O caso Adriano

Adriano, o craque solitário

Em seu recente – e recomendadíssimo – artigo na Revista Piauí, Nuno Ramos chama em certa passagem Ronaldinho Gaúcho de “a maior esfinge do futebol brasileiro nos últimos vinte anos”. Seus argumentos são límpidos e claros; como, subitamente, a maior revelação do nosso futebol, o melhor jogador do mundo, a arma mais letal dos gramados transformou-se aos olhos de todos em um bobo da corte, uma foca amestrada dos campos, que esconde em seu sorriso eterno e trágico o peso de todo o futebol?

Essa pergunta que não quer calar – e que não cala, batendo no torcedor nacional a cada partida sua pelo Flamengo – certamente merece um estudo mais aprofundado, e aqui na Contra-Ataque ainda o terá, mas, para mim, a maior esfinge do futebol brasileiro tem outro nome, o nome de um jogador com certeza menos técnico ou talentoso, sem sintomas do virtuose deslumbrado que Gaúcho se tornou, quase como uma pedra em estado bruto que recusa-se a ser lapidada e perder sua essência. Falo aqui de um jogador incompreendido pelo fato de ser simplesmente incompreensível; falo de Adriano.

Adriano, por suas características enquanto jogador, e jogador brasileiro, já traz em si o peso – literal e metafórico – da incompreensão generalizada. Apesar de possuir um alto, e muitas vezes absolutamente ignorado, nível técnico, seu futebol é essencialmente e basicamente de força – a força de seu corpo indestrutível, de seu pé esquerdo poderoso, de seus cabeceios certeiros. Oras, instituiu-se há muito tempo que a força era uma velha e mortal inimiga do futebol brasileiro, criador dos frágeis e geniais Garrincha e Zico, do divino, místico e encarnado ente espiritual Pelé, do toque de calcanhar de Sócrates e da bicicleta de Leônidas, do aniquilado, sofrido e decisivo Ronaldo, do raquítico Rivaldo, do anti-centroavante Romário – artilheiro apesar do tamanho, apesar do físico, apesar da força.

Nuno, novamente em seu artigo, brada contra a ideia da “alegria” no futebol brasileiro, justificando que mesmo Pelé era um jogador sujo, violento, físico – e que isso também compunha sua genialidade. Mas a opinião geral e irrestrita é outra, e nela Adriano não se encaixa. Como, afinal, colocar no mesmo bojo esse jogador essencialmente brasileiro, essencialmente carioca, amante do samba e da favela onde nasceu, composto apenas de força, força e nada mais, essa palavra maldita pertencente aos alemães, aos ingleses, aos italianos, mas nunca ao melhor e mais bonito futebol do mundo? Como incluir Adriano em seu país?

Assim, foi natural que o sucesso do jogador – que saiu quase escorraçado do Flamengo, trocado como gorjeta por um craque do porte de Vampeta – se desse inicialmente na Itália, onde ele virou Imperador. Itália, país que servia, e serviu, como uma luva a seu futebol tão físico e tão naturalmente anti-patriota. Mas o que ninguém pôde compreender, talvez nem Adriano, é que sua força – a mesma força bruta que levou Nuno a chamá-lo, muito erroneamente, de um jogador “apenas mediano” – sempre foi e sempre será essencialmente brasileira.

Aí está talvez a primeira das muitas contradições do jogador, a primeira das muitas que nunca pôde ser resolvida. Adriano não é um Vieri, um Klose, um Mário Gomez; não é um Jardel, um Grafite, um Amauri; sua força não é da disciplina tática, da limitação escancarada, da máquina impessoal de fazer gols. O futebol de Adriano é o de um vulcão em erupção, de um cavalo sem rédeas, de um compasso quebrado. Para vencer, ele precisa estar além do comando, além das ordens, além dos poderes dos outros.

