Levanta, sacode a poeira…

Como as pessoas, os times de futebol acordam em dia ruim. Como elas, entram em depressão também. E eventualmente saem dela. E quando um grande time recobra o entusiasmo, que prazer em observar todas as peças reencontrando seu lugar, o dinamismo retornar, a força, a objetividade, a leveza do futebol bem jogado. Como o Arsenal, que renasceu das cinzas depois de tomar uma piaba de 4 a 0 do Milan e ficar sem reação durante o jogo inteiro — e agora já conseguiu a proeza de virar o jogo e de vencer três grandes times ingleses em sequência –, agora foi a vez do Bayern de Munique, uma equipe com inegáveis talentos que em 2012 ainda não tinha encontrado seu melhor futebol e, a despeito até de performances individuais satisfatórias (exceto por Mario Gomez, que estava em seca de gols, não dá para dizer que alguém do Bayern estivesse jogando mal), o time não conseguia funcionar coletivamente, cada jogador desempenhando apenas o papel que lhe parecia designado mas sem a mínima fluência de equipe. Se o toque de alvorada do Arsenal foi a humilhação contra o Milan, o despertador do Bayern foi a rodada do dia 3 de março, em que o Borussia Dortmund colocou sete pontos de diferença na disputa pelo título da Bundesliga, vencendo soberanamente o Mainz 05 (ainda que tenha tomado um susto no meio do segundo tempo, rapidamente contornado) enquanto o Bayern perdia em Leverkusen para os donos da casa por por 2 a 0, apesar de uma clara superioridade incapaz de ser convertida em gols.

Era exigida uma mudança de postura. Não só por causa da Bundesliga, mas também porque nos jogos de ida o time alemão perdera do Basel, na Suíça, pela contagem mínima. O resultado não era nenhum desastre, porque na Allianz Arena o time da casa costuma se garantir muito bem, mas ainda assim a hipótese de cair nas oitavas da Champions League para um time sem expressão internacional seria motivo de crise, ainda mais acompanhado pelo distanciamento da luta pela primeira posição e por um flagrante desempenho aquém do que o escrete pode render. O resultado, acachapante, veio em dois jogos em que o Bayern realizou a proeza de marcar 14 gols e tomar apenas um. E esse gol sofrido tendo chegado num momento em que já nem mais havia jogo propriamente dito. Nesse contagem, Mario Gomez reencontrou seu caminho para o gol marcando sete (!) tentos, Robben humildemente colaborou com quatro ao passo que Müller, Kroos e Ribéry também deram suas colaborações mais modestas. Mas o que aconteceu para o time mudar da água para o vinho?

Bom, primeiro de tudo é uma questão de disposição. Na movimentação, na ocupação de espaços, na troca de passes, via-se nitidamente uma maior empolgação na forma de se postar em campo e de se apresentar para o jogo. Mas o inegável toque fundamental foi retirar Philipp Lahm da lateral-esquerda e colocá-lo na direita, remanejando o meia-esquerdo/volante Alaba, o Jumar deles, como lateral-esquerdo. Não é que a mudança tenha sido genial ou os jogadores envolvidos superiores do que a escalação anterior (o digitador destas linhas não acha Rafinha pior que Alaba, em outras palavras). É simplesmente que o Bayern de Munique precisava de algum truque, um placebo mesmo, que desse um frescor ao jogo da equipe. O resultado é que não só a direita de ataque do Bayern de Munique ficou selvagemente perigosa, tendo em Robben e Lahm dois grandes jogadores, como a movimentação mais fluida da equipe — com Kroos mais preso quando subiam os laterais — rendeu bons momentos de apoio de Alaba em que trocas de passe entre ele e Ribéry foram muito bem desenhadas. O time ainda tem algumas deficiências — poucas opções de banco, certa previsibilidade de movimentos que pode voltar a dar as caras –, mas se permanecer com o mesmo espírito com que destruiu o Hoffenheim e demoliu o Basel (Basel que, é bom lembrar, eliminou o Manchester United da Champions vencendo em casa e empatando em Old Trafford), é um time apto a postular o pódio mundial, mesmo que seja o bronze. E vale lembrar que Schweinsteiger, recuperando-se de mais uma contusão, entrou apenas no final desses dois jogos. Difícil será decidir quem sairá: Kroos ou Müller (já que Robben e Ribéry são absolutamente “intiráveis” atualmente)?

Com que por mágica, os deuses do futebol ajudaram o Bayern de Munique e o Borussia Dortmund finalmente perdeu seus primeiros pontos em 2012 pela Bundesliga, num empate bastante sem graça contra o Augsburg, mandante e 15º colocado do campeonato. A placidez outrora vista no Bayern diversas vezes esse ano estava agora no time de Dortmund, e o empate sem gols acabou recolocando o Bayern na briga pelo título, porque são agora apenas cinco pontos de diferença, três dos quais podem ser tirados no dia 11 de abril, quando Dortmund receberá o time de Munique.

Falando em emoção na disputa por título, seria impossível terminar essa coluna sem mencionar a absolutamente inesperada — ao menos NESSA rodada — troca de líder na Premier League. O Manchester City parece ainda não ter se recuperado da má fase que acometeu a equipe quando os irmãos Touré foram para a Copa Africana de Nações, e nesse ano já foram três derrotas para times fora do “G7” britânico (verdade que os três estão entre 8º e 11º). Em todo caso, a evidência está tanto na contagem final quanto na forma de jogar, porque o City parece ter perdido aquilo que tornava a equipe excepcional (no sentido de “de exceção”, não de “genial”, porque isso o City nunca foi, a não ser quando sapecou o United em Old Trafford por 6 a 1). O Manchester United, ao contrário, está finalmente podendo contar com opções de alto nível no meio-campo sem ter que sacrificar Giggs ou depender de opções pelas pontas — caso de Nani ou Valencia quando escalados como meias. Os casos em questão são Ashley Young, que na reta final do campeonato, e voltando de contusão, está jogando seu melhor futebol, e os três atacantes com excelente movimentação — Rooney recuado para quarto homem de meio de campo, Welbeck e Chicharito revezando entre ponta e centro no ataque — que Alex Ferguson escalou no fim de semana contra o West Bromwich. Mesmo que se duvide que Ferguson escale o time de forma tão ofensiva nos jogos mais perigosos, resta a pergunta: que jogos perigosos? Na Premier League, só há um jogo contra um time do “G7” da Premier League, e é a possível decisão de título de 30 de abril, pela antepenúltima rodada, entre os dois times de Manchester (ao passo que o City ainda pega o Chelsea e o Arsenal, entre os times que disputam vagas para torneios internacionais). Já o Arsenal, cada vez mais letal, se encaminha para ser a terceira potência da Grã-Bretanha, com Rosicky vivendo boa fase, as voltas de contusão de Sagna, Gibbs, André Santos e Arteta e, claro, o maior fator, a monstruosa fase de Robin Van Persie, o maior centroavante da temporada 2011-2012. Arsène Wenger rirá no final, quem diria…

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