A tensão de três minutos

Comemoração, após um título que não queria ser.

Todos sabem do script maluco que se deu na decisão do Campeonato Inglês. Em jogos paralelos, empatados em pontos, City e United, as forças da industrial Manchester, lutavam por vitórias que lhe dariam o título. Por méritos próprios, conquistados com vitórias expressivas contra o United, o City tinha vantagem no empate. O United saiu para enfrentar o bom Sunderland, time que já foi outrora comentado em texto. O City recebia o desesperado Queens Park Rangers, que fugia do rebaixamento apesar de ter investido um bom dinheiro em jogadores nesta temporada. A vantagem era evidente, então, para o City. O time tinha apenas que vencer, em casa, um time mais fraco.

Pois foi o United que, se não passeou, teve o jogo desde o início bem sob controle. Rooney, em grande temporada, aparecia, como sempre, como o homem decisivo, fazendo o 1 a 0 e dando a vitória ao time ainda no primeiro tempo. O Sunderland, bravo, também não desistia e fazia sua parte, mesmo que não tivesse nada a ganhar na temporada.

Na fria Manchester, o City também fez 1-0. Passe dele: o mortal, o surpreendente, o grande Yaya Touré. Autor dos gols decisivos nos derbys que levaram o City a ter esta importante vantagem, alternando posições entre volante e meia, Touré foi o homem de confiança do City na temporada. O gol veio de Zabaleta, com ajuda do goleiro do QPR. Dos dois lados, tudo encaminhado, já no primeiro tempo.

No nordeste da Inglaterra, o United voltou para o segundo tempo sabendo que, com aqueles resultados, o titulo não vinha. Mas queria gols, garantir a sua honra. Como o time cascudo de sempre, jogou sério. O Sunderland, por sua vez, não foi nem um pouco menos corajoso, e também saiu pra cima do United. Na hora H, afinal, todos querem garantir o seu pedaço na história.

Foi então que Lescott, o bom zagueiro do City, cometeu o primeiro erro grave de sua temporada. Espirrou para trás de cabeça a bola, colocando Cissé, aquele mesmo, na cara de Hart. Havia aí um empate, e o título mudava subitamente de mãos.

Festa do United. Animado, o time continuava de forma aberta, em busca de mais gols que lhe garantissem de vez uma vitória incontestável. Não poderiam sequer aceitar a ideia de perder o título porque, por culpa própria, empataram com o Sunderland. E, como sabemos, não foi por causa disso que perderam mesmo.

No City of Manchester, o City se complicava ainda mais. Mesmo com a expulsão de Joey Barton, o trombadinha da Premier League que todos curtem, o QPR voltou a conseguir algo absolutamente improvável. Sem acreditar no que estava acontecendo, a defesa desmontada, aberta, assustada do City, aceitou uma virada surreal.

O United tampouco conseguia acreditar. A torcida chorava. Um milagre lhes permitia, com sobras, acreditar realmente que o título enfim não seria dos rivais. Naquele momento, tudo que os torcedores orgulhosos não queriam era admitir que o City, novamente, mostrava-se tão grande quanto eles.

O City, por sua vez, não via alternativas, parecia pronto para jogar a toalha. Seu arsenal de ataque foi posto no jogo, mas não fazia gols. Yaya, o grande, havia se machucado. Não estava lá para salvar o dia. Choravam, agora de dor, dirigentes, jogadores, torcedores.

Para piorar, o United confirmava de vez a vitória. Naquele momento, torcedores comemoravam o título, que apenas um milagre desses raramente, muito raramente vistos, tiraria. Mas, como todos sabem, o milagre aconteceu.

Há quem diga que, no final do jogo do United, torcedores deixaram o City of Manchester, mas teimo em acreditar. Até porque, no instante do apito do jogo no norte, Edin Dzeko empatou o jogo no nordeste. Depois de uma série de cruzamentos, lances muitos perigosos, jogadas improváveis do QPR. Mas Dzeko foi decisivo, mudou a história. Cabeceou como sempre cabeceava, e brilhou como nunca havia brilhado. Começavam os minutos de tensão.

Aqueles torcedores que até então choravam, arrancavam os cabelos, pensavam em deixar o estádio, passaram a crer em alguma chance. Clichy tomou vaias porque demorou a se levantar depois de levar uma rasteira. Os nervos haviam saído do crânio há muito tempo. O empate saíra aos 91. E aos 93, no desespero, a bola chegou aos pés de Mario Balotelli.

Balotelli, o talentoso, polêmico e indisciplinado jogador, até então barrado, provavelmente em campo apenas porque um título é maior que qualquer diferença interna, conduziu, dividiu, escorregou e, mesmo caído, fez um passe. Aguero, provavelmente o melhor jogador da temporada do time, o mais regular dos grandes jogadores, recebeu e cortou um zagueiro. Mas, no ponto em que todos pensaram que chutaria, foi calçado de leve por outro, que tentava pará-lo do jeito que dava.

Só que, novamente como todos sabem, não havia jeito de pará-lo. Aguero se equilibrou, deu mais um corte, e… PAU.

A tensão estufava as redes. City 3-2 no QPR. Aos 94. Uma virada conquistada enquanto os jogadores do United, tranquilos, esperavam a comemoração. Uma virada celebrada por todos, jogadores que entraram e saíram do elenco, como Balotelli e o marrento Tevez, jogadores históricos do time, como Micah Richards, hoje reserva na lateral-direita. Todos. Os torcedores, depois de quase quarenta anos, invadiram o campo com todo o fervor. Como numa festa que só eles poderiam fazer, e só a eles cabia comemorar.

* * *

Invadem os campos do Reading e do City, os campeões da Championship e da Premier League.

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