Poema de um coração rubro

por Marques Rebelo

O coração aguentou firme como se tivesse vinte anos, como se fosse o coração daqueles capetas que sassaricaram noventa minutos sem esmorecer um segundo, sem pensar um segundo que poderiam sair derrotados. Também fui correto e cientifico como ele, que os tempos podem não ser muito corretos, são até bastante incorretos e perturbadores, mas são capacitadamente científicos. Assim, meti-o numa concentração prudente e preparatória, paralela da casinha da Rua Gonçalves Crespo, mas em que o Jorge Vieira fosse eu próprio. Enchi-o de tônicos, de antiespasmódicos e de tranquilizadores da mais comprovada ação e do mais astronômico preço, forcei um regime sonoterápico do gênero familiar, entreguei-me a leituras rigorosamente escolhidas, para não me irritar, ainda para não me irritar não tomei conhecimento da intrincada e malcheirosa política guanabarina, subi com o pensamento a alturas altruísticas, me guardando de só falar mal dos colegas depois do dia 18, apenas não fui ver outra vez o “Xique-Xique no Pixoxó”, que é provada receita para relaxar os nervos, e estou abraçando aqui o compadre Oscarito, que, cumprindo uma obrigação profissional, não foi ao Maracanã e, ao ter no palco a notícia do triunfo, cortou as falas de comicidade com as incontidas lágrimas de júbilo, lágrimas que a plateia, imediatamente contagiada, recebeu com palmas e de pé.

O coração aguentou firme. Aguentou a crescente e angustiante expectativa semanal, com boatos de tornozelos inchados, distensões musculares e ameaças de alarmantes desfalques, aguentou a opinião nem sempre muito entendível dos entendidos do esporte, com muita alusão a complexos e inibições, esquecidos da grandeza das tradições, aguentou na noite de sábado a obrigação de uma crônica premeditadamente antecipada para o meu colunismo levemente intermitente, que finalizava com a afirmação de que o América é pequeno ante os pequenos e imenso ante os poderosos. Aguentou a cruel incerteza atmosférica, porquanto num gramado pesado não seria fácil ficarem em pé aqueles lutadores de salário mínimo, que vão ser agora muito cobiçados. Aguentou a entrada em campo dos queridos diabos rubros, como um grupo jovial de ballet, e o foguetório louco com que foram recebidos por cem mil almas aflitas, e os roucos microfones a avermelharem os ares com o hino do Lamartine Babo, e as charangas a entoarem o “Deus Salve o América”. Aguentou a tristeza do minuto de silêncio pela alma de Antônio Avelar com os rapazes americanos de fumo no braço, e lembrou-se de um americano que também não estava presente, o popular ciclista de camisa encarnada, que pedalava pela cidade o seu amor ao América e deve estar pedalando no céu. Aguentou firme a penalidade máxima contra, transformada em ponto, vantagem que descansava mais ainda a suficiência adversária, necessitada apenas de um empate; aguentou o primeiro gol a favor e o estrondo popular que se seguiu; aguentou o segundo gol, o chute da liberação e o delírio dos jogadores, o delírio dos assistentes americanos, vascaínos, botafoguenses, rubro-negros, sancristovenses, de todos enfim, pois era a efusão de uma cidade inteira que ali se representava, cidade que na sua vida maravilhosa, que nenhuma Brasília poderá perturbar, jamais deixou de torcer pelos fracos e pelos humildes.

Aguentou tudo firme este meu coração quase tão velho quanto o América. Mas não suportou os quatorze minutos finais. Não, não suportou. Era como se o apito terminal nunca mais soasse e uma dor fina o tomou, dor de vinte e cinco anos de espera, dor da esperança que ainda podia fugir numa desgraçada fração de tempo, de indecisão ou de infelicidade, esperança que por fim se abria como imensa flor naquele campo verde, campo em que tantas outras vezes o capricho da sorte ou o capricho dos homens ceifou-o cega e impiedosamente. Uma dor fina, que ia tomando o peito e os braços, peito que recebia a garra da opressão, braços que se sacudiram em gestos elétricos de entusiasmo e de incentivo, dor que não despertava nenhum medo, que doía sem doer, como se a paixão fora satisfeita, o destino cumprido, as tristezas redimidas e a morte pudesse ser um sacrifício feliz, o preço de uma ambicionada alegria.

Doendo ficou, ainda dói um pouco, como ferida que se traz duma batalha heroica. E não sei como foram os meus passos depois que a luta se encerrou, com cem mil bandeiras se agitando, bandeiras que não traziam todas as três iniciais do América – eram bandeiras de todos os clubes cariocas, inclusive a do glorioso tricolor, vencido que se irmanava ao vencedor com ternura e respeito, bandeiras que saudavam um velho e leal lutador. Sei que andei por mil lugares, e abracei, fui abraçado e ri, um riso de confiança que parecia haver secado e que renascia para a certeza de outras vitórias, para a segurança de que o América não era uma glória morta, não era o mitológico Campeão do Centenário, era o primeiro Campeão da Guanabara livre, era o mesmo América, pequeno mas eterno, clube que os adeptos das outras agremiações colocam sempre em segundo lugar na simpatia, por sabê-lo dono das mais caras e nobres tradições do nosso esporte. E revi aquela tarde radiosa de 1913, quando pela primeira vez pisei no campo da Rua Campos Sales, e não compreendia bem, e as camisas eram vermelhas, e estufavam-se com o vento nas corridas dos jogadores, e a bola ora subia muito alto no céu azul, ora caía na esmeralda da grama com um barulho surdo que nunca mais esqueci.

