Manduca e seus parceiros

Jogadores do mítico APOEL comemoram a vitória sobre o Lyon

Nesta temporada, a Europa está sendo assombrada. Sim, uma força nova parece querer subverter as coisas. Mas não, não se trata de um time de futebol refinado. Não é também o caso de um futebol emergente, ou de um novo grande técnico, que enxergou as falhas táticas dos ricos times do continente. A tradição, dessa vez, foi postas de joelho diante do desconhecido APOEL.

E, afinal, quem é APOEL, time de Nicosia, Chipre? Os fanáticos pela Champions já devem ter percebido que, recentemente, outros times do país já vinham disputando o torneio – e o responsável direto por esses eventos é Michel Platini, o poderoso chefão da UEFA. Ele remontou a eliminatória pré-grupo da Champions, forçando times que se classificavam em posições inferiores de seus campeonatos, mesmo na Espanha, Itália, Inglaterra e por aí vai, a se enfrentarem. Assim, o caminho ficava mais fácil para que os campeões de países sem tanto reconhecimento, e até mesmo de países sem reconhecimento algum, como o Chipre, chegassem à fase de grupos do torneio. Esses times podem não ter em geral tanto glamour ou qualidade para figurarem na honrosa Champions League, mas, como todos sabem, nem a honrosa Champions League é maior do que a política esportiva. Platini favorece as pequenas, porém importantes, parceiras, e assim a Europa se une mais a ele.

Fato é que isso tudo acabou permitindo ao APOEL chegar à fase final da Champions, evento que em outros momentos, mesmo recentes, seria quase um milagre. E quase como um milagre, ele está apavorando. Num grupo com Porto, campeão invicto da Europa League na temporada anterior, Shakthar, quartas-de-final da Champions na mesma temporada, e Zenit, um dos maiores times russos, que, assim como Porto e Shakthar, recentemente fora campeão da Europa League/UEFA, o APOEL não apenas passou de fase como atropelou. Foi o primeiro, impressionando a todos com sua desenvoltura.

Desfaçamos esse monte de adjetivos usados no calor do momento apenas para tentar engrandecer o APOEL. Não se trata, essa que é a mais pura verdade, de um time de muito talento. O APOEL é um caso de energia pura, de garra, de saber aproveitar o momento iluminado com o claro e consciente fim de superar os obstáculos, um a um – o time, mais do que qualquer outro, sabe de suas limitações. E faz disso seu trunfo. É como o Braga em anos recentes, que surpreendeu sendo vice-campeão do português e, na temporada seguinte, chegando até a final da Europa League. Como o Braga, o APOEL é também um time cheio de portugueses e brasileiros quase anônimos, vindos direto do submundo do futebol.

Entre eles estão Ailton, Marcinho, e ele, o guerreiro salvador, Manduca. Nomes simplórios, vulgares, totalmente desconhecidos. Como a versão não célebre de um Fábio Simplício – apenas operários da bola. Enquanto a Champions vive de seus superstars, e o Lyon entrava no jogo com Lisandro Lopez, Michel Bastos, Hugo Lloris, todos conscientes de sua imagem e de sua importância pro futebol no país, Manduca comandava um grupo de jogadores tão anônimos quanto se é possível.

Não é preciso dizer muito mais para enfatizar que o embate entre os dois times foi incrível. Na partida de ida, na França, o Lyon tentou dominar o jogo, mas esbarrou em sua pouca criatividade. O APOEL, sabendo o papel que lhe cabia, limitou-se a se esconder, inclusive deixando nosso personagem Manduca, o guerreiro, no banco. Tendo dado apenas um chute a gol durante todo o jogo, o time saiu no lucro, perdendo só de 1-0. O Lyon, por sua vez, já mostrava fraqueza, dependendo demais de seus pontas, que precisavam sempre fazer jogadas por si.