Talvez seja difícil de entender – ainda que, historicamente, não há nada que faça mais sentido – que o irmão futebolístico de Adriano esteja em seu oposto, na figura igualmente trágica de Garrincha, em sua anarquia extremamente alegre e solitária, em seu jogo contra tudo e contra todos, em sua recôndita tristeza genial. Mas se a Garrincha, o mágico, o melódico tortuoso, cabia o epíteto de “a alegria do povo”, a Adriano, o ritmista onipresente, cabe o exílio – não da torcida do Flamengo, que o recebe de braços abertos, não importa o que faça – mas da opinião geral. Ao Nero de Milão não lhe permitem ser brasileiro e carioca, como se ele devesse ansiar pela Itália toda poderosa, pelo título de melhor do mundo, pelo sucesso na Europa, pelos grandes projetos de marketing e tediosos dias de treino, como se Adriano devesse compartilhar as regras do jogo que o dinheiro lhe impõe.

“Oras”, alguém dirá, “é necessário, no futebol de hoje, ser minimamente profissional”. Mas a segunda contradição de Adriano é exatamente essa. Em um universo cada vez mais submetido às ordens econômicas, cada vez mais caro, cada vez mais rico, onde os clubes faturam milhões e os jogadores compram casas, carros, jatinhos, onde a organização e o planejamento financeiro são fundamentais, Adriano simplesmente não sabe seguir as regras; ele nunca pôde – ou poderá – ser “profissional”. Seu jogo solitário e único, o estilo possesso, quase irascível, que nasce e se cria no corpo e nunca na cabeça, que surge das vísceras e nunca do cérebro, só pode durar dentro de um esquema amador, um esquema que obviamente já não existe. Hoje, o jogador não pode mais faltar a treinos, não pode mais encher a cara, não pode mais ficar gordo ou triste ou simplesmente de saco cheio.

Só que Adriano possui o orgulho e o prazer das grandes peladas do Aterro, e seu jogo não é feito para a pressão midiática de um Maracanã (ainda que aqui, justiça seja feita, seja onde Adriano mais brilhe, exatamente por esquecer onde está e jogar no Maraca como se fosse o palco de uma épica pelada de várzea). Adriano é o Nicholas Ray – ou seria o Paul Verhoeven? – do futebol contemporâneo, lutando para sobreviver em Hollywood, cavando com essa luta sua própria cova. Ele tem a força, ele tem a técnica, ele tem tudo que precisa para voltar a jogar muita bola, há anos, mas parece simplesmente optar pelo incompreensível: como um Bartebly do século XXI, Adriano sempre recusa.

“Oras”, o mesmo idiota mercadológico dirá, com a certeza de quem sabe que não há nada além e nada melhor que o sucesso, “não há burrice que justifique isso”. E outros se sucederão: Adriano é depressivo, Adriano é alcoolatra, Adriano necessita de tratamento. Talvez tudo isso seja a mais absoluta verdade – ainda que afirmá-la, na comodidade de casa, não passe de leviandade. Mas talvez a verdade seja um pouco mais complexa. Adriano, nesse futebol atual em que o corpo de um jogador não passa de um cifrão, em que craques absolutos como Neymar e Cristiano Ronaldo parecem ter sido criados por publicitários em projetos de marketing, não permite, sabe-se lá por quê, ser vendido como um produto. E assumir que um tanque indestrutível não é uma máquina de guerra, mas sim um corpo humano falho e defeituoso – como todo corpo humano – talvez seja demais para nós.

Assim, é mais fácil enquadrá-lo em uma categoria clínica, médica, social, muitas vezes beirando o mais puro racismo. Dessa forma, é mais fácil desprezá-lo perante o sucesso das ordens econômicas. Mas nossas afirmações indubitáveis provavelmente dizem muito, muito pouco sobre quem é ou o que faz Adriano acabar-se, lenta e tragicamente, perante nossos olhos; e dizem muito, muito mesmo, sobre o modo como vemos o mundo hoje em dia. Só que Adriano, felizmente, não tem nada a ver com isso.

Anúncios

Da arte de não cair ou Por que Messi é o melhor do mundo

Messi não cai

Que Messi é um fora-de-série, não resta a menor dúvida, e começar um texto assim é quase como afirmar, descobrindo a pólvora séculos atrasado, que um time tem onze homens, que a bola é redonda e que o Deivid definitivamente não se dá muito bem com ela. Mas é preciso iniciar a crônica de alguma forma, e as obviedades servem para isso. Pois bem, que fique claro: Messi é um fora-de-série. A cada lance, a cada gol, a cada corrida intransigente à meta adversária, como um míssil teleguiado que não compreende obstáculos, as perguntas parecem evoluir: “ele é o melhor da temporada?”, “é o melhor de seu tempo?”, “é o melhor da Argentina?”, “afinal, é o melhor de todos e pronto?”.

