Previsibilidades

APOEL Nicosia nas quartas-de-final da Champions League, e depois oferecendo resistência no primeiro tempo ao poderio do Real Madrid: quem poderia prever?

Uma grande parte das atividades de escrever e comentar sobre futebol consiste em prever e, não acontecendo o previsto, justificar a legitimidade da previsão. Como em tudo na vida, há modalidades de intensidade e confiança, os mais temperados sabendo que existe uma margem de imprevisibilidade no porvir e os mais animados, frequentemente fanfarrões em busca de uma cravada certa para ascender em popularidade, que saem prevendo barbadas ou obviedades e, diante dos flagrantes equívocos cometidos com a regularidade de um relógio, voltam à cena com a mesma efígie de grande articulista (isso serve aos comentaristas de todas as espécies, dos especialistas em economia aos correspondentes internacionais cuja ideologia misteriosamente coincide com aquela exposta nas entrelinhas dos boletins das agências internacionais). No caso da arte, que é de onde venho, a tarefa básica consiste em descrever, avaliar e contextualizar o que já existe, obras, percursos individuais ou coletivos, ênfases de época, geografia ou modismo. As previsões apenas aparecem na parte de circo, quase sempre desinteressante e ridícula, das premiações: quem vai ganhar o Oscar ou quem, dado o Presidente do Júri de tal ou tal festival, tem mais chances de levar uma Palma ou um Leão — e mesmo assim, num contexto de festival internacional, a cobertura do “quem vai ganhar” é nada menos que banal (e ademais imprevisível, uma vez que há júris que ignoram a aclamação do público, há aqueles que decidem fazer escolhas para mandar “mensagens” ao mundo etc.).

Falar de esporte, ao menos sobre futebol, e ao menos no Brasil, é inevitavelmente dedicar uma boa parte da gastação de saliva para prever: tal time com esse técnico não vai adiante, tal jogador caindo pela meia-esquerda não vai conseguir nada, tal artilheiro indo para a Europa será o maior jogador do mundo. É claro que há explicações: pouco importa se O Pagador de Promessas ganhou Cannes em cima de Cléo de 5 às 7, O Anjo Exterminador, Os Inocentes, O Processo de Joana D’Arc, O Eclipse, A Deusa e Tempestade Sobre Washington, esses listados são hoje marcos do cinema e o filme de Anselmo Duarte uma curiosidade bem-cuidada. Mas pouco importa se um clube foi brilhante num campeonato — digamos, a Alemanha na Copa de 2010. Se não ganhou, babau, todo mundo relegará ao esquecimento ou ao título de exemplo a não ser seguido, como o Brasil de 1982: jogou bem, encantou o mundo, mas… O que é um bocado injusto: uma enorme parte do prazer de assistir a jogos de futebol é ver excelentes jogadas, atacantes talentosos, meias articulados, laterais velozes, ou seja, talento. Talento nem sempre é convertido em objetividade, ainda mais no futebol, em que resultados inesperados acontecem com maior frequência. Ainda assim, por alguma lógica misteriosa, ao fim de um campeonato ou temporada, todos os bons momentos que passamos durante o processo são passados no funil e convertidos em mera ilusão diante de um resultado negativo, como se uma série de vitórias no meio de uma temporada fosse absolutamente fictícia a não ser que o clube conquistasse o título no fim das contas. Daí parte da importância dada às previsões: privilegia-se mais o resultado final do que os caminhos que levam a seu acontecimento. É como se o filme valesse tanto quanto seu fim — e do mesmo jeito há gente que só vê filmes para ver como termina.

É óbvio que não se pode falar de futebol sem mencionar resultados — como acontece em arte, por exemplo. Mas prever, ainda assim, é sempre um tanto tolo. Divertido, claro, mas tolo. Primeiro, porque essa previsão ou é visionária, e portanto absolutamente subjetiva, ou então baseada numa interpretação tão correta quanto possível do passado recente de um estado de fatos e sua projeção mecânica sobre o futuro. O acaso faz o que tem que fazer, que é zombar dessas previsões trazendo sempre algo de imponderável ao recheio, algo de imponderável que é, contudo, a maior obviedade de todas: não é garantido que jogador X permanecerá comendo a bola, não é garantido que técnico Y continuará mantendo o time com a mesma obstinação, não é garantido que o time Z manterá a mesma energia até o final. Isso não quer dizer que todos que preveem se igualam (e não quer dizer que os não preveem sabem mais: no fundo são talvez mais tolos ainda ao não entrar no jogo): há aqueles que vão com tudo nos imediatos dados flagrantes e aqueles que usam de suas habilidades para equilibrar a avaliação com outros dados interpretativos, como saber ver um jogo, entender o processo de um time e simplesmente não se deixar levar por duas ou três ocorrências chamativas.

