O caso Adriano

Adriano, o craque solitário

Em seu recente – e recomendadíssimo – artigo na Revista Piauí, Nuno Ramos chama em certa passagem Ronaldinho Gaúcho de “a maior esfinge do futebol brasileiro nos últimos vinte anos”. Seus argumentos são límpidos e claros; como, subitamente, a maior revelação do nosso futebol, o melhor jogador do mundo, a arma mais letal dos gramados transformou-se aos olhos de todos em um bobo da corte, uma foca amestrada dos campos, que esconde em seu sorriso eterno e trágico o peso de todo o futebol?

Essa pergunta que não quer calar – e que não cala, batendo no torcedor nacional a cada partida sua pelo Flamengo – certamente merece um estudo mais aprofundado, e aqui na Contra-Ataque ainda o terá, mas, para mim, a maior esfinge do futebol brasileiro tem outro nome, o nome de um jogador com certeza menos técnico ou talentoso, sem sintomas do virtuose deslumbrado que Gaúcho se tornou, quase como uma pedra em estado bruto que recusa-se a ser lapidada e perder sua essência. Falo aqui de um jogador incompreendido pelo fato de ser simplesmente incompreensível; falo de Adriano.

Adriano, por suas características enquanto jogador, e jogador brasileiro, já traz em si o peso – literal e metafórico – da incompreensão generalizada. Apesar de possuir um alto, e muitas vezes absolutamente ignorado, nível técnico, seu futebol é essencialmente e basicamente de força – a força de seu corpo indestrutível, de seu pé esquerdo poderoso, de seus cabeceios certeiros. Oras, instituiu-se há muito tempo que a força era uma velha e mortal inimiga do futebol brasileiro, criador dos frágeis e geniais Garrincha e Zico, do divino, místico e encarnado ente espiritual Pelé, do toque de calcanhar de Sócrates e da bicicleta de Leônidas, do aniquilado, sofrido e decisivo Ronaldo, do raquítico Rivaldo, do anti-centroavante Romário – artilheiro apesar do tamanho, apesar do físico, apesar da força.

Nuno, novamente em seu artigo, brada contra a ideia da “alegria” no futebol brasileiro, justificando que mesmo Pelé era um jogador sujo, violento, físico – e que isso também compunha sua genialidade. Mas a opinião geral e irrestrita é outra, e nela Adriano não se encaixa. Como, afinal, colocar no mesmo bojo esse jogador essencialmente brasileiro, essencialmente carioca, amante do samba e da favela onde nasceu, composto apenas de força, força e nada mais, essa palavra maldita pertencente aos alemães, aos ingleses, aos italianos, mas nunca ao melhor e mais bonito futebol do mundo? Como incluir Adriano em seu país?

Assim, foi natural que o sucesso do jogador – que saiu quase escorraçado do Flamengo, trocado como gorjeta por um craque do porte de Vampeta – se desse inicialmente na Itália, onde ele virou Imperador. Itália, país que servia, e serviu, como uma luva a seu futebol tão físico e tão naturalmente anti-patriota. Mas o que ninguém pôde compreender, talvez nem Adriano, é que sua força – a mesma força bruta que levou Nuno a chamá-lo, muito erroneamente, de um jogador “apenas mediano” – sempre foi e sempre será essencialmente brasileira.

Aí está talvez a primeira das muitas contradições do jogador, a primeira das muitas que nunca pôde ser resolvida. Adriano não é um Vieri, um Klose, um Mário Gomez; não é um Jardel, um Grafite, um Amauri; sua força não é da disciplina tática, da limitação escancarada, da máquina impessoal de fazer gols. O futebol de Adriano é o de um vulcão em erupção, de um cavalo sem rédeas, de um compasso quebrado. Para vencer, ele precisa estar além do comando, além das ordens, além dos poderes dos outros.

Talvez seja difícil de entender – ainda que, historicamente, não há nada que faça mais sentido – que o irmão futebolístico de Adriano esteja em seu oposto, na figura igualmente trágica de Garrincha, em sua anarquia extremamente alegre e solitária, em seu jogo contra tudo e contra todos, em sua recôndita tristeza genial. Mas se a Garrincha, o mágico, o melódico tortuoso, cabia o epíteto de “a alegria do povo”, a Adriano, o ritmista onipresente, cabe o exílio – não da torcida do Flamengo, que o recebe de braços abertos, não importa o que faça – mas da opinião geral. Ao Nero de Milão não lhe permitem ser brasileiro e carioca, como se ele devesse ansiar pela Itália toda poderosa, pelo título de melhor do mundo, pelo sucesso na Europa, pelos grandes projetos de marketing e tediosos dias de treino, como se Adriano devesse compartilhar as regras do jogo que o dinheiro lhe impõe.