Mas foi nesta última quarta, dia da batalha de volta, que a cidade de Nicosia realmente foi à loucura. O APOEL jogou mais uma vez fechado, mas decidido a sair em busca da vitória. É, afinal, da natureza de um time pequeno sempre defender. E, pela lógica, a natureza do grande Lyon deveria ser a de atacar. Mas isso o time francês não fazia, já que provou de vez ser decididamente, rigorosamente fraco. Não havia meio, não havia toque, e suas jogadas eram basicamente dar a bola para Michel Bastos ou Briand lançarem, e torcer para que Ederson ou Lisandro ganhassem no cruzamento. O infame chuveirinho.

O APOEL, que não tinha nada a ver com isso, buscou logo seu gol, com o guerreiro, o herói Manduca. Dali em diante, a lógica do time pequeno, pensávamos todos, era clara e clarividente: o APOEL se fecharia. Mas a equipe teima desde o início do torneio em refutar o irrefutável. E o que se viu foi um APOEL incomparavelmente superior ao Lyon com a bola no pé, tocando ela com tranquilidade, envolvendo um grande número de jogadores. Faltavam talentos individuais, é claro, não havia dribles, passes majestosos, nada fora do comum. Mas nada disso era necessário: operários alcançam a vitória trabalhando.

Foram muitas as chances de gol. Aos poucos, o APOEL foi se cansando, e tentava renovar as forças com novos jogadores. Enquanto isso, o Lyon seguia seu calvário. Na altura em que Gomis, jogador forte de área, entrou no jogo, o time se limitou a lançar qualquer bola para ele. Gomis, meio tosco, limitado, quase como um jogador do time adversário, foi muito guerreiro, e quase fez o dele. Mas era um só, operando, como sempre, sem ajuda. Já no APOEL, o mérito vinha de todos. O mito Manduca e seus parceiros ganhavam bolas na raça e compartilhavam entre si cada momento, cada passe, sempre em busca do gol.

Mas como todo grande épico, o resultado não poderia ser fácil. Manduca, como um bom brasileiro, havia tomado cartão amarelo por tirar a camisa em seu gol. E, já no fim da prorrogação, um carrinho cheio de vibração o tirava do jogo. Cartão vermelho, e APOEL com um a menos. Será que, enfim, o Lyon usaria seu poder para criar algo? Para deleite do torcedor, nada mudou, e o time quase conseguiu marcar sem um jogador.

A partida chegava aos pênaltis, e sem Manduca, provável batedor. Na torcida, a apreensão era enorme. Parecia delírio, mas não havia nada de irreal. Quem viu o jogo percebia que o APOEL merecia já estar classificado. Só que ainda não estava, e o Lyon, no lucro, escalou para a batida todos os seus jogadores mais experientes. E a lógica, como sempre, nos pênaltis, era de que o time grande, o time de Lloris – atual goleiro titular da seleção francesa – acabasse com o sonho de Nicosia.

Mas aí um novo mito começou a aparecer, e dessa vez não era brasileiro: o nome dele, Chiatis. O goleiro do APOEL errou o canto em apenas uma das cobranças, a primeira. Em todas as outras, pulou certo. Na segunda, de Lisandro, a bola bateu na trave e voltou nas suas costas, antes de morrer no gol. Azar? Não. Destino. Na cobrança seguinte, ele novamente passou perto, mas a bola, bem batida, foi muito pro canto. E aí veio Lacazette, jovem revelação. Chiatis, confiante, certo de que seus amigos de time não errariam, que nunca falhariam, foi outra vez pro canto certo. E dessa vez, pela primeira vez, pegou. A torcida se agitava, nervosa, ansiosa. O APOEL não cometia erros, e convertia todas. Na quinta cobrança francesa, Michel Bastos, craque do time, pegou a bola. Um exímio batedor de faltas. Ele toma seu tempo e bate, espertamente, no outro canto. Mas Chiatis troca o canto também: E PEGA! O Chipre delirava. O Lyon se assombrava com sua mediocridade. APOEL Nicosia, pela primeira vez em sua história, ia para as quartas-de-final. E de cá, do outro lado do mundo, só podemos aguardar para que, nos próximos capítulos, venham também as próximas estrelas.

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