O sprint final

Chegamos ao período de decisões nos campeonatos europeus. A Bundesliga teve seu desenlace na última quarta, com a vitória do Borussia sobre o Bayern, praticamente coroando o campeão faltando cinco rodadas. Na Itália, o duelo está cada vez mais intenso; apenas um ponto coloca hoje a Juventus na frente, e o atual dono da Itália, o poderoso Milan de Ibrahimovic, segue colado em segundo. O fato de não haver mais confrontos torna todos os jogos ainda mais decisivos, uma vez que qualquer tropeço pode decidir o campeonato.

Na Espanha, o Real Madrid viu pulverizar-se sua enorme liderança, já que enfim começou a tropeçar no campeonato, mas a vantagem de quatro pontos ainda é boa; principalmente se considerarmos que o Barcelona dificilmente ganhará todos os jogos restantes, uma vez que isso significaria vencer quase um turno inteiro sem sequer empatar. Só que, ao contrário da Itália, ainda há o duelo entre os dois times, e nesse caso ele deve ser determinante, não apenas na disputa prática pelo título, mas na moral dos times e na consciência dos torcedores – só vencendo o confronto direto, o Real Madrid espantará os urubus que sempre encontram deméritos em sua provável conquista.

Chegamos então na Inglaterra, terra da Premier League e sua competitividade infinita. Se por um lado assistimos a uma briga divertidíssima pelas vagas na Champions, com o crescimento do Arsenal e do Newcastle e a queda do Tottenham, curiosamente justo depois de tomar uma goleada diante de seu rival londrino, por outro, na briga de cima, pela glória maior, aquilo que durante o campeonato parecia tão imprevisível está agora previsto. O United, mesmo tendo tropeçado na última rodada e visto o City se aproximar, encontra-se na frente e parece demonstrar um tipo de sobriedade e equilíbrio que falta de um modo geral a vários times ingleses – incluindo seu rival de Manchester.

É esse sprint final, aquele instante nas competições em que os times e competidores dão um último esforço, que derruba certos times e demonstra que não são todos os aptos a serem campeões. Basta retornarmos um pouco no tempo e lembrarmos do Arsenal de Fàbregas, Adebayor e Van Persie, que perdeu apenas três jogos no campeonato mas acabou chegando as últimas rodadas praticamente fora da briga pelo título, pois deixou de vencer diversos jogos decisivos e permitiu ao United tomar a ponta e abrir. A inexperiência foi culpada como a bola da vez – e de fato tratava-se de um time novo. Mas será que era apenas isso, uma simples questão de maturidade, ou será que se tratava de algo mais, aquela confiança necessária que vai muito além dos resultados pregressos, e que mesmo times jovens também podem ter?

Algo que está na fisionomia dos jogadores, nas preleções dos técnicos, na camisa, na tradição, e acima de todos esses fatores. O United de hoje, por exemplo, é o time vencedor por excelência – não se abate com suas quedas, introduz jovens, talvez até jovens demais, mas sem mudar seu padrão ou qualidade tática, e por isso nunca parece ruir.

Não creio que falte experiência ao Tottenham, por exemplo, e a queda do time nos momentos finais do campeonato é inegável. Já era esperado que o time não tivesse fôlego pra brigar pelo título, mas ele andou tropeçando tanto contra times medianos que, mesmo ainda ocupando o quarto lugar, já parece ter saído da zona de classificação da Champions.

Mesmo considerando que Harry Redknapp, o manager do Tottenham, é um cara rodado, que conhece como funciona a motivação dos jogadores, o desequilíbrio emocional do time após o resultado ruim contra o Arsenal é evidente. Para piorar, a equipe, cujo sucesso se devia muito a um certo dinamismo e à velocidade nas saídas com qualidade de passe, parece estar exausta, e sofre com a queda no vigor físico de seus jogadores. Pouco tem se visto dessa velocidade de outrora, o que fez Redknapp até cogitar mudanças nas formações que leva a campo. No sprint final, faltou energia.

Mas sem qualquer dúvida, a queda mais forte foi a do City. Não é preciso ir longe. O City hoje é o time cru por excelência, cheio de contratações que mais parecem formar uma coleção de recortes doutros times de temporadas passadas. Fica claro nessa reta final que Mancini teve muitas dificuldades de imprimir ao time suas formações preferidas. Seu maior sucesso foi o de mudar o posicionamento de Yaya Touré, que lá se tornou um jogador decisivo indo mais ao ataque. Mas, fora isso, o que vimos foi um festival de mudanças repentinas e aleatórias, tanto no setor defensivo, que por vezes sim por vezes não assumia mais de dois zagueiros, quanto no ofensivo, com a tola insistência em jogar com um atacante indo até o meio.

O time usa menos as pontas do que devia, não auxiliando seus bons meias centrais, que passam a ter que criar espaço por si mesmos, e aposta seguidamente em Nasri, um bom jogador, mas que está longe da qualidade apresentada na temporada passada pelo Arsenal. Além disso, Mancini faz substituições por vezes bisonhas. Quantas vezes vimos o time precisar de um resultado, e o treinador simplesmente colocar De Jong no lugar de David Silva?!

Mas, se os erros de Mancini explicam parte dos problemas do City, não conseguem explicar por que o time funcionou perfeitamente no começo e durante grande parte da temporada, e deixou de jogar bem logo nesse período em que os campeões se decidem. Por que, afinal, tanta falta de criatividade num time que goza de um setor ofensivo recheado de jogadores bons? Como por exemplo o Sunderland, um time interessante mas limitado, conseguiu dominar um jogo durante quase toda a duração, e justamente quando o City mais precisava do resultado?

E tem algo que torna tudo isso ainda mais esquisito. Certos momentos, o City parece acordar, do nada, jogar e virar partidas difíceis, como se estivesse conscientemente adormecido – mas sem nenhum motivo para isso! Contra o Chelsea, por exemplo, o time parecia começar sua derrocada quando subitamente virou o jogo e mostrou uma fibra absurda. Contra o Sporting, acabou ficando pelo caminho, mas virou um jogo que perdia por dois a zero, com uma reação de time grande, sério, duro de ser vencido. Por que isso ocorre algumas vezes, mas o time segue entrando em campo modorrento? Seria simplório demais decidir que a culpa é de Mancini, que não seria algum tipo de motivador, o problema parece estar mais próximo de uma certo consciência do time, que entra em campo sem a união e a seriedade até que o desafio os acorde.

E isso tudo culmina nas seguidas evidências de falta de comando: jogadores que são afastados a toda hora, como Balotelli e Tévez, criando novelas longas e que não ajudam o time, sem falar nos lances bizarros de jogadores trocando empurrões para baterem uma falta. Um time no rumo do coletivo faria desses momentos um sinal de que todos querem ganhar a qualquer custo – no City, só faz parecer que todos, individualmente, querem ser o salvador. O problema é que o time não parece que terminará sendo, de fato, salvo.

Em todo caso, há ainda o confronto direto. Uma vitória gloriosa do City leva o time para apenas dois pontos de diferença em relação ao United. Se ainda assim não será fácil tirar, pelo menos parece algo possível. A grande diferença é que, até a última partida, o United demonstrava uma justa soberania. E o que diferencia o time dos City e Tottenham é essa capacidade de não se abalar com o tropeço, num momento em que não se pode ceder à pressão. Faltam poucas rodadas, e vejamos se o time irá mostrar, mais uma vez, a excelência.

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