Revi as gloriosas jornadas de outros tempos num mágico e sentimental caleidoscópio. Revi os campeões do passado, e não somente os mestres da história americana, um Belfort Duarte, um Ferreira, um Ojeda, um Paulo Barata, um Chiquinho, um Hildegardo, um Osvaldinho, que era “o Príncipe”! Não! Revi todos aqueles modestos jogadores que se tornaram campeões porque o sangue da camisa os empurrava. E revi todos aqueles que, grandes ou pequenos, sem terem sido campeões, emprestaram ao América a sua fibra e o seu amor. Ó ruas do meu bairro natal, ó ruas da zona norte inteira, como vos revi na euforia daquela noite povoada de risos e canções como há vinte e cinco anos não acontecia, noite primeira de uma nova etapa da vida rubra, noite de 18, número cabalístico e venturoso da trajetória americana, dia em que nunca é vencido, dia que se afirma como o do seu renascimento depois de tanta espera e tanta pertinácia! (De Manchete)

(In: REBELO, Marques. Seleta. Org., estudo e notas Ivan Cavalcanti Proença. Rio de janeiro: José Olympio; Brasília: INL, 1974. p. 97-99)

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Texto escrito após o título carioca do América de 1960, conquistado em cima do Fluminense. Cortesia do velhote sacudido Rafael Monte, vulgo Venceslau Gama.

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Contra o Futebol

por Lima Barreto

“O foguista da Armada, Francisco dos Reis, foi,
ontem, assistir ao jogo de futebol, no campo do
Seleto Clube, à rua São Gabriel.
Em meio do “match” o jogador Jadir Brás
deu um formidável “shoot”, indo a bola partir
a perna direita de Francisco dos Reis.”

Rio-Jornal, de 16-1-1922.

Tendo recebido de Porto Alegre, por intermédio desta revista, uma terna missiva do Dr. Afonso de Aquino, meu saudoso amigo, em que ele me fala da “Carta Aberta” que o meu amigo também Dr. Carlos Sussekind de Mendonça me dirigiu, publicando-a sob a forma de ‘livro e com o título – O Esporte está deseducando a mocidade brasileira – lembrei-me de escrever estas linhas, como resposta ao veemente e ilustrado trabalho do Dr. Sussekind.

Confesso que, quando fundei a Liga Brasileira Contra o Futebol, não tinha, como ainda não tenho, qualquer erudição especial no assunto, o que não acontece com o Dr. Mendonça. Nunca fui dado a essas sabedorias infusas e confusas entre as quais ocupa lugar saliente a chamada Pedagogia; e, por isso, nada sabia sobre educação física, e suas teorias, nas quais os sábios e virtuosos cronistas esportivos teimam em encaixar o esporte. A respeito, eu só tentava ler Rousseau, o seu célebre Émile; e mesmo a vagabundíssima Educação de Spencer nunca li.

O que me moveu, a mim e ao falecido Dr. Mário Valverde, a fundar a Liga foi o espetáculo de brutalidade, de absorção de todas atividades que o futebol vinha trazendo à quase totalidade dos espíritos nesta cidade.

Os jornais não falavam em outra coisa. Páginas e colunas deles eram ocupadas com histórias de “matches”, de intrigas de sociedades, etc., etc. Nos bondes, nos cafés, nos trens não se discutia senão futebol. Nas famílias, em suas, conversas íntimas, só se tratava do jogo de pontapés. As moças eram conhecidas como sendo torcedoras de tal ou qual clube. Nas segundas-feiras, os jornais, no noticiário policial, traziam notícias de conflitos e rolos nos campos de tão estúpido jogo; mas, nas seções especiais, afiavam a pena, procuravam epítetos e entoavam toscas odes aos vencedores dos desafios.

Não se tratava de outra coisa no Rio de Janeiro, e até a política do Conselho Municipal, desse nosso engraçado Conselho que teima em criar teatro nacional, como se ele fosse nacional, a fim de subvencionar regiamente graciosas atrizes – até isso era relegado para segundo plano, senão esquecido.

Comecei a observar e a tomar notas. Percebi logo existir um grande mal que a atividade mental de toda uma população de uma grande cidade fosse absorvida para assunto tão fútil e se absorvesse nele; percebi também que não concorria tal jogo para o desenvolvimento físico dos rapazes, porque verifiquei que, até numa sociedade, eram sempre os mesmos a jogar; escrevi também que eles cultivam preconceitos de toda a sorte; foi, então, que me insurgi. Falando nisso a Valverde, ele me disse todos os inconvenientes de tal divertimento, feito sem regra, nem medida, em todas as estações e por todo e qualquer sujeito, fosse de que constituição fosse, tivesse as lesões que tivesse. Fundamos a Liga.

Ela não foi avante, não somente pelos motivos que o Dr. Mendonça escreve no seu livro, mas também porque nos faltava dinheiro.

