Compreendendo a alma

Um dos fatores que mais assombra os times que disputam a Libertadores é compreender a sua alma. Aquilo que não é visível, tangível, o sentido de alma.

Tivemos diversas demonstrações disso ao longo da história. Times que foram derrotados por equipes inferiores, quase sempre porque entram no campo acreditando na supremacia da superioridade técnica. Eles esquecem que a superioridade é técnica, mas não é completa. E que o futebol não se dá apenas nesse campo da qualidade mais simples e direta; a qualidade muitas vezes se forma doutras coisas.

Talvez às vezes um lance bonito valha menos que retrucar uma porrada, dando no adversário um pisão fora da vista do juiz, dentro de um torneio em que força e o sangue nos olhos ditam o vencedor. Existe uma velha máxima que parte da imprensa impõe, e que muitos compraram com o passar do tempo, de que o jogador habilidoso está acima da fibra – mas acreditar-se acima da fibra é desde o início um erro crasso. Oras, a vibração, a catimba, a malícia, tudo isso é essencial para que se jogue e se compreenda a Libertadores.

Por isso acompanhamos tantos times inferiores indo longe, realçado pelo fato de que muitas vezes os times grandes enxergam nos menores apenas a existência dessa tal catimba – e da experiência –, os cegando para o fato de que os jogadores do outros lado não são necessariamente ruins. Na verdade, em diversas ocasiões são caras até muito bons.

É por isso que só há uma forma dos grandes times de Libertadores se sobressaírem, em todos os países do continente: levando a Libertadores a sério. Sabendo lidar com as diferenças e com as pedras na mão do adversário – que, pelo que dizem jogadores doutro tempo, eram literais. A garra caminha junto com a brutalidade e é preciso ser gigante pra ter a capacidade de lidar diretamente com isso. Só com essa capacidade é possível impor a sua qualidade maior com a bola.

É preciso também sempre lembrar que o Once Caldas, aquele time ruim, retranqueiro, sem qualquer talento além da aplicação, eliminou grandes times em 2004. E muitos daqueles indiscutivelmente sabiam jogar o torneio. Basta dizer que o Boca, na época com Tevez e Barros Schelotto, não conseguiu superar a máquina do zero a zero. Muitos dizem que é uma lástima um time desse estilo ser campeão – mas na Libertadores, faz todo o sentido. E torcer o nariz é quase como torcer o nariz para as imensas variáveis do futebol.

É preciso tomar cuidado pra não levar essa conversa a algo como “a Libertadores sempre premia o time ruim que tem raça e alguma regularidade”. Porque não é apenas por não terem grandes destaques individuais que esses time são ruins – para ser bem franco, eles nunca são – e a maioria dos vencedores não se chama Once Caldas. A questão é que para chegar lá na final, para vencer, é preciso criar essa compreensão – aprender bem o que é o torneio, o que é levá-lo a sério, o que é respeitar o seu ambiente. Os papéis jogados no campo, a torcida hostil.

Há sempre a possibilidade, lamentável, do time ser triturado se vencer, com seus vestiários trancados, e a torcida ou mesmo o time adversário partindo pra porrada. Isso é Libertadores, pro bem e pro mal.

Como comparação, podemos levar essa discussão para outro continente. Ou seja, pra Champions. Pois se na Champions não existe essa virilidade insana da Libertadores, também não é um torneio que qualquer time, cabaço, chega e domina. É um campeonato duro, onde se viaja pra jogar em campos desconhecidos e onde se enfrenta times de escolas variadas.

É exatamente por impor sempre seu estilo, não importa qual seja a escola e o comportamento tático do oponente, que o Barcelona tem mostrado ser diferente dos outros, e assim sua soberania raramente pode ser abalada nos últimos anos. Seja pelo Shakhtar, seja o United. O próprio time inglês, por exemplo, um gigante do futebol, deixou de se classificar em duas das últimas cinco temporadas, mesmo tendo sido finalista em outras duas. Sua qualidade é evidente, e trata-se de um time imenso, mas que nem sempre respeita o torneio como deveria.

