O Dia de São Árbitro, padroeiro dos chatos

Lionel Messi cobra o primeiro pênalti contra o Milan. O pênalti "que valeu". Mas o que realmente "valeu"?

O impulso original era escrever sobre os últimos acontecimentos que tornaram ainda mais emocionantes as expectativas pelas últimas rodadas nos principais campeonatos nacionais europeus, em especial o empate de 4 a 4 entre Borussia Dortmund e Stuttgart, por si só um jogaço, que aproximou o Bayern de Munique ainda mais da disputa pelo título da Bundesliga. Mas diante de tamanha comoção com as decisões da arbitragem no jogo desta terça-feira entre Barcelona e Milan, soaria quase alienado escrever sobre outra coisa. Eis aqui, portanto, o colunista que faz conscientemente a escolha ruim: entre falar efetivamente de algo palpável e desfazer os castelos de vento erigidos por outros, motivados por paixões louváveis mas disparatadas, que no entanto conseguem tirar um ou outro (e aqui me confesso entre eles) do sério. Quer dizer, nem tanto. Há espaço para tudo.

A primeira coisa a ser dita sobre Barcelona e Milan é: A HISTÓRIA DO JOGO NÃO É A HISTÓRIA DAS DECISÕES DE ARBITRAGEM DO JOGO. A história do jogo é a de um clube que foi fartamente superior durante o jogo inteiro, 21 finalizações contra 8, sendo destas 8 certeiras contra apenas 1 (uma, one, une, eine, una, ichi) do rival. Ambos os times jogaram com o placar a seu favor quando foi o caso: o Milan começou fechado e voltou a fechar-se quando recuperou o placar de empate que o faria passar à fase seguinte, e o Barcelona cozinhou o jogo em banho maria depois do momento que conseguiu um placar que lhe dava mais tranquilidade, ou seja, a partir do 3 a 1. Pode-se mesmo dizer que mesmo depois do 2 a 1 o Barcelona jogava sem tensão, o que plausivelmente não ocorreria se o placar fosse de empate. Tudo isso é verdade. Não obstante, em nenhum momento do jogo o time catalão deixou de ser superior. E não foi apenas uma superioridade de volume de jogo não-objetivo: armaram-se belíssimas jogadas que por ocasião de um passe enviesado ou uma finalização mal angulada não se transformaram em gols belíssimos, como uma bola de Fabregas para Messi no começo do jogo ou uma bola recebida por Thiago Alcântara que foi passou a centímetros da trave de Abbiati.

OK, pode-se dizer que nem sempre o melhor vence, e a bola na rede é a que conta. E a bola na rede legítima. Independente do volume de jogo ou das jogadas lindas. E é verdade. Mas o que acontece é o seguinte: existe um time chamado Barcelona que pratica há quatro anos o melhor futebol do mundo, disparado. Mas não é só porque ele é o melhor que toda vez ele tem que dar show e passear sobre o adversário independente das situações de jogo, como, no caso em questão, um pênalti duvidoso marcado a seu favor. Jogar com o resultado debaixo do braço é algo criminoso quando se é o melhor do mundo? OK… Já foi dito aqui, e em todos os outros lugares, porque é uma evidência, que o Barcelona foi com sobras o time que melhor jogou no duelo do Camp Nou. Houve dois pênaltis a seu favor no primeiro tempo, um indiscutível e outro discutível. Na verdade, as infrações em ambos os lances foram claras, só que numa delas a infração é geralmente relevada (a saber, segurar camisa ou segurar jogador na grande área em lance de bola parada). Ambas as marcações vieram em momentos oportunos para o Barcelona: a primeira depois de um começo de jogo truncado e incerto, na sequência de um erro grotesco de saída de bola do Milan, e o segundo depois que o time italiano acabara de empatar a partida num belo lance de Robinho em que Ibrahimovic passou perfeitamente para Nocerino fuzilar o gol de Valdés. É verdade: foram momentos oportunos. Mas qualquer alegação que vá além disso parece apenas uma fútil torcida contra.

Porque o que conta está numa sutil diferença. O BARCELONA FOI FAVORECIDO PELA ARBITRAGEM. Parece uma frase incontestável: foi dado um pênalti num lance corriqueiro, geralmente relevado pela grande maioria dos árbitros na grande maioria dos lances de bola parada com movimentação frenética em grande área. Mas é um exercício de frustração infantil transformar essa frase em O BARCELONA SÓ PASSOU DO MILAN PORQUE FOI FAVORECIDO PELA ARBITRAGEM. Não cabe nem notar que foram dois os gols de diferença (a réplica “mas com 1 a 1 o jogo teria outro tipo de tensão” seria justa); a questão é que o próprio Barcelona teria sido mais incisivo caso precisasse do resultado, e podemos não saber o que aconteceria, mas nós sabemos pelo histórico recente o que costuma acontecer.

Em todo caso, não consigo admitir que um amante de futebol preferiria ver na semifinal da Champions um time que tem na meia Ambrosini, Seedorf e Nocerino em detrimento de um que tem Busquets, Xavi e Iniesta. A não ser, claro, que seja torcedor do Milan.

Colocando de lado as picuinhas, que obviamente não fizeram jus à grandeza do espetáculo, Barcelona e Milan foi um belo jogo, com um Barcelona rico em opções táticas (em especial no posicionamento de Daniel Alves, que foi um monstro) e um Milan defensivamente muito aplicado e, até determinado momento no jogo, perigoso nos contra-ataques. Só não foi um jogo histórico porque faltou AQUELE golaço que calaria a boca dos detratores, como aliás geralmente acontece. Mas só verá essa classificação como uma passagem maculada adiante aquele que desde o começo já estava de má vontade.

* * *

No fim de semana, o grande motivo de alegria foi a vitória do Bayern de Munique sobre o Nuremberg. Por um momento, o Bayern parecia que tinha voltado para o padrão pré-março do time que toca bem a bola e faz lances perigosos, mas não consegue chegar em situações claras de gol com tanta facilidade assim, graças  uma mobilidade previsível de seus jogadores. Até meados do segundo tempo, o time que fizera vinte gols em três jogos não conseguia achar nenhum, até um poderoso chute de RIbéry dar rebote e ser aproveitado com um arremate ainda mais fulminante de Robben, tornando a distância entre os times de Dortmund e de Munique absolutamente factível de ser tirada, seja na disputa com outros clubes, seja no mui esperado embate de 11 de abril, numa rodada de meio de semana. A razão da aproximação foi um tropeço do Borussia num dos finais de partida mais emocionantes dos últimos anos, com um empate em 4 a 4, com direito a dupla virada e seis gols efetuados depois dos 25 minutos do segundo tempo. Pra coisas desse tipo, não tem descrição possível, só chamar a atenção: é emoção em estado puro. Como uma arrancada de Messi ou uma tabelinha dos jogadores que vestem azul-grená: vibrantes, sensacionais, imunes ao chororô cansativo de quem tem prazer em ver o pior reinar, só de pirraça.

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8 respostas em “O Dia de São Árbitro, padroeiro dos chatos

  1. Grande análise! É assim que se faz, sem patriotismos idiotas.
    Nao há nenhuma equipa no mundo que algum dia nao foi prejudicado ou benefeciado pela arbitragem.
    Todos invejosos falam do Barcelona porque sendo o melhor time do mundo se tornou o inimigo numero 1.

  2. O Ibrahi diz que entende o Mourinho quando vai a Camp Nou, que absurdo, que hipocrisia,
    ele nao sabe que o Barcelona varias vezes foi vencer em Santiago Bernabeu categoricamente e que ha muito tempo o Real nao consegue impor-se ao Barça, lembra dos 6-2 em bernabeu? Do 5-0 em Camp Nou? Dos 3-1 em Bernabeu?

  3. Ruy, eu concordo muito sobre a partr da arbtiragem, acho apenas que isso desfocou o jogo, não apenas na discussões. Mas achei o jogo inferior ao que poderia, um tanto sob controle demais. Mas me parece óbvio que o Barcelona jogou o que precisava, dominou o jogo.

    Pediria a este nosso companheiro, que parece ser português, que assine as mensagens da próxima vez. Nunca iria censurar, mas é o cúmulo da babaquice assinar “Verdade” como seu nome. Sobre as mensagens, a única que não me soa um tanto estúpida, é a última, pq de fato todos temem enfrentar o Barcelona, e tem motivos pra temer.

    • Estupidez é ver um jogador como Ibrahi a lamber as botas de Mourinho.
      Estupidez é vocé nao aceitar minha liberdade de opçao no world wide web,
      e tu? Quem prova quem tu és de facto???
      Estupidez é a tua arrogancia mesquinha de achar que és Inteligente.

      • Vamos pegar leve na discussão porque grosseria de ambas as partes fica contraproducente.

        O Real Madrid não pode ser responsabilizado pela tabela que recebeu. E por mais que Mourinho justifique toda antipatia do mundo, o time da temporada 2011-2012 é brilhante, e vem mostrando isso com fartura de exemplos. Se há um time que pode parar o Barcelona, é esse.

        Esse discurso de mau perdedor é que pega muito mal, e justifica as reações exaltadas de nosso colega Verdade.

      • Relaxa, disse que as mensagens eram estúpidas pq vc fala sobre patriotada, inveja, hipocrisia do Ibra… Não sei a quem você se refere sobre a patriotada, como não somos portugueses, naturalmente não defendemos Mourinho (ou qualquer brasileiro, aliás) por sermos de quaisquer nacionalidades. A mensagem sobre o Ibra não faz muito sentido, o Ibra falou aquilo pra tumultuar e mesmo que fossemos leva-lo a sério o assunto seria o Camp Nou e os árbitros ajudarem e não o Real sempre tomar do Barcelona. Se eu não respeitasse o tua liberdade suas mensagens não teriam sido publicadas, apenas fiz uma objeção, pq teu nome escolhido tira um pouco da seriedade das tuas mensagens. Eu não concordo sobre o Real Madrid, mas como disse, concordo sobre o Barcelona, que é o melhor time e bota medo mesmo.

  4. Triste é ver o Real Madrid nesta fase enfrentar uma equipa sem capacidades nenhumas de competir nesta fase da Champions, O apoel é uma comédia que nem acredita no milagre que lhe aconteceu.
    2 anos seguidos da champions, O Real nao enfrentou nenhuma grande equipa nas fases de grupo até os quartos, sempre apanha essas equipas que sao esforçadinhas mas sem grandes jogadores, principalmente na finalizaçao.
    Veja-se o Csk Moscow, podia até ganhar a eliminatoria, mas no ataque tem apenas jogadores trapalhoes.

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