Chelsea, ou mais vale um bando que um técnico?

Há algumas semanas testemunhamos a queda da era Villas-Boas no Chelsea. Já tratei por aqui sobre as tentativas dele e seus insucessos. Na época, clamava por mais oportunidade e tempo para que ele pudesse trabalhar. Entre a minha publicação e sua queda, uma série de resultados ruins e ainda mais erros e insistências sem sentido se deram. Mas mais que resultados, a queda se deve à máfia interna que comanda o elenco do Chelsea, liderada por John Terry, Didier Drogba e Frank Lampard.

Na primeira partida já com Di Matteo, interino confirmado para o resto da temporada, a imagem da transmissão televisiva focava sempre o trio. Triunfante, alegre, serelepe. Como mafiosos após jogarem no lago o corpo de um traíra. Há os que duvidam das teorias, achem pura especulação. Posso respeitar, mas discordo. Vejo evidências. No comportamento dos jogadores, nas entrevistas, na presença de antigos atletas do elenco saindo em defesa dos que estariam agora sendo maltratados.

E a verdade é que, desde que Di Matteo assumiu, o Chelsea teve uma série de bons resultados. Ela foi interrompida nessa semana, com a derrota de virada para o City – mas este, claro, é um resultado mais do que aceitável. Proponho então analisar que time é este que Di Matteo está liderando, se é que podemos afirmar isso, já que os constantes pedidos dos jogadores para que o tratem como o comandante apenas realçam a desconfiança geral em relação a seu status verdadeiro.

Enfim, uma das mudanças de Di Matteo é que o time abriu mão de usar atacantes pelos lados. Assim, quem automaticamente perdeu a titularidade foi Sturridge. Sem seu espaço pela direita, o principal atacante do time na temporada saiu para que mais meias entrassem em campo. Isso mesmo; sobrou para o jovem que era o queridinho do técnico derrubado. Muito suspeito. Mas o que importa é que, taticamente, a mudança realmente existe. Portanto, não é possível afirmar que ele simplesmente foi barrado – ainda que Salomon Kalou, antes preterido, venha tendo tantas chances quanto Sturridge, o que é claramente um tapa na cara do jogador.

Há também outros jogadores, como Drogba, que não exatamente recuperaram a titularidade, mas aparentam estar mais presentes na cabeça e nas preleções do novo técnico. De qualquer forma, ainda há flexibilidade entre seus jogadores de área. Na partida contra o Napoli, a mais importante, Drogba saiu jogando. Contra o City, a segunda mais importante, foi Torres que vestiu a camisa titular.

Onde houve as principais mudanças foi realmente no meio. Lampard, antes relegado à reserva, foi restituído como o craque da armação, o cérebro do time. Sua fase não melhorou, seu físico continua ruim, mas é fato inegável que se trata de um jogador com incrível poder de decisão – assim, pelo menos nas bolas paradas, ele continua indo bem. Parece pouco, e é. Mas é, afinal, o seu time; é o Chelsea.

Outro que surpreendentemente cresceu de papel é Ramires. Ele sempre fora importante, inclusive com Villas-Boas, mas agora ganhou uma função mais ofensiva. Não é mais o volante, mas um armador. Isso mesmo: Ramires é armador no novo Chelsea. Ele ainda marca, como qualquer jogador sério faz hoje em dia, mas seu papel agora é o de criar jogadas, segurar os defensores com seu poder físico e aparecer na área pra dar passes e fazer gols. Ele tem comparecido, como sempre, mas parece claramente desperdiçado. Seu mérito maior, o da flexibilidade, perde sentido com ele apenas à frente. E todos sabemos que Ramires nunca foi exatamente um bom passador, muito pelo contrário.

Quem, nessas mudanças, sumiu de vez foi Oriol Romeu, que saiu para nunca mais ser visto. O Essien entra e sai do time, sem ter recuperado ainda sua forma técnica. Mikel, por sua vez, foi quem ganhou novas chances. Ele havia sido meio que esquecido, posto de lado após atuações ruins. Tem jogado bem – o que no fundo é natural, já que trata-se de um bom jogador.

A grande surpresa, na verdade, foi uma não mudança: Raul Meireles continuou como titular absoluto. Dele, que vinha cometendo erros dos mais graves nos jogos decisivos, especialmente na partida contra o Napoli, era de se esperar a barração. Mas como o Di Matteo curte essa ideia de preencher o meio com o máximo de jogadores, o português se deu bem. Meireles anda sendo escalado como um segundo homem do meio, ajudando na marcação e se apresentando para passar nos ataques. Talvez Di Matteo tenha percebido que no fundo ele é um bom jogador que acabou sendo meio queimado pelo técnico anterior, escalado numa posição que não era a sua, como um autêntico marcador, no fatídico jogo contra o time italiano. Lá, ele terminou falhando muito. Agora, quem sabe consegue se reerguer.