A Champions é por isso sempre a oportunidade do brilho para o desconhecido. Certamente um torneio que fora mais charmoso em outros tempos, em que se chamava apenas Copa dos Campeões, e somente os vencedores de seus respectivos nacionais participavam. Ali tínhamos jogos mais aguerridos, mais inesperados. Os adversários variavam, e os craques também não se concentravam tanto nos mesmos times (por outro motivo, na verdade – apenas três estrangeiros, mesmo europeus, podiam jogar nos times).

Dali que surgiram mitos como o AJAX, o Olimpique de Marselha, a Estrela Vermelha, tantos times que foram fortes em muitos momentos, peitando todos os outros grandes. O próprio Barcelona, o gigante atual, só foi ganhar uma Copa em 1992, depois de tantos craques, como Cruyff, jogarem por lá.

Com o aumento das equipes de ligas fortes, o torneio se engrandeceu, mas afastou com mais veemência times mais fracos. Ainda vemos uma surpresa aqui e ali, mas o brilho de sempre assistirmos a um duelo sangrento nos campos mais hostis diminuiu de probabilidade. Ganhamos, no entanto, duelos de maior nível técnico e tradição, envolvendo times como Barcelona e Milan, como o que acompanhamos nas quartas de final dessa edição.

A emocionante saga do APOEL nessa temporada, assim como a do Shakhtar na temporada passada, era mais comum e certamente mais impactante, pois esses times tinham real chance de serem campeões. Hoje, é verdade, eles ainda são duros, determinados, preparados pra surpreender quem não entra concentrado. Mas antes eram times verdadeiramente fortes. Mesmo porque os grandes jogadores ucranianos dificilmente não estariam na Ucrânia, assim como os holandeses, checos, sérvios, e assim vai, cada um em seu país de origem, é claro.

O APOEL e o Shakhtar são um novo tipo de time emergente, e, embora um desses times seja muito rico e o outro não, eles formam seus elencos de métodos parecidos. Recheando-se de jogadores brasileiros, de escalões que nem sempre aspiram aos times grandes da Europa. Na antiga Champions, o APOEL, campeão cipriota, teria vaga garantida. E o Chelsea, vice inglês, não jogaria.

Mesmo assim, é inegável que o torneio continental mantém esse fator, o do desconhecido, do campo distante, que foge ao controle de qualquer adversário. E tem as torcidas, todas diferentes entre si. São muitos os relatos de reações chocantes a outros tipos de torcida, especialmente a dos times ingleses, acostumados a uma grande plateia de teatro. Jogar contra 70, 80 mil torcedores enlouquecidos no San Siro, por exemplo, não é fácil. O Chelsea, após ter conhecida a torcida do Napoli, uma das mais loucas da Europa, que o diga.

O sentimento, o lado mais particular dos torneio internacionais, é diferente em cada lugar, mas é sempre um fator essencial. Talvez a organização hoje seja outra. Pode-se dizer que não se taca mais pedra nos jogadores, que a TV é mais precisa e que por isso se diminuiu o nível de fanfarra em certos países, que se fechavam contra os times de fora. Mas, na Libertadores, ainda há situações desagradáveis, que o digam times que saíram apedrejados e caçados de campos, e não é mérito de clubes de somente um país sofrer, e nem de um lugar apenas apedrejar.

Muito se cobra da Conmebol que melhore a segurança dos times, e de fato houve uma pequena melhora em relação aos exageros proibitivos que ocorrem nesse tipo de evento; ainda que os mesmos continuem acontecendo regularmente, não passando mais de uma temporada sem algo do tipo. De fato, a violência real extrapola o interesse e o lado aguerrido do torneio – não há nada de valoroso em trancar seus vestiários e transformar o campo numa guerra de onde não se pode correr. Infelizmente, até a imprensa já foi vista envolvida nesse tipo de evento.

Mas é necessário saber, sempre, desde o início: isso mal ou bem faz parte do torneio, e estar pronto pra esses momentos é estar preparado para jogar no campo dos adversários. Não há jeito. Na Libertadores, acima de tudo, o bruto anda junto com a qualidade.

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