O passado recente foi muito cruel com aqueles que entraram no bonde imediatista — e muito divertido para aqueles que ficaram observando, moderados, enquanto os apressadinhos tinham que ter opiniões incisivas. O grande caso em questão é o Arsenal, que entre uma ida e uma volta de Champions League deixou de ser uma porcaria e tornou-se time sensação, e de grande besta Arsène Wenger virou o estrategista que dá tempo ao tempo até que sua equipe consiga obter resultados favoráveis. Antes era só Van Persie que minimizava a tragédia. Agora até Vermaelen e Koscielny, instáveis em posicionamento e desempenho ao longo da temporada, já voltam a ser elogiados por conta da impressionante série que o Arsenal vem tendo na Premier League desde que apanhou do Milan na Itália. Arteta já dá solidez ao meio-campo e Rosicky já é titular legítimo, apesar de jamais antes do último mês ter dado em campo justificativa de sequer ter sido contratado pelo time de Londres.É o poderoso predomínio do presente sobre o passado: esquece-se tão rapidamente da temporada anterior, do mês anterior, que toda a história de um jogador só vale o que ele apresentou em suas três últimas aparições.

Nos campeonatos nacionais dá-se coisa semelhante. Os três melhores campeonatos do mundo pareciam muito mais resolvidos há coisa de um mês do que agora. Na Alemanha, o Borussia Dortmund permanece com sólidas apresentações, mas bastou um jogo desencontrado e, paralelamente, uma série de goleadas acachapantes do Bayern de Munique para fazer cambalear os senhores da predição em prol de alturas mais aproximadas na balança. A verdade é que o Borussia permanece tão estável quanto sempre esteve: é, aliás, possivelmente o time mais estável do mundo, só que isso pode tão ruim quanto bom para o líder do campeonato alemão. Na Inglaterra, uma série de tropeços do Manchester City já começou a travar as línguas que antes já tinham o time como franco favorito para vencer a Premier League. E o Manchester United, que simplesmente continuou mantendo sua fase, sem nenhuma guinada flagrante para cima em termos de ritmo de jogo ou de oscilações de performance individual ou escalação, já passou a ser avaliado como se fosse muito melhor do que era no final do ano passado, em que pesavam as desclassificações na fase de grupos da Champions League e nas copas inglesas. Mas é no campeonato espanhol que as coisas adquirem real intensidade humorística, quando dois tropeços até então inimagináveis por parte do Real Madrid colocaram a distância entre Real e Barcelona em níveis aceitáveis (seis pontos) e, consequentemente, foi revogado o título antecipado que tantos já haviam concedido ao time merengue. Qual o pecado aí? O de sempre, projetar o passado no futuro e presumir que um time que não perdeu ponto contra times que não o Barcelona continuaria sem perdê-los mais à frente.

Poderíamos aplicar o mesmo tipo de raciocínio ao jogo que acaba de acabar entre Real Madrid e APOEL Nicosia. O time do Chipre montou uma defesa que guardou excelentemente sua meta por 74 minutos, e que em seguida se desmontou uma vez frustrado o objetivo de não tomar gols. Ora, as previsões ao final do primeiro tempo? Jogo duro, furar a defesa, 1 a 0 é goleada. Jogo terminado? Passeio do Real Madrid no Chipre, vitória convincente, classificação assegurada. Pode até ser verdade, mas como traduz-se a tensão em que o jogo esteve embalado até quase a metade do segundo tempo? Ignorada porque o resultado final sobredetermina o processo?

As saídas disso, infelizmente, não podemos prever. Assistir e comentar futebol são muito associados a distração descompromissada, onde não devem entrar os infortúnios do mundo (brigas de torcidas que matam gente e mobilizam a cidade, por exemplo) nem raciocínios analíticos. E, portanto, as previsões são vistas como purpurina, com as purpurinas de ontem varridas para baixo do tapete enquanto as de hoje são jogadas com a desfaçatez e a arrogância de sempre. Alguns diriam que é tudo diversão. Pode ser: mas há palavras cruzadas para adultos e outras para crianças de menos de 10 anos.

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