A defesa, por sua vez, foi a principal melhora nos últimos jogos. O time tem tomado poucos gols; na verdade, desde que Di Matteo assumiu, não tem tomado quase nenhum. Levou apenas três, acredito; um do Napoli e dois do Manchester City. Terry está voltando de lesão, jogando algumas partidas, e bem – sem a sombra de seu arqui-inimigo Villas-Boas no banco, pode voltar sem medo de ver o time ruir em suas ausências. Cahill também está se aclimatando melhor. E quem felizmente melhorou muito foi David Luiz, falhando menos, permitindo seus gols terem mais brilho, e não parecerem uma compensação por seus erros atrás.

Mas ainda foram poucos jogos. São apenas primeiras impressões: um meio poluído, a ponta abandonada, muito cruzamento feito de trás da grande área. A principal diferença, por enquanto, ainda deve ser o entusiasmo. O que é muito normal, não apenas por qualquer uma das citadas desavenças com o técnico demitido; essa é reação inicial da maioria dos times numa troca de comando.

Deixei para o fim a mudança que julgo mais séria, aquela que envolve o principal craque do Chelsea hoje. Mata foi sempre “o cara” durante toda a temporada. Para se distanciar do antecessor, Di Matteo até ousou deixá-lo no banco num dos jogos, mas o time sofreu e foi vencer apenas quando ele entrou em campo, participando de todos os lances decisivos. Mata, afinal, tem tudo: é um jogador versátil, de velocidade, com visão de jogo, e até faz gol; pergunte a seu companheiro Fernando Torres como isso às vezes é difícil.

A mudança que o envolve é simples, e pode ser deduzida por uma pergunta lógica: sem usar dois jogadores pelos lados, e com Lampard e Ramires armando pelo meio (o segundo fazendo o lado de campo quando necessário), qual a função que sobra para o craque? A função que sobra é ser ele, apenas ele, “o cara” decisivo. Já que não há espaço como meia e nem como ponta, como costuma atuar, ele zanza como um segundo atacante, solto no campo, livre para ocupar o espaço que bem entender.

Eis o que Di Matteo fez; deixou-o o livre porque não pode simplesmente tirá-lo do time, mas também porque não sabe, em seu esquema, como colocá-lo para fazer algo ou ocupar algum lugar específico. É o cúmulo do “esquema tático do bando” – a liberdade ao craque surge não como elogio a seu talento, mas como fruto de uma total desorganização. Os torcedores podem chiar, mas um bando de jogadores talentosos que se colocam acima dos técnicos pode até vencer muitas partidas, só que nunca deixará de ser um bando.

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2 respostas em “Chelsea, ou mais vale um bando que um técnico?

  1. Certeza que o John Terry era inimigo do Villas-Boas? Já li em algumas fontes que da máfia do Chelsea (que inclui o goleiro e mais uns dois ou três jogadores) ele era o único a favor de AVB e que ainda mantém contato com o ex-técnico. O que até faz sentido: ele ficou sem jogar por lesão (e pra ficar perto da médica do Chelsea, aposto) e não por corte, e durante o seu episódio racista o AVB defendeu, e muito, o jogador em público. Eu sempre tive a impressão que o treinador tinha um problema maior com Lampard.

  2. Cara, é difícil dizer se eram inimigos ou não. Mas te digo que o Terry tem essa postura de defender os técnicos para a imprensa sempre, com o Felipão fez a mesma coisa, até a última hora ele estava dando entrevistas defendendo sua continuidade, enquanto dizem nos bastidores, ele trabalhava para que ele saísse.
    Acho que o principal problema com o Lampard não era apenas ele não jogar, o mesmo vale pro Drogba. O Drogba nunca foi tão deixado de lado, quando teve condições de jogo. É o contrário da época do Felipão, quando o problema maior envolvia ele, que quando voltou de lesão o Felipão delirou que não precisava ser titular, chegando a escalar jogadores ruins mesmo em seu lugar (Di Santo).
    Acho que é aí que a lógica de máfia se aplica ao trio – eles são líderes do elenco, portanto quando um é atingido isso afeta o trio, que como líderes, tentam coagir o elenco para seu lado. Eu sempre tive a sensação de ver claramente uma diferença entre jogadores como o Ramires, o MAta e o Sturridge, que estavam do lado do Villas-Boas, e todos esses outros, não apenas de empenho em si, mas mesmo fisíca em relação a ele, irem lá abraça-lo, e tudo mais. Com o novo técnico, todos estão amontoados nele o tempo inteiro, como se quisessem mostrar alguma coisa…

    Um último adendo, sobre o Lampard. Sua má fase não começou nessa temporada, e mesmo com o Ancelotti, que foi muito vencedor no Chelsea, ele jogou muito mal e ficou muito na reserva. Assim como o Drogba. E nem por isso a máfia derrubou ele – não pelo menos essa máfia, claro.

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