A este blog não cabe respondê-las, é claro, ainda que a inclinação desse escriba seja simplesmente descartar as primeiras perguntas e pensar muito refletidamente sobre as últimas, dando logo ao jogador o prêmio hors-concours de todas as temporadas em que estiver em atividade e deixando o título de melhor do ano como um troféu de consolação para os Cristianos Ronaldos e Xavis da vida.

De qualquer forma, não custa nada relembrar os méritos do atacante: a verticalidade absoluta, como se um imã invisível puxasse a bola – e seu corpo, simultaneamente – para dentro do gol; a visão de jogo decisiva, que permite a ele ir para o meio-de-campo e transfigurar-se em um Zidane argentino quando bem lhe convém; a força de gravidade absurda entre suas chuteiras e a bola, que parece pairar acima do jogo e do campo, desafiando as leis da física, da matemática, do futebol e da própria visão humana, aproximando e afastando a pelota dos pés conforme as solas dos adversários entram no caminho; a capacidade de arremate tão improvável quanto perfeita, provando – à la Romário e Maradona – que no futebol tamanho certamente não é documento, Peter Crouch que o diga; a velocidade e a agilidade de um Usain Bolt peso-pena, desaparecendo do campo, dos zagueiros, das teleobjetivas e câmeras lentas para ser reencontrado com a bola apenas dentro do gol adversário (Messi, sem o recurso do replay, seria provavelmente invisível); a gana de vencer ontem, hoje e sempre, o que pode ser comprovado por seus resultados, ou pelo menos aqueles pelo Barcelona, que eu sei, todo mundo sabe e todo mundo está cansado de saber, “ele ainda precisa ganhar uma Copa do Mundo com a Argentina”, nhenhenhém mimimi papapa.

Bem, eu estou longe de chegar ao final dessa lista, mas tomarei um atalho – ou o parágrafo correria o risco de ser infinito – para ir logo ao objetivo do texto. De todos os méritos citados e não-citados de Lionel Messi, um me chama a atenção, mais que os outros, como prova inconteste de sua superioridade em relação aos Cristianos Ronaldos e Neymares: Messi não cai. Eu repito, Messi não cai. Oras, alguns diriam: “- e daí?”. Pois bem, e daí? Daí, meus amigos, daí que isso significa tudo.

Para um jogador do porte e do talento de Messi, o natural, todo mundo sabe, é cair. Está, por exemplo, no DNA da malandragem brasileira (e se está na brasileira, podem ter certeza, está também na argentina). Se o jogador é leve, arisco, veloz, ele irá receber toques e encontrões do adversário, e recebendo-os, por que não aproveitar-se deles? Cair é mais fácil, mais tranquilo e mais seguro que ficar em pé (e ainda é possível arranjar um pênalti ou falta na entrada da área).

Jogadores como Robinho e Neymar, inclusive, fazem de cair uma estratégia, um artifício particular, trabalhado laboriosamente através de anos e anos de esforço; alguns diriam que suas quedas têm até assinatura. As de Cristiano Ronaldo – uma constante em seu jogo –, por exemplo, certamente têm: são acompanhadas de uma olhada para as câmeras com cara emburrada, uma nova olhada para os telões para ver se ficou bem nas tais câmeras e um chilique com o juiz por não ter marcado a falta (caso ela não tenha sido marcada, naturalmente). Pois bem, cair, para quem pode, é uma jogada e tanto.

Mas para Messi, que pode, e muito, nunca foi. Em seu vasto arsenal de possibilidades, em seu vocabulário extenso e continuamente renovado, “cair”, eu tenho certeza, nunca ocupou um pé de página.

Oras, novamente o leitor não messiânico pergunta: e daí? Se sofreu a falta, é direito do atacante cair. E se não sofreu, é direito dele cavar. O jogo também é feito disso, afinal. Ademais, não há dúvidas: Neymar, por exemplo, é caçado todo jogo como um vira-latas perseguido pela carrocinha. Mas se Neymar é caçado, o que se dirá de Lionel Messi?