“Oras”, alguém dirá, “é necessário, no futebol de hoje, ser minimamente profissional”. Mas a segunda contradição de Adriano é exatamente essa. Em um universo cada vez mais submetido às ordens econômicas, cada vez mais caro, cada vez mais rico, onde os clubes faturam milhões e os jogadores compram casas, carros, jatinhos, onde a organização e o planejamento financeiro são fundamentais, Adriano simplesmente não sabe seguir as regras; ele nunca pôde – ou poderá – ser “profissional”. Seu jogo solitário e único, o estilo possesso, quase irascível, que nasce e se cria no corpo e nunca na cabeça, que surge das vísceras e nunca do cérebro, só pode durar dentro de um esquema amador, um esquema que obviamente já não existe. Hoje, o jogador não pode mais faltar a treinos, não pode mais encher a cara, não pode mais ficar gordo ou triste ou simplesmente de saco cheio.

Só que Adriano possui o orgulho e o prazer das grandes peladas do Aterro, e seu jogo não é feito para a pressão midiática de um Maracanã (ainda que aqui, justiça seja feita, seja onde Adriano mais brilhe, exatamente por esquecer onde está e jogar no Maraca como se fosse o palco de uma épica pelada de várzea). Adriano é o Nicholas Ray – ou seria o Paul Verhoeven? – do futebol contemporâneo, lutando para sobreviver em Hollywood, cavando com essa luta sua própria cova. Ele tem a força, ele tem a técnica, ele tem tudo que precisa para voltar a jogar muita bola, há anos, mas parece simplesmente optar pelo incompreensível: como um Bartebly do século XXI, Adriano sempre recusa.

“Oras”, o mesmo idiota mercadológico dirá, com a certeza de quem sabe que não há nada além e nada melhor que o sucesso, “não há burrice que justifique isso”. E outros se sucederão: Adriano é depressivo, Adriano é alcoolatra, Adriano necessita de tratamento. Talvez tudo isso seja a mais absoluta verdade – ainda que afirmá-la, na comodidade de casa, não passe de leviandade. Mas talvez a verdade seja um pouco mais complexa. Adriano, nesse futebol atual em que o corpo de um jogador não passa de um cifrão, em que craques absolutos como Neymar e Cristiano Ronaldo parecem ter sido criados por publicitários em projetos de marketing, não permite, sabe-se lá por quê, ser vendido como um produto. E assumir que um tanque indestrutível não é uma máquina de guerra, mas sim um corpo humano falho e defeituoso – como todo corpo humano – talvez seja demais para nós.

Assim, é mais fácil enquadrá-lo em uma categoria clínica, médica, social, muitas vezes beirando o mais puro racismo. Dessa forma, é mais fácil desprezá-lo perante o sucesso das ordens econômicas. Mas nossas afirmações indubitáveis provavelmente dizem muito, muito pouco sobre quem é ou o que faz Adriano acabar-se, lenta e tragicamente, perante nossos olhos; e dizem muito, muito mesmo, sobre o modo como vemos o mundo hoje em dia. Só que Adriano, felizmente, não tem nada a ver com isso.

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Uma resposta em “O caso Adriano

  1. Noutro dia deixei um comentário bem legalzinho, mas deu erro.
    Eu não entendo o Adriano, isso não importa, mas acho que ele mesmo não se entende, está distante de si mesmo. Lembrar de Garrincha ao se falar em Adriano, eu entendo, peleos dois fazerem mal a eles próprios, mas algumas diferenças são gritantes para mim: a alegria de Garrincha jogando, que parece mais com Neymar e faltava ao Adriano, quando jogava, e a soberba no trato com a imprensa e em atitudes de Adriano, que me parece não era o caso de Garrincha. Ainda, a ganância de Adriano, como estamos acompanhando a sua saída do Corinthians (notícias após o seu post), ele bem poderia ter feito acordo com o time, sem alarde, afinal não jogou e ganhou rios de dinheiro, mas preferiu a briga jurídica e começou a rolar o processo de justa causa, ele podia ter evitado essa. Isso, para mim, é soberba, coisas de imperador, agora decaído.

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