxasse a bola – e seu corpo, simultaneamente – para dentro do gol; a visão de jogo decisiva, que permite a ele ir para o meio-de-campo e transfigurar-se em um Zidane argentino quando bem lhe convém; a força de gravidade absurda entre suas chuteiras e a bola, que parece pairar acima do jogo e do campo, desafiando as leis da física, da matemática, do futebol e da própria visão humana, aproximando e afastando a pelota dos pés conforme as solas dos adversários entram no caminho; a capacidade de arremate tão improvável quanto perfeita, provando – à la Romário e Maradona – que no futebol tamanho certamente não é documento, Peter Crouch que o diga; a velocidade e a agilidade de um Usain Bolt peso-pena, desaparecendo do campo, dos zagueiros, das teleobjetivas e câmeras lentas para ser reencontrado com a bola apenas dentro do gol adversário (Messi, sem o recurso do replay, seria provavelmente invisível); a gana de vencer ontem, hoje e sempre, o que pode ser comprovado por seus resultados, ou pelo menos aqueles pelo Barcelona, que eu sei, todo mundo sabe e todo mundo está cansado de saber, “ele ainda precisa ganhar uma Copa do Mundo com a Argentina”, nhenhenhém mimimi papapa.

Bem, eu estou longe de chegar ao final dessa lista, mas tomarei um atalho – ou o parágrafo correria o risco de ser infinito – para ir logo ao objetivo do texto. De todos os méritos citados e não-citados de Lionel Messi, um me chama a atenção, mais que os outros, como prova inconteste de sua superioridade em relação aos Cristianos Ronaldos e Neymares: Messi não cai. Eu repito, Messi não cai. Oras, alguns diriam: “- e daí?”. Pois bem, e daí? Daí, meus amigos, daí que isso significa tudo.

Para um jogador do porte e do talento de Messi, o natural, todo mundo sabe, é cair. Está, por exemplo, no DNA da malandragem brasileira (e se está na brasileira, podem ter certeza, está também na argentina). Se o jogador é leve, arisco, veloz, ele irá receber toques e encontrões do adversário, e recebendo-os, por que não aproveitar-se deles? Cair é mais fácil, mais tranquilo e mais seguro que ficar em pé (e ainda é possível arranjar um pênalti ou falta na entrada da área).

Jogadores como Robinho e Neymar, inclusive, fazem de cair uma estratégia, um artifício particular, trabalhado laboriosamente através de anos e anos de esforço; alguns diriam que suas quedas têm até assinatura. As de Cristiano Ronaldo – uma constante em seu jogo –, por exemplo, certamente têm: são acompanhadas de uma olhada para as câmeras com cara emburrada, uma nova olhada para os telões para ver se ficou bem nas tais câmeras e um chilique com o juiz por não ter marcado a falta (caso ela não tenha sido marcada, naturalmente). Pois bem, cair, para quem pode, é uma jogada e tanto.

Mas para Messi, que pode, e muito, nunca foi. Em seu vasto arsenal de possibilidades, em seu vocabulário extenso e continuamente renovado, “cair”, eu tenho certeza, nunca ocupou um pé de página.

Oras, novamente o leitor não messiânico pergunta: e daí? Se sofreu a falta, é direito do atacante cair. E se não sofreu, é direito dele cavar. O jogo também é feito disso, afinal. Ademais, não há dúvidas: Neymar, por exemplo, é caçado todo jogo como um vira-latas perseguido pela carrocinha. Mas se Neymar é caçado, o que se dirá de Lionel Messi?

Messi é perseguido, acossado, amordaçado, escorraçado e muitos outros ados, e não cai. Eu, se fosse juiz e visse Messi no chão, pedindo a falta, não hesitaria: expulsaria na mesma hora o agressor e o mandaria diretamente rumo ao presídio. Afinal, para se fazer o argentino abandonar a rota do gol, para deixá-lo parado na grama é preciso no mínimo quebrar-lhe a perna tal qual um assassino desleal; e matar o futebol é, naturalmente, um crime dos mais hediondos na história da humanidade. Tergiversei, e já retorno. Não estamos aqui falando de Pepes e Van Bommels, mas de jogadores. Certos nomes – e peço já desculpas pela frase anterior – sequer deveriam ser mencionados num texto sobre o argentino.

Voltemos então a nosso principal assunto. Está certo, alguns dirão: Messi é ajudado pela genética. Possivelmente jamais vimos um jogador com tamanho equilíbrio, o que, aliás, explica muitos de seus atributos. Mas aqui não estamos falando de ciências biológicas; o futebol é muito maior que elas. Para Messi, não cair não é apenas não cair. Não cair é, acima de tudo, uma filosofia, uma questão de princípios, uma regra básica de jogo. Cair, por si só, distancia do gol, e nada que distancia do gol pode ser positivo. Messi não chuta para trás, não dribla para trás, não corre para trás, por que então deveria cair, por que deveria parar?

O esforço que faz para manter-se em pé, mesmo quando a falta é clara, mesmo quando não é necessariamente a melhor jogada, mesmo quando cinco jogadores o cercam para roubar a bola, é digno de aplausos efusivos, os mesmos dados regularmente por seus passes, arrancadas e chutes maravilhosos. Ao contrário de muitos jogadores que poderiam continuar e não querem – e, portanto, operam numa lógica contrária à do gol, uma lógica contrária à própria essência do futebol -, Messi poderia cair e se recusa. Seu não é afirmativo e conclusivo. É um silêncio vibrante em defesa da simplicidade extrema, mesmo em meio ao virtuosismo de suas ações.

Eis o maior ensinamento que ele pode dar, e dá, a jogadores formados e talentosos como Neymar (queira ele ouvir ou não) ou a peladeiros perebas como eu. Infelizmente, eu nunca poderei ter o drible, o chute, a velocidade, a visão de jogo e o número de atributos tangíveis e intangíveis apresentados diariamente pelo argentino; meu jogo, afinal, está na esfera do humano, e desses mais ordinários. Mas, ainda que Messi esteja numa outra ordem, nunca antes vista, ainda que ele possa fazer absolutamente o que quiser com a bola, ele afirma, a cada toque, que para fazê-lo é necessário que ela esteja rolando, e que ficar de pé, sempre, não importa o que aconteça, é absolutamente fundamental. Ficar de pé; nada mais simples, mais verdadeiro e mais essencial ao jogo de futebol.

E para quem ainda tem dúvidas, segue abaixo um vídeo:

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