Messi é perseguido, acossado, amordaçado, escorraçado e muitos outros ados, e não cai. Eu, se fosse juiz e visse Messi no chão, pedindo a falta, não hesitaria: expulsaria na mesma hora o agressor e o mandaria diretamente rumo ao presídio. Afinal, para se fazer o argentino abandonar a rota do gol, para deixá-lo parado na grama é preciso no mínimo quebrar-lhe a perna tal qual um assassino desleal; e matar o futebol é, naturalmente, um crime dos mais hediondos na história da humanidade. Tergiversei, e já retorno. Não estamos aqui falando de Pepes e Van Bommels, mas de jogadores. Certos nomes – e peço já desculpas pela frase anterior – sequer deveriam ser mencionados num texto sobre o argentino.

Voltemos então a nosso principal assunto. Está certo, alguns dirão: Messi é ajudado pela genética. Possivelmente jamais vimos um jogador com tamanho equilíbrio, o que, aliás, explica muitos de seus atributos. Mas aqui não estamos falando de ciências biológicas; o futebol é muito maior que elas. Para Messi, não cair não é apenas não cair. Não cair é, acima de tudo, uma filosofia, uma questão de princípios, uma regra básica de jogo. Cair, por si só, distancia do gol, e nada que distancia do gol pode ser positivo. Messi não chuta para trás, não dribla para trás, não corre para trás, por que então deveria cair, por que deveria parar?

O esforço que faz para manter-se em pé, mesmo quando a falta é clara, mesmo quando não é necessariamente a melhor jogada, mesmo quando cinco jogadores o cercam para roubar a bola, é digno de aplausos efusivos, os mesmos dados regularmente por seus passes, arrancadas e chutes maravilhosos. Ao contrário de muitos jogadores que poderiam continuar e não querem – e, portanto, operam numa lógica contrária à do gol, uma lógica contrária à própria essência do futebol -, Messi poderia cair e se recusa. Seu não é afirmativo e conclusivo. É um silêncio vibrante em defesa da simplicidade extrema, mesmo em meio ao virtuosismo de suas ações.

Eis o maior ensinamento que ele pode dar, e dá, a jogadores formados e talentosos como Neymar (queira ele ouvir ou não) ou a peladeiros perebas como eu. Infelizmente, eu nunca poderei ter o drible, o chute, a velocidade, a visão de jogo e o número de atributos tangíveis e intangíveis apresentados diariamente pelo argentino; meu jogo, afinal, está na esfera do humano, e desses mais ordinários. Mas, ainda que Messi esteja numa outra ordem, nunca antes vista, ainda que ele possa fazer absolutamente o que quiser com a bola, ele afirma, a cada toque, que para fazê-lo é necessário que ela esteja rolando, e que ficar de pé, sempre, não importa o que aconteça, é absolutamente fundamental. Ficar de pé; nada mais simples, mais verdadeiro e mais essencial ao jogo de futebol.

E para quem ainda tem dúvidas, segue abaixo um vídeo:

Ode ao jogador tático

Entre todas as posições pouco compreensíveis do futebol atual, no meio de zagueiros-zagueiros que não sabem marcar, primeiros volantes que não sabem passar, pontas velocistas que não sabem cruzar e centroavantes brigadores que não sabem chutar, todos cada vez mais numerosos sobretudo em nossos clubes pátrios tão ricos e simultaneamente tão falidos, no meio dessas posições que nos obrigam a repensar o vocabulário futebolístico para além dos nomes que conhecemos desde garoto (ou que pensávamos conhecer), adicionando, ao já vasto arsenal de expressões do torcedor, um sem-fim de novos xingamentos e gestos de baixo calão, no meio dessa frase longa e talvez um tanto ininteligível, uma figura em específico me chama a atenção, vagando pelo certame como um fantasma orgulhoso, fugindo das divididas e dos lances de perigo com uma sobriedade altiva, desaparecendo do campo com uma contundência aniquiladora, portando-se como um dândi blasé enquanto o resto do time, ingênuo e burro, sua bicas pela bola e ainda assim o reverencia, assim como o condenado à morte agradece a seu opressor por um dia a mais de sobrevivência. A essa figura que se destaca no meio de tanta gente, foi dado o honroso nome de jogador tático.