Quando a fundamos, eu fui alvejado com os mais soezes insultos e indelicadas referências. Ameaçaram-me com vigorosos polemistas, partidários de futebol e uma récua de nomes desconhecidos cujo talento só é conhecido na tal Liga Metropolitana. Coelho Neto citou Spencer e eu, pela A Notícia, mostrei que, ao contrário, Spencer era inimigo do futebol. Dai em diante, tenho voltado ao assunto com todo o vigor que posso, porque estou convencido, como o meu amigo Sussekind, que o “sport” é o “primado da ignorância e da imbecilidade”. E acrescento mais: da pretensão. É ler uma crônica esportiva para nos convencermos disso. Os seus autores falam do assunto como se tratassem de saúde pública ou de instrução. Esquecem totalmente da insignificância dele. Um dia destes o Chefe de Policia proibiu um encontro de “box”; o cronista esportivo censurou asperamente essa autoridade que procedera tão sabiamente apresentou como único argumento que, em todo o mundo, se permitia tão horripilante coisa. Ora, bolas!

Certa vez, o governo não deu não sei que favor aos jogadores de futebol e um pequenote de um clube qualquer saiu-se dos seus cuidados e veio pelos jornais dizer que o futebol tinha levado longe o nome do Brasil. ‘Risum teneatis”…

O meu caro Dr. Sussekind pode ficar certo de que se a minha Liga morreu, eu não morri ainda. Combaterei sempre o tal de futebol.

Revista Careta, 8.4.1922

Brasil-Argentina

por Mário de Andrade

Na véspera, o meu amigo uruguaio confessou que viera torcer pelos argentinos. Arroubadamente, com excessos de boa–educação, fui afirmando logo que isso não fazia mal, que diabo! etc. Ficou desagradável foi quando ele se imaginou no direito de explicar por que torcia pelos argentinos:

– Você compreende, amigo, nós, uruguaios, temos muito mais afinidade com os argentinos, apesar de já termos feito parte do Brasil. Até por isso mesmo!… Por mais que se explique historicamente o que levou um tempo o Uruguai a participar do Brasil, nós não sentimos (repare que emprego o verbo “sentir”), não sentimos a coisa como se tivéssemos participado do Brasil, e sim como tendo pertencido a ele. A modos de colônia… E isso, por mais esforços que a gente faça, irrita bem. Quanto a afinidades com os argentinos, há muitas… muitas…

Aqui meu amigo uruguaio parou de supetão. Percebi que não queria me machucar. Mas nesse terreno de boa-educação ninguém ganha de brasileiro, não insisti. Não ousei dar uma liçãozinha de humanidade no meu hóspede, falando na minha simpatia igual por argentinos, turcos e australianos, e outras invencionices maliciosas. Me preocupei apenas em disfarçar a ansiedade que me enforcava por causa do jogo.

No campo me acalmei com segurança. Estávamos em pleno domínio do “nacioná”, com algumas bandeiras argentinas por delicadeza. Mas na verdade, por causa daquele jogo, estávamos todos odiando os argentinos e a Argentina ali. E dizem que futebol estreita relações, estreita nada! Mas aqueles milhares de brasileiros, que piadas cariocas! brilhavam na certeza da vitória. Desconfio que em casa os ilhados nos bondes, também tinham sentido a mesma inquietação que eu disfarçava, mas a unanimidade é um estupefaciente como qualquer outro. De forma que nem bem cada brasileiro se arranjava em seu lugar, olhava em torno, tudo era nacional! e a certeza vinha: Vamos ganhar na maciota.

E foi nessa atmosfera de vitória que principiou o famoso jogo Brasil-Argentina, de que certamente não tiraremos nenhuma moral. Os nacionais escolheram o lado pior do campo, com uma ventania dos diabos contra, varrendo tudo, calor, bola e argentino contra o nosso gol. Principiou o jogo. Os argentinos pegaram com os pés na bola e… Mas positivamente não estou aqui para descrever jogo de futebol. Só quero é comentar.

Ora, o que é que se via desde aquele início? O que se viu, se me permitirem a imagem, foi assim como uma raspadeira mecânica, perfeitamente azeitada, avançando para o lado de onze beijaflores. Fiquei horrorizado. Procurei disfarçar, vendo se me lembrava a que família da História Natural pertencem os beijaflores, não consegui! Nem sequer conseguia me lembrar de alguma citação latina que me consolasse filosoficamente! Enquanto isso, a raspadeira elétrica ia assustando quanto beijaflor topava no caminho e juque! fazia mais um gol. Era doloroso, rapazes.

Mas era também admirável. Quem já terá visto uma força surda, feia mas provinda duma vontade organizada, que não hesita mais, e diante de um trabalho começado não há transtorno político, financeiro, o diabo! que faça parar!… Eram assim os argentinos, naquela tarde filosófica. Não que eles se alardeassem professores de ordem, de energia ou de coisíssima nenhuma. Se alguém desejar saber exatamente o que eu senti, eu senti a Grécia, a Grécia arcaica, no tempo em que se fazia a futura grande Grécia. Dezenas de tribo diferentes se organizando, se entrosando, recebendo mil e uma influências estranhas, mas aceitando dos outros apenas o que era realmente assimilável e imediatamente conformando o elemento importado em fibra nacional. Quem quiser me compreender, compreenda, mas no fim do quarto gol eu tinha me naturalizado argentino e estava francamente torcendo pra que… nós fizéssemos pelo menos uns trinta gols. Mas logo bem brasileiramente desanimei, lembrando que seria inútil uma lavada exemplar. Não serviria de exemplo nem de lição a ninguém. Ao menos meu amigo uruguaio foi generoso comigo, não teve o menor gesto de piedade. Comentava navalhantemente:

