Guarani e o interior paulista

O futebol fica mais sem graça sem a força do interior

Os times do interior hoje em dia não assustam mais nenhum grande. Afirmações como essa são muito comuns, principalmente quando se trata dos campeonatos carioca e paulista. E parece que, ano após ano, ela vai ficando mais certeira, mais inquestionável. Há um processo muito preocupante acontecendo no futebol brasileiro, que tende para um abismo cada vez maior entre os gigantes do nosso futebol e os times de médio e pequeno porte. A motivação, é claro, é majoritariamente econômica. E a forma como ocorreu a negociação dos direitos de TV com a Globo é uma evidência muito forte disso. Não há nenhuma organização entre os clubes, que se deixam levar pela CBF e pelas Organizações Globo em troca de benefícios individuais, sem pensar na importância do crescimento conjunto das competições e dos clubes, fundamental para o crescimento também do público. Talvez aconteça por aqui o que acontece na Espanha. No Brasil provavelmente com mais de dois times, mas, de toda forma, com alguns poucos dominando quase tudo. Eu acho lamentável.

Indo especificamente ao Campeonato Paulista, o que vemos é um enfraquecimento geral dos times do interior. A gente sabe, mesmo quem não vivia pra ver, que antigamente havia uma força do interior paulista. Jogar em certos estádios, certas cidades, não era fácil pra nenhum grande. Essas equipes menores possuíam muita identificação com sua torcida, que comparecia aos jogos. Hoje os jogos no interior estão completamente esvaziados; quando um grande vai jogar acontecem aberrações como ingressos a 80 reais, numa tentativa totalmente atrapalhada e desrespeitosa dos dirigentes locais com seus torcedores. Além disso, há a questão da enorme rotatividade de jogadores; os times do interior paulista normalmente são montados para cada campeonato, com muitos atletas utilizando aquela disputa como vitrine para estar num time da Séria A ou B do Brasileirão. Essas e outras coisas impedem que os times do interior tenham aquele espírito que consegue superar a diferença técnica; não há identificação com o time, a cidade e a torcida, não há entrosamento e, consequentemente, não há crescimento como equipe.

Assim, fica cada vez mais raro um time como o Santo André de 2010, que jogava muita bola. Era um futebol bonito, comandado por Bruno César, com muita velocidade e técnica, sabendo ser ofensivo. Essa equipe, vale lembrar, ficou muito perto de vencer, na final, aquele Santos (comandado por Dorival Jr., com Neymar, PH Ganso, Robinho, Wesley, André), que encantava todo mundo em grandes exibições e goleadas históricas. Atualmente, parece muito mais provável que um time menor que consiga certo destaque seja porque jogue como o Guarani de Oswaldo Alvarez, que vemos (pelo menos por enquanto) em boa posição no Paulistão 2012. Ou seja, um time muito bem armado em campo, onde cada um cumpre muito bem sua função, sem muitas improvisações e com muita solidez do meio pra trás.

Falemos então do Guarani. O bugre tem segurança com seu bom goleiro Emérson e uma zaga supreendentemente sólida com Domingos e Neto. Nas laterais, jogadores que compõem bem a defesa e sabem marcar, mas que também aparecem bem no ataque, quando necessário, para possibilitar triangulações e jogadas de linha de fundo, principalmente com o experiente Bruno Recife, pela esquerda, que é um bom cruzador. Na direita, destaco o jovem Bruno Peres, que parece ter potencial.

O meio começa com Bruno Neves e Wellington Monteiro, o primeiro mais estático, dando uma segurança defensiva para a equipe, e o segundo com mais liberdade para aparecer como elemento surpresa no ataque e chutar de longe, fundamento que domina com qualidade. Mais à frente, caindo pela esquerda, aparece o grande organizador do time, Danilo Sacramento. É com ele que nascem as jogadas mais interessantes do Guarani, principalmente quando Wellington Monteiro e Bruno Recife aproximam, apresentando possibilidade de triangulações curtas e rápidas, fundamentais para abrir espaço na defesa adversária num time com pouca habilidade individual. Fabinho, atacante veloz, cai também pela esquerda, dando agilidade e aumentando o volume ofensivo do time. Do meio pra direita fica Fumagalli, jogador veterano que nunca foi exatamente muito dinâmico. Sua maior importância, nessa equipe, é a bola parada, que, como sabemos, pode não ser pouca coisa. Completa o time Ronaldo, referência ofensiva dentro da área.

Devo dizer que não vi vários jogos do Guarani, mas parece que o time não foge muito dessa estrutura. E não é difícil constatar que Vadão faz um ótimo trabalho, mas sem ir muito além do básico, da cartilha de um time, digamos, acertadinho. E, por tudo o que disse no início, acho que isso é mais uma consequência, uma condição imposta pela forma como a montagem de um time do interior se estruturou, do que pela ideia de bom futebol do técnico e seus jogadores. Que esse Guarani seja forte e que possa ir longe é incrível, mas a vontade de ver um interior menos pragmático, com mais emoção e força da torcida, está aqui, e cada vez mais carente.

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2 respostas em “Guarani e o interior paulista

  1. Não sei Chiko mas acho que rola muita nostalgia nesta ideia da força do interior de São Paulo. Os bons times de lá sempre me pareceram ciclicos frutos de um subito investimento, não existe grande diferença entre um São José e Barueri. Salvo pelo Guarani e Portuguesa ninguém realmente fazia com qualquer frequencia campanhas boas (e mesmo estes times nunca eram muito regulares). Mesmo alguns times que as pessoas se lembram como notaveis não eram tão bons assim, o Mogi do Vadão em 92 por exemplo (que tinha Rivaldo, Valber, etc) detonou no Grupo B (na epoca que o Paulista usava aquela regra onde os mais fortes ficavam num grupo com mais vagas) e quando foi para segunda fase com a elite perdeu 4 dos 6 jogos.

  2. O Bugrão é a resistencia do Interior. O clube que incomoda os grandes da capital. Nao é a toa que é Campeao Brasileiro e um dos maiores reveladores de craques do Brasil.

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