O dia em que a Premier League foi decidida

Vista de cima do gol de Arteta, do Arsenal, contra o Manchester City. Em meio a um hexágono de azuis, o jogador do Arsenal comemora.

Meu primeiro texto aqui no blog mencionava uma passagem de cetro no futebol inglês que parecia inevitável: o Manchester City era líder da Premier League com folgas e, talvez até mais do que isso, tinha dado um passo simbólico muito significativo ao humilhar seu grande rival regional, o Manchester United, com uma goleada constrangedora, ainda mais por ser na própria casa do grande clube inglês dos últimos vinte anos. O texto era sobre um jogo de liga em que o United eliminou o City e, presumia-se então, ao fazê-lo, teria atrasado um pouco a troca de mãos que empunhariam o cetro de Rei do futebol inglês. Mas uma sequência surpreendente de resultados adversos foi fazendo com que o City despencasse aos poucos de sua posição na tabela, visse o United tirar ponto a ponto a diferençaque os separava e, quando menos esperávamos, os red devils não só ultrapassaram seus rivais de cidade como estabeleceram uma sonora diferença de pontos que não podia mais ser resolvida apenas pelos confrontos diretos. Mas, ei, eram apenas cinco pontos, e uma vitória em confronto direto, aliada a um tropeço simples e concebível, um mero empate do líder, fariam com que o City voltasse ao mesmo número de pontos, tornando novamente acirrada e combativa a luta pelo primeiro posto naquele que é o principal campeonato nacional do mundo. Só que o Manchester City tinha o Arsenal pelo caminho. E precisava jogar como postulante ao título para superar a boa fase do time londrino. Não aconteceu.

As estatísticas são impiedosas para os azuis de Manchester: seis finalizações ao total, sendo que nenhuma finalização correta. Ou seja, forçando um pouco a barra, se Szczesny fosse uma projeção holográfica, o City não teria descoberto isso no tempo real (forçando mesmo: ao fim do jogo, Szczesny evitou um contra-ataque perigoso espanando a bola na intermediária, num misto de excelente posicionamento e muita velocidade). Mas as estatísticas não contam toda a história. Não contam, por exemplo, que o melhor zagueiro do Manchester City no primeiro tempo foi Vermaelen, defensor gunner que sem querer impediu um arremate certeiro de seu colega Van Persie de alcançar as redes. Desde cedo na partida o gol do Arsenal vinha se cristalizando, com uma franca superioridade do clube londrino na posse de bola (65% contra 35%) e um jogo conduzido sem pressa, mas com objetividade (ou seja, era mais Barcelona que Real Madrid). Em outro belo momento, um excelente cruzamento diagonal de Song encontrou Van Persie em condições de passar por Joe Hart e finalizar, mas alguns centímetros deixavam o atacante holandês fora de jogo. Vale lembrar que DURANTE TODO ESSE TEMPO o empate já era inteiramente desfavorável para o Manchester City, que via seu contendor pelo título vencer o Queens Park Rangers por 2 a 0 (com direito a pataquada da arbitragem a favor do United, dando pênalti e expulsando o autor da suposta infração, fazendo o QPR ficar com dez em campo pelos 74min regulamentares restantes).

O Gol do Arsenal veio num momento em que nem era mais tão esperado. O jogo tinha se assentado, e apesar do empate não ser exatamente confortável para nenhum dos dois times, o Manchester City parecia absolutamente apático e o Arsenal, ainda que pressionasse, não chegava a ter chances claras de gol como a do gol “rebatido” por Vermaelen no primeiro tempo. Touré, machucado, tinha dado lugar a Pizarro, e como os grandes motivadores de outrora não estavam em campo (David Silva, Micah Richards), o City esperava que algo milagrosamente viesse dos pés de Milner, Nasri ou Aguero (e posteriormente de Tevez, que entrou aos 39 do segundo tempo). Não veio. Acabou vindo de Arteta, do outro lado. Esse jogador tático — limitado porém eficiente — que esquenta a posição de Jack Wilshere acertou um tiro muito forte de uns três metros antes da grande área e aos 42 do segundo tempo deu ao Arsenal a vitória que deixa os gunners com uma ligeira vantagem na luta pelo terceiro lugar da Premier League (o último lugar que dá acesso direto à Champions League, ou seja, sem passar pelo mata-mata preliminar, o equivalente do que chamam por aqui de pré-Libertadores). O gol não surgiu como um instante fortuito. Sua aparência foi simplesmente a de uma última machadada antes da árvore finalmente cair: vários golpes já haviam sido dados, a queda já era esperada, só faltava o toque de misericórdia. Em uma questão de dez rodadas, o potencial bicho papão da Premier League, os novos portavozes do novorriquissmo no futebol tomaram o golpe que faltava em suas pretensões imediatas de títulos significativos. Depis de uma eliminação inesperada na fase de grupos da Champions League, dos insucessos nas duas ligas nacionais e, agora, da distância de oito pontos que parece “intirável” diante das poucas rodadas e dos relativamente inofensivos adversários do Manchester United, não resta fazer muita coisa a não ser rezar. Não aos deuses do futebol, porque esses aí parecem estar se divertindo com essa irônica história de ascensão e queda dentro de uma mesma competição.

Quer dizer, resta sim outra coisa a fazer. Resta pensar por que o time decidiu contratar dois atacantes temperamentais e imaturos, flertando perigosamente com a burrice e a insanidade, como é o caso de Tevez e Balotelli. Tevez foi protagonista de uma novela terrível para sua reputação e para seu futebol, tirando-o de campo por quase uma temporada inteira. Menos culpa do City nessa aí: por mais sobressaltos que o argentino já tivesse dado, a birrinha e a falta de profissionalismo de Tevez não tinham, ao menos que eu saiba, sido elementos de sua rotina pregressa. Não como elementos crônicos. O mesmo já não pode ser dito de Balotelli, que quando na Internazionale de Milão era visto cantando alegremente, enchendo os pulmões, o hino do Milan. Além do excesso de grandeza de arrogar-se um dos maiores do mundo sem ter sequer dado uma prova em termos de títulos ou mesmo de titularidade permanente, Balotelli tem frequentes lampejos de estupidez, entrando acintosamente em divididas — no jogo de domingo solou a canela de Song e teria sido justamente mandado para o chuveiro no primeiro tempo caso o juiz tivesse visto o lance com clareza — e colecionando amarelos e vermelhos por decisões e atitudes aquém da bola jogada (agressões, reclamações etc.). É óbvio que nada disso explica por que David Silva vem sumindo em campo, por que Milner e Adam Johnson não têm mais chance na posição de Nasri ou por que Savic foi escalado como zagueiro mesmo com consecutivas falhas absurdas. Mas aí é bom perguntar para Roberto Mancini e para o honorável sultão Mansour bin Zayed al Nahyan. Tem coisas, afinal, que um mero colunista não tem subsídios para responder.

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