– Era natural que vocês perdessem… Os brasileiros “almejaram” vencer, mas os argentinos “quiseram” vencer, e uma coisa é almejar, outra é querer. Vocês… é um eterno iludir-se sem fazer o menor gesto para ao menos se  aproximar da ilusão. Sim, os argentinos escalaram o quadro e este se preparou para o jogo; mas o que a gente percebe é que, na verdade, há trinta anos que os argentinos vêm se preparando para o jogo de hoje. A força verdadeira de um povo é converter cada uma das suas iniciativas ou tendências, em norma quotidiana de viver. Vocês?… nem isso… Os argentinos, desculpe lhe dizer com fraqueza, mas os argentinos são tradicionais.

Eu é que já estava longe, me refugiado na arte. Que coisa lindíssima, que bailado mirífico um jogo de futebol! Asiaticamente, cheguei até a desejar que os beijaflores sempre continuassem assim como estavam naquele campo, desorganizados mas brilhantíssimos, para que pudessem eternamente se repetir, pra gozo dos meus olhos, aqueles hugoanos contrastes. Era Minerva dando palmada num Dionísio adolescente e já completamente embriagado. Mas que razões admiráveis Dionísio inventava pra justificar sua bebedice, ninguém pode imaginar! Que saltos, que corridas elásticas! Havia umas rasteiras sutis, uns jeitos sambísticos de enganar, tantas esperanças davam aqueles volteios rapidíssimos, uma coisa radiosa, pânica, cheia das mais sublimes promessas! E até o fim, não parou um segundo de prometer… Minerva porém ia chegando com jeito, com uma segurança infalível, baça, vulgar, sem oratória nem lirismo, e juque! fazia gol.

Estado, 22 de Janeiro de 1939 (posteriormente revisado para Os Filhos da Candinha, 1943)

Foot-Ball Mulato

por Gilberto Freyre

Um repórter me perguntou anteontem o que eu achava das “admiráveis performances brasileiras nos campos de Strasburgo e Bordeaux.”

Respondi ao repórter – que depois inventou ter conversado comigo em plena praça pública, entre solavancos da multidão patriótica na própria tarde da vitória dos brasileiros contra os tchecoslovacos – que uma das condições dos nossos triunfos, este ano, me parecia a coragem, que afinal tiveramos completa, de mandar à Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos, alguns, é certo; mas um grande número de pretalhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros.

Porque a escolha de jogadores brasileiros para os encontros internacionais andou por algum tempo obedecendo ao mesmo critério do Barão de Rio Branco quando senhor-todo-poderoso do Itamaraty: nada de pretos nem de mulatos chapados; só brancos ou então mulatos tão claros que parecessem brancos ou, quando muito caboclos, deviam ser enviados ao estrangeiro. Mulatos do tipo do ilustre Domício da Gama a quem o Eça de Queiroz costumava chamar, na intimidade, de “mulato cor-de-rosa”.

Morto Rio Branco, desaparecia o critério anti-brasileiro do Brasil se fingir de República de arianos perante os estrangeiros distantes que só nos conhecessem através de ministros ruivos ou de secretários de legação de olhos azuis. E de tal modo desaparecia o falso e injusto critério da seleção de louros que o próprio Barão seria substituído por mulatos ilustres – um deles o grande brasileiro que foi Nilo Peçanha.

Nilo Peçanha… Assistindo também anteontem à fita que reproduz o jogo dos brasileiros contra os poloneses, foi de quem me lembrei – de Nilo Peçanha. Porque o nosso estilo de foot-ball lembra seu estilo político.

O nosso estilo de jogar foot-ball me parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual em que se exprime o mesmo mulatismo de que Nilo Peçanha foi até hoje a melhor afirmação na arte política.

Os nossos passes, os nossos pitu’s, os nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, o alguma coisa de dança e de capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar foot-ball, que arredonda e adoça o jogo inventado pelos ingleses e por eles e por outros europeus jogado tão angulosamente, tudo isso parece exprimir de modo interessantíssimo para os psicólogos e os sociólogos o mulatismo flamboyant e ao mesmo tempo malandro que está hoje em tudo que é afirmação verdadeira do Brasil.

Acaba de se definir de maneira inconfundível um estilo brasileiro de foot-ball; e esse estilo é mais uma expressão do nosso mulatismo ágil em assimilar, dominar, amolecer em dança, em curvas ou em músicas técnicas européias ou norte-americanas mais angulosas para o nosso gosto: sejam alas de jogo ou de arquitetura. Porque é um mulatismo, o nosso – psicologicamente, ser brasileiro é ser mulato – inimigo do formalismo apolíneo – para usarmos com alguma pedanteria a classificação de Spengler – e dionisíaco a seu jeito – o grande jeitão mulato. Inimigo do formalismo apolíneo e amigo das variações; deliciando-se em manhas moleironas, mineiras a que se sucedem surpresas de agilidade. A arte do songa-monga.

Uma arte que não se abandona nunca à disciplina do método científico mas procura reunir ao suficiente de combinação de esforços e de efeitos em massa a liberdade para a variação, para o floreio, para o improviso. Até mesmo a liberdade para a ostentação ou para a exibição do talento individual num jogo de que os europeus têm procurado eliminar quase todo o floreio artístico, quase toda a variação individual, quase toda a espontaneidade pessoal para acentuar a beleza dos efeitos geométricos e a pureza de técnica científica. Sente-se nesse contraste o choque do mulatismo brasileiro com o arianismo europeu. É claro que mulatismo e arianismo são considerados não como expressões étnicas mas como expressões psico-sociais condicionadas por influências de tempo e de espaço sociais.

O contraste pode ser alongado: o nosso foot-ball mulato, com seus floreios artísticos, cuja eficiência – menos na defesa do que no ataque – ficou demonstrada brilhantemente nos encontros deste ano com os poloneses e os tchecoslovacos é uma expressão de nossa formação social democrática como nenhuma.

Rebelde a excessos de ordenação interna e externa; a excessos de uniformização, de standartização; a totalitarismos que façam desaparecer a variação individual ou espontaneidade pessoal.

No foot-ball, como na política, o mulatismo brasileiro se faz marcar por um gosto de flexão, de surpresa, de floreio que lembra passos de dança e de capoeiragem. Mas sobretudo de dança. Dança dionisíaca. Dança que permita o improviso, a diversidade, a espontaneidade individual. Dança lírica.

Enquanto o foot-ball europeu é uma expressão apolínea – no sentido spengleriano – de método científico e de esporte socialista em que a pessoa humana resulta mecanizada e subordinada ao todo – o brasileiro é uma forma de dança, em que a pessoa humana se destaca e brilha.

O mulato brasileiro deseuropeisou o foot-ball dando-lhe curvas, arredondados e graças de dança. Foi precisamente o que sentiu o cronista europeu que chamou aos jogadores brasileiros de “bailarinos da bola”. Nós dançamos com a bola.

Havelock Ellis – que o meu amigo Agrippino Grieco não sei por que supõe um simples Mantegazza inglês, quando Ellis é, na verdade, um dos pensadores mais lúcidos e um dos humanistas mais completos do nosso tempo – se visse o team brasileiro jogar foot-ball acrescentaria talvez um capítulo ao seu ensaio magnífico sobre a dança e a vida.

O estilo mulato, afro-brasileiro, de foot-ball é uma forma de dança dionisíaca.

Diário de Pernambuco, 17 de junho de 1938.

O passarinho

por Nelson Rodrigues

Quando o Brasil levantou o Pan-Americano, eu só lamentei uma coisa: – que Bilac não estivesse vivo. Não o Bilac da “Frineia”, do “Nunca morrer assim”, das “Virgens mortas”, mas sim o Bilac dos tiros de guerra. Infelizmente, não mais existem, nem os tiros, nem o poeta. E é pena. Outrora, cada acontecimento tinha um Homero à mão, ou um Camões, ou um Dante. Recheado de poesia, entupido de rimas, o fato adquiria uma dimensão nova e emocionante.

Ora, faltou, justamente, à vitória gaúcha, o seu poeta. Os correspondentes brasileiros, que estavam no México, deviam mandar, de lá, telegramas rimados, ungidos de histerismo cívico. Mas como estamos em crise de Bilacs, o fabuloso triunfo só inspirou mesmo uma pífia correspondência, que nos enche de humilhação patriótica e vergonha profissional. Cada cronista da delegação, em vez de babar materialmente de gozo, mandou dizer ao seu jornal o seguinte: – “que os argentinos jogaram mais, que os argentinos mereceram vencer e que os brasileiros estavam apáticos”.

Vejam vocês em que dá a mania da justiça e da objetividade! Um cronista apaixonado havia de retocar o fato, transfigurá-lo, dramatizá-lo. Daria à estúpida e chata realidade um sopro de fantasia. Falaria com os arreganhos de um orador canastrão. Em vez disso, os rapazes cingiram-se a uma veracidade parva e abjeta. Ora, o jornalista que tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado. Sim, amigos, o fato em si mesmo vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação.

Por outras palavras: – os cronistas patrícios teriam que dizer, do México, que fomos os maiores, que teríamos papado o próprio escrete húngaro e que houve, no mínimo, umas 35 bolas na trave. Dirá alguém que seria uma inverdade. De acordo. Mas o fato ganharia em poesia, em ímpeto lírico, em violência dramática. E, além disso, ai do repórter no dia em que fosse um reles e subserviente reprodutor do fato. A arte jornalística consiste em pentear ou desgrenhar o acontecimento, e, de qualquer forma, negar a sua imagem autêntica e alvar.

Modelo de eficiência profissional foi aquele repórter que viu um incêndio. Entre parênteses: – já contei o episódio, mas vou repeti-lo, a título ilustrativo. O jornalista espia o fogo e conclui que se tratava, na verdade, de um incêndio vagabundo, uma vergonha de incêndio. Qualquer mãe de família o apagaria com um humilhante regador de jardim. Volta o repórter para a redação e, lá, escreve uma página de jornal sobre o fracassado sinistro. E mais: – põe um canário inventado no meio das labaredas, um canário que morre cantando. No dia seguinte, a edição esgotou-se. A cidade inteira, de ponta a ponta, chorou a irreparável perda do bicho.

Vejam vocês a lição de vida e de jornalismo: – com duas mentiras, o repórter alcançara um admirável resultado poético e dramático. O que faltou aos nossos correspondentes do México foi, justamente, o passarinho. Fizemos uma África miserável, uma ilíada tenebrosa, papamos o Chile, o Peru, o México, a Costa Rica e quase a Argentina. E nenhum dos confrades, adidos à delegação, lembrou-se de recriar o canário, de assassiná-lo outra vez. Sem passarinho, não há jornalismo possível.

Manchete Esportiva, 31/03/1956

O homem fluvial

por Nelson Rodrigues

"Eis o que eu queria dizer: - Mario Filho foi, no futebol brasileiro, um criador de multidões."

Amigos, Manchete pediu-me para escrever sobre Mario Filho. Ora, desde que meu irmão morreu, instalou-se em mim uma obsessão: falar dele e só dele. E Manchete não precisaria pedir. Minha vontade era sair, de porta em porta, dizendo a amigos, conhecidos e até desconhecidos: – “Mario Filho foi o único grande homem que eu conheci”. Vejam bem: o único, rigorosamente o único. Minha sensação é que, diante dele, todos nós somos pequeninos como aqueles anões de Velásquez. Tivemos cinquenta anos de convivência e, portanto, meio século de intimidade exemplar e implacável.

Vou começar dizendo que Mario Filho era de uma bondade desesperadora. Bom a cada minuto. Bom de uma bondade que, por vezes, nos agredia e humilhava. Se ele aparecesse, com um passarinho em cada ombro, eu não me admiraria com nada. Bom nada, a alegria de ser bom. Vejam todos os seus retratos: – era uma cara toda feita de alegria. Grato à vida, nunca se arrependeu de ser humano, de ser nosso semelhante. Era um ser atravessado de luz como um santo de vitral.

Meu Deus, eu gostaria de dar uma ideia da extensão e profundidade de sua obra. Mas antes preciso dizer que Mario Filho era um desses homens fluviais que nascem de vez em quando. Disse “fluvial” e explico: – imaginem um rio que banhasse e fertilizasse várias gerações. Assim foi Mario Filho. Há quarenta anos não há cronista, em todo o Brasil, não há vocação, não há talento que não tenha recebido a sua luz decisiva. Morreu e continuaremos a viver das rendas do seu gênio.

Hoje, eu e meus colegas andamos por aí, realizados, bem-sucedidos, temos automóveis e frequentamos boates; andamos de fronte erguida e o nosso palpite tem a imodéstia de uma última palavra. Mas eu gostaria de perguntar: – o que era e como era a crônica esportiva antes de Mario Filho? Simplesmente não era, simplesmente não havia. Sim, a crônica esportiva estava na sua pré-história, roía pedra nas cavernas.

Não vejam crueldade nas minhas palavras, mas apenas a simples e exata veracidade histórica. Bem me lembro do tempo em que comecei a escrever esporte. Meu companheiro de seção era um miserando, mais humilhado e mais ofendido do que o Marmeladov do Crime e castigo. Quando ria, ou sorria, mostrava uma antologia de focos dentários. E os outros colegas padeciam de igual miséria dostoievskiana. Era uso, então, entre os clubes, oferecer um lanche à crônica. Nada mais plangente e pungente do que a voracidade com que agredíamos os guaranás e os sanduíches.

Até que, um dia, Mario Filho apareceu. Pode-se datar o nascimento da crônica esportiva. Foi quando ele publicou uma imensa entrevista com Marcos de Mendonça. O famoso goleiro anunciava a sua volta. O patético, porém, não era o fato em si, mas a sua escandalosa valorização jornalística. A matéria inundava um espaço jamais concedido ao futebol: – meia página! Era a época em que o esporte vivia empurrado, escorraçado para um canto da página. O melhor jogo do mundo não merecia mais de três linhas. E o pior era a linguagem estarrecedora. Mario Filho usava a palavra viva, úmida, suada. Naquele tempo, os estilistas da seção de esporte assim redigiam a notícia de um Flamengo × Fluminense: – “Será levado a efeito amanhã, no aprazível field da rua Paissandu, o esperado prélio” etc. etc. E o cronista que conseguia esse nível de estilo se julgava um Proust.

A entrevista de Mario Filho foi um duro impacto, sobretudo pela linguagem. Ela saiu por volta aí de 1926, ou 27. Dir-se-ia um novo idioma atirado na cara do leitor. O público teria todo o direito de perguntar: – “Mas que língua é essa?”. Mesmo os melhores jornalistas da época escreviam de fraque. No teatro, Leopoldo Fróes falava com sotaque lisboeta. E a simplicidade seria uma degradação para qualquer jornal.

A entrevista de Marcos foi para nós, do esporte, uma Semana de Arte Moderna. Em meia página, Mario Filho profanou o bom gosto vigente até em jornal de modinhas. Ao mesmo tempo, fundava a nossa língua. E não foi só: – havia também, no seu texto, uma visão inesperada do futebol e do craque, um tratamento lírico, dramático e humorístico que ninguém usara antes. Criara-se uma distância espectral entre o futebol e o torcedor. Mario Filho tornou o leitor íntimo do fato. E, em reportagens seguintes, iria enriquecer o vocabulário da crônica com uma gíria libérrima.

Posso dizer que, desde então, ninguém influiu mais na imprensa brasileira. O próprio artigo de fundo deixou de ter a pose do mordomo de filme policial inglês. Nos tópicos, fazia-se, vez por outra, uma concessão à nova língua. Em suma: – o jornal deixava de ser besta. E, graças ainda a Mario Filho, o futebol invadiu o recinto sagrado da primeira página. Pouco antes, só o assassinato do rei de Portugal merecia uma manchete. E, súbito, o grande jogo começou a aparecer, no alto da página, em oito colunas frenéticas.

Tudo mudou, tudo: – títulos, subtítulos, legendas. Abria-se a página de esporte e lá vinha o soco visual: – o crioulão do Flamengo, de alto a baixo da página. E não era a pose hirta. Mario Filho acabou com o craque perfilado como se estivesse ouvindo o Hino Nacional. O craque aparecia em pleno movimento, crispado no seu esforço. E as figuras plásticas, elásticas, acrobáticas, enchiam as páginas de tensão e dramatismo. E, com isso, o diretor, o secretário e o gerente descobriam o futebol e o respectivo profissional. O cronista esportivo deixava de ser o pai da Sônia do Crime e castigo. Começou até a mudar fisicamente. Por outro lado, seus ternos e gravatas acompanhavam a fulminante ascensão social e econômica.

Mario Filho começou a sua obra, primeiro em A Manhã, depois na Crítica, ambos jornais do seu pai, o grande Mario Rodrigues. O rio continuou fazendo o seu curso generoso e umedecendo e fecundando a aridez do caminho. Mas eu não vou contar tudo o que ele fez, porque esse homem não parou nunca. Com seu formidável élan promocional, trouxe para o futebol novas massas. A geração do Maracanã não imagina como a multidão é coisa recente. Vejam as fotografias do Rio antigo. O brasileiro andava só, sim, o brasileiro andava desacompanhado. Quando três sujeitos se juntavam, as instituições tremiam. Em nossos velhos campos de futebol, o público era ralo, era escasso. Eis o que eu queria dizer: – Mario Filho foi, no futebol brasileiro, um criador de multidões.

Como ele recriou o Fla-Flu! Ora, o Fla-Flu, sem esta abreviação, existia desde 1912, ou 11. Até que Mario Filho resolveu promover o velho clássico, tão velho que era anterior à Primeira Batalha do Marne, anterior ao fuzilamento de Mata-Hari. Preliminarmente, mudou o nome do clássico para Fla-Flu. Em seguida, montou todo um folclore fascinante sobre o jogo superconhecido e desgastado. Eram os mesmos clubes, os mesmos jogadores. E, de repente, o Fla-Flu extroverteu todo o patético, todo o sortilégio que trazia no ventre. Senhoras, que não sabiam nem se a bola era redonda ou quadrada, compareceram ao jogo, magnetizadas pelo mito. A multidão do Fla-Flu é um milagre de Mario Filho.

Foi dirigir o Jornal dos Sports, quando era chefe ainda da página de esporte de O Globo. Neste último, escreveu sua famosa coluna “Da primeira fila”. A massa de figuras, de fatos, de ambientes, que ele dinamizou nas suas vocações, chega a ser inverossímil. Essas páginas de memória têm um tal dom de vida que se tornaram inesquecíveis. Muitos escritos de “Da primeira fila” alcançam o nível de Hemingway.

No Jornal dos Sports e no O Globo fez toda a batalha do Maracanã. Discutia-se ferozmente se o estádio devia ser no Derby ou em Jacarepaguá. Mario Filho percebeu o óbvio ululante, isto é, que Jacarepaguá era quase outro país, quase outro continente. O estádio teria que ser encravado no Derby. Mas havia os partidários truculentos de Jacarepaguá. Instalou-se a polêmica. Todas as manhãs, Mario Filho vinha, como um paladino da verdade, arremessar seu dardo contra as hordas do erro. O Maracanã foi uma de suas vitórias mais lindas. Depois, lançou a Copa Rio, um acontecimento de futebol mundial; e faria também o Torneio Rio-São Paulo; e exibiu, aqui, na Lagoa, os remadores fabulosos de Cambridge e Oxford.

O leitor, simples ou mal informado, pode perguntar: – “Mario Filho fez tudo?”. Eis a casta, a singela verdade: – fez tudo, sim, e repito: – tudo. Por sorte de parentesco, fui testemunha ocular e auditiva dessa obra colossal. Aí estão os Jogos da Primavera, a maior olimpíada feminina do mundo. Eu me lembro do primeiro desfile inaugural que vi, ainda em Álvaro Chaves. Ora, nós somos um povo triste, amargo e feio, mas feio principalmente. E confesso: – nos Jogos da Primavera, tremi de beleza. Eu não sabia que o Brasil era assim. Nenhum povo do mundo conseguiria juntar uma juventude como aquela – absurdamente linda.

E os Jogos Infantis, outro espetáculo sem igual no mundo? E o Torneio de Pelada, ali, no Aterro, com mais de mil times, e uma massa de 16 mil jogadores? Amigos, eu disse tanto, sem conseguir dizer tudo. Era assim esse homem. Com 57 anos, tinha a plenitude do infante dionisíaco. Muitas vezes eu o vi levantar-se de sua cadeira, no estádio. E a sua presença inundava o Maracanã.