Renato Abreu, o jogador tático em seu esplendor

Ah, o jogador tático. O que eu não daria para ser um jogador tático? Eu, que sempre quis ser um craque, do porte de um Zidane, um Romário ou um Zico, mal sabia, em meus onze anos, que a verdadeira genialidade futebolística está no jogador tático. O jogador tático é aquele que descobriu, como um vigarista dos melhores filmes de gângster, que a fórmula de sucesso muitas vezes pode não ser produto exatamente do que você joga, mas daquilo que você finge jogar. Eis, sem sombra de dúvidas, a grande dificuldade do futebol. Muitos já disseram que chutar, cruzar, driblar, correr, dedicar-se é difícil. Oras, meus caros, difícil mesmo é enganar, durante anos, que se faz tudo isso.

Ser um jogador tático é uma obra de mestre. Requer certamente uma dose inestimável de malícia, um tanto de experiência, outro de puxa-saquismo. Requer estar sempre ao mesmo tempo no lugar certo do campo, aquele que o técnico o posicionou com tanto esmero, e ainda assim completamente distante do jogo. Requer uma disciplina férrea; nunca fazer um lance perigoso, nunca aparecer verdadeiramente, nunca brilhar. Requer talvez não gostar verdadeiramente de futebol, nunca ter gostado, e ainda assim jogar profissionalmente sem ter sentido jamais uma gota de prazer. Requer algo, digamos, insondável, que até hoje, mesmo após muito tentar, eu não consegui chegar perto de descobrir, com meus viciados olhos de peladeiro e fanático. Eis o grande mistério. Ele é como uma fórmula química perfeita; o complexo de carbono que passa por diamante, sem nunca ter deixado de ser apenas um grafite.

Outra definição possível para o jogador tático: aquela peça insubstituível pelo técnico, essencial para o funcionamento do time, louvada pelos colegas de equipe, cuja enorme inteligência futebolística pode ser exemplarmente acompanhada através da movimentação e da agudeza de suas investidas, que resulta, naturalmente, numa total invisibilidade dentro de campo, na completa falta de participação em jogadas de ataque (quando atacante), no campo de defesa (quando defensor) ou até mesmo nos dois lados, simultaneamente (quando meio-de-campo). O atacante famoso por marcar o defensor, ou o defensor conhecido por falhar em todos os gols, mas que mantém sua titularidade incontestável. Um jogador especialmente ativo em análises posteriores, em diagramações, pranchetas e programas de computador, em coberturas minuciosas do esquema de jogo, mas nunca no jogo de verdade. Gênios do desaparecimento.

Um exemplo: Renato Abreu (também conhecido como Kléberson). Outro: Luan, do Palmeiras.  Alguns diriam, com uma ponta de malícia (ou bondade): Robinho, hoje no Milan. Wellington, novamente no Flamengo (o Flamengo é a casa dos jogadores táticos). Ricardinho, em toda a sua carreira. Quem sabe Elano, no Santos, depois que deixou os problemas extracampo subirem à cabeça. Profissionais que voltaram ao Brasil semi-aposentados: Gilberto Silva, Emerson, Edmílson. Ou o curioso caso de Marcos Assunção: jogador tático por excelência com a bola rolando, mas que desequilibra nas bolas paradas. Marcos Assunção é o falso jogador tático, operando como um duplo mentiroso; finge ser uma figura que finge jogar, para aí brilhar de verdade. Uma equação até difícil de escrever.

Na seleção, eles existem aos borbotões. Em 1994, tínhamos dois (Zinho e Mazinho), apenas no meio-de-campo. Dizem as más línguas que o sonho de Parreira sempre foi (ainda é?) jogar com onze jogadores táticos, mas acabou obrigado a convocar Romário. Em 2002, Kléberson e Denílson, talvez o maior jogador tático da história, já que passou a vida inteira se vendendo como um craque (ou será que estou aqui falando novamente do Robinho?). Em 2010, novamente Kléberson, que não entrou em campo mas imbuiu todos de sua energia valiosa de jogador tático. Dunga, afinal, estava no time de Parreira, e sabia que não poderia faltar um em sua equipe.

Assolado pelos técnicos, o futebol atual tem a marca do jogador tático. Cada equipe tem o seu, quase como um mascote, entrando em campo fantasiado de atleta. E, em tempos de carnaval, aproveito aqui para homenagear jogador tão especