Qual a sua, Mano?

Refletindo...

Quando resolvi fazer um post sobre algumas questões que venho tendo com o trabalho de Mano Menezes como técnico da seleção brasileira, fui olhar a ficha técnica de alguns jogos pra confirmar se minha memória estava correta. Confesso que, após essa pequena e rápida pesquisa, fiquei ainda mais confuso. A cada jogo que se sucedia, a cada novo time que aparecia escalado, eu entendia menos e menos qual é o objetivo de Mano na montagem dessa seleção.

Antes de tudo, volto um pouco no tempo: Dunga. Está aí um cara que eu não quero como técnico do meu time. Nunca. Mas uma coisa tenho que dizer: eu entendia claramente os (ou alguns dos) objetivos dele à frente da seleção. Discordava frontalmente de quase tudo, achava o trabalho terrível, mas pelo menos existia um projeto claro que eu pudesse me confrontar. E esse projeto ia além da equipe em campo, o que ficou evidente na complicada relação Dunga/seleção com a imprensa naquele período.

Retorno ao Mano. Sua estreia foi em agosto de 2010, e ele escalou um time que parecia dar mostras do que pretendia fazer no comando do Brasil. Era o 4-2-3-1, esquema do momento e utilizado por ele com muito sucesso na Corinthians. Relevo o tradicional 4 de trás e me atenho ao 2-3-1 do meio para frente, que é o que mais me interessa nesse momento; contra os EUA, Mano escalou Lucas Leiva, Ramires, Robinho, PH Ganso, Neymar e Pato. Ou seja, um time com muita força ofensiva e de grande movimentação.

Lucas como primeiro volante, marcador forte, mas não só isso; um jogador que sabe o que fazer com a bola no pé (função que executava muito bem no Grêmio do próprio Mano). Ramires, um segundo volante rápido, peça forte para transições velozes entre defesa e ataque. Ganso, é claro, o armador, o homem com a responsabilidade de dosar a velocidade com momentos de calma, de parar a bola, e também o homem com a capacidade de destruir qualquer retranca com um passe preciso. Robinho e Neymar nas pontas, dois jogadores velozes, agressivos, dribladores; atacantes jogando como pontas, com função de ir pra cima, de fazer gols (principalmente Neymar, excelente finalizador), mas também de marcar, coisa que Robinho andou fazendo muito bem. Na frente, Pato, desempenhando o papel de um centroavante referência que talvez não seja muito a dele, mas que sem dúvida valia a tentativa.

No segundo jogo, contra o Irã, Mano fez uma série de testes, mas manteve a postura do time, que começou com Robinho, Carlos Eduardo e Philippe Coutinho formando o 3 criativo. Em seguida (contra a Ucrânia), prestes a enfrentar a Argentina, nosso técnico colocou Elias para jogar ao lado de Carlos Eduardo e Robinho, com Pato no ataque. Aparecia o primeiro sinal de que as certezas de Mano, tão fortes no discurso, estavam prestes a desmoronar em campo. Os volantes começavam a dominar o setor criativo da equipe.

Já contra a Argentina, Mano surgiu com uma mudança surpreendente no esquema: o time entrou sem o centroavante referência, com Ronaldinho, Neymar e Robinho formando o trio mais ofensivo. A manutenção de Elias no time – formando uma trinca marcadora com Ramires e Lucas – dava a impressão de que Mano estava achando o esquema da equipe muito pouco confiável sem a bola. E aí vem a contradição: a escalação de Ronaldinho. Há sentido em mudar todo um esquema para ter Ronaldinho, que não marca ninguém, como titular? Sem dúvidas, acho que não.

Então, o time que se apresentou inicialmente no tal 4-2-3-1, com Mano discursando claramente sobre a importância de se marcar saída de bola, de valorizar sua posse com muito toque no campo ofensivo e tendo uma referência clara no ataque, surge sem nenhum homem de armação e sem nenhum centroavante. Realmente o porquê desse time ter começado o clássico sul-americano é um eterno enigma para mim. Nos jogos seguintes, algumas variações no time, mas sempre com um jogador mais marcador (Elano, Hernanes…) além dos dois volantes.

Aí veio a primeira competição oficial, a Copa América, e com ela a volta do mesmo time da estreia de Mano contra os EUA. E eu pergunto: como assim? Eu sei que o Ganso até então estava machucado, mas a minha questão é maior do que isso, é sobre a forma e a filosofia de se armar um time. Por que, afinal, essas idas e vindas? E assim seguiu a Copa América com esse esquema tático (o inicial – em discurso e na prática – do trabalho de Mano). Com a eliminação, depois de várias exibições ruins, muitas críticas, muitos questionamentos.

E depois disso, Mano revelou enfim seu maior problema: a falta de convicção. Nosso técnico parece que ficou com medo. Medo de ser criticado, de perder, de ser despedido, sei lá. Mas o time brasileiro que entrou em campo no jogo seguinte, contra a Alemanha, foi uma vergonha. Parecia uma equipe muito mais fraca, temendo uma goleada; postura defensiva, três volantes (e, dessa vez, três volantes mesmo, nada de um jogador com maior poder de marcação fazendo o meio) – Fernandinho, a novidade, só estava em campo para marcar. E, novamente, a seleção estava sem armador: Robinho, Neymar e Pato ficaram com a responsabilidade de tudo no ataque. E daí pra frente manteve-se o esquema do 4-2-3-1 com um jogador marcador no tal do 3.

A minha impressão é que Mano não sabe o que fazer sem contar com Ganso em boa forma e jogando bem. Também não sabe o que fazer com Ronaldinho, que ele insiste em escalar, mas que claramente não tem lugar no time que Mano disse que montaria na seleção. O técnico, na tentativa de agradar a muitos, acaba sem postura, sem pulso. Acaba sem nada.

Sempre discordei frontalmente de Dunga porque acho que o resultado obtido pela seleção é menos importante do que aquilo que ela representa pro futebol. O que se estabelece, o que se constrói ali, vai muito além de ganhar ou não uma Copa do Mundo. Dunga quis montar um exército fechado e moral, apostando na crença de serem os escolhidos para vencer. Mano não sabe o que está fazendo. Ou melhor, não sabe por que ou para que está fazendo. Parece que o objetivo da seleção, hoje, é ganhar o próximo jogo, garantir os três pontos. E isso, sinceramente, não faz o menor sentido.

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Uma resposta em “Qual a sua, Mano?

  1. E nem os 3 pontos se ganha em amistosos! Então, do Dunga ao Mano, fomos da prepotência ao medroso.
    Gostei dessa organização do percurso de Mano na seleção, pq eu não sei avaliar, só sei que não gosto do que nem vejo, pois já desisti.

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