Teria que falar também do escritor. Sempre declarei que Mario Filho era a minha grande admiração literária. Na minha opinião, ele é maior que todos os outros. Se Deus entrasse na minha sala e perguntasse: – “Você queria escrever como Guimarães Rosa ou Mario Filho?”, eu responderia, de fronte alta: – “Mario Filho, mil vezes Mario Filho”. E seu livro Infância de Portinari, que é uma das coisas mais belas e mais crispadas com que poderia sonhar um Charles Dickens.

Amigos, o verdadeiro rosto é o último e repito: – o rosto do morto não mente, não trai, não finge. Fui velar Mario Filho. Muitas vezes, debrucei-me sobre ele. Jamais alguém teve, em vida, um rosto tão doce, e tão compassivo e tão irmão; e jamais duas mãos entrelaçadas foram tão santas.

O maior estádio do mundo terá seu nome. Pena é que não o tenham enterrado lã. Com o Maracanã por túmulo, Mario Filho mereceria que o velassem multidões imortais.

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Nota Pessoal: Obrigado a Rafael Monte por ter me apresentado e me passado esse texto, que é uma aula de como se escrever sobre futebol, sobre amizade, sobre a vida – uma aula de como se escrever e ponto.

 

Futebol de veteranos

por Paulo Mendes Campos

O espetáculo começa quando eles chegam, aí por volta das duas e meia das tardes de sábado. O campo tem pouco menos de 50 metros de comprimento, cabendo seis de cada lado, um louco no gol, dois zagueiros, dois na frente e um armando pelo meio. Olhos luzindo, eles calçam os sapatos de tênis ou basquete. Três ou quatro senhores, sempre suspeitos, confabulam a um canto, escalando, conforme a frequência, três ou quatro times para o torneio vesperal.

– O meu está uma droga.
– O seu perto do meu é um escrete.
– E o meu! Nelson e Mauricinho juntos! Essa não!
– O meu está mais ou menos, mas só tem jogador de defesa.

Logo depois do par-ou-ímpar é preciso recondicionar os times. Todos estão descontentes ou fingem descontentamento, até que um deles se abraça com a bola e gesticulando com o outro braço brada:

– Vamos começar, gente! Anda escurecendo cedo.

Todos resmungam, mas acabam concordando, e há uma aparência de calma. Antes que se dê a saída, são indispensáveis mais duas brigas: a primeira, dentro de cada time, pois ninguém quer começar no gol; a segunda, envolvendo todos, é sobre o juiz.

– Se o Zé Catimba apitar eu não jogo.
– Por quê?
– Porque ele tem cisma comigo.
– O Lúcio não veio hoje?
– Está em casa tocando trombone.
– Apita você, Armandinho.
– Nem por vinte mil cruzeiros.
– E você, Tavares?
– Só apito se ninguém reclamar.
– Prometo que do meu lado ninguém reclama.
– Eu nunca reclamo mesmo.

Prometem, mas não cumprem. Todos reclamam de tudo e de todos, do juiz que não viu mão, do adversário que cometeu obstrução, você que me trancou pelas costas, do companheiro que não passou, essa nem o Garrincha tenta fazer, do goleiro que papou um frango.

– Você não viu que eu não consegui matar a bola?
– Vi: você está sem revólver.

As partidas se sucedem, a gana de vencer é feroz, o suor escorre, os corações disparam, há cruentos suspiros de fadiga, as mãos esfregam os rins quando a bola vai fora, as botinadas vão e vêm, recíprocas. Mas não esmorecem, é preciso não esmorecer, pois aqui ninguém mais é criança.

Mas aqui somos todos umas crianças, crianças de 30 e poucos, de trinta e muitos, de 40, os dois mais velhos aí pelos 50. Crianças numa pelada crepuscular, que pode ser a última de nossa vida, o cemitério, a orfandade de nossos filhos. Mas é por isso mesmo que não podemos perder, é por isso mesmo que fazemos das tripas coração, é atrás de uma nesga da infância que andamos a correr, é a maturidade irremediável que estamos tentando driblar, é contra o tempo que perseguimos o gol.

Visto de fora, sobretudo por uma pessoa que já arqueje ao correr para pegar o ônibus, nosso espetáculo pode ser triste e ridículo. De dentro, dou minha palavra de honra, trata-se de uma vivência bonita e alegre. Um viciado em leituras psicanalistas diria que estamos querendo provar a nós mesmos que… ainda não ficaremos velhos. E diria a verdade. Ignorando no entanto que, de antemão, já nos sabemos derrotados; aí reside uma rejubilação de músculos e espírito, uma poesia que vai tangenciar a própria dramaticidade do tempo e a incapacidade humana de revertê-lo.

Mais tarde, tomando uma cerveja, os cavalões estão vermelhos por fora e purificados por dentro. Pudicamente, um dirá que a pelada ajuda a manter a forma; outro alega que deseja perder um pouco de peso; outro cinicamente acha que não há nada como esse exercício para fazer boca para uma cervejinha estupidamente gelada.

Mas no fundo, em segredo, sabem todos que a pelada é boa porque dar um chute bonito faz um bem extraordinário à alma do homem. Sobretudo se o homem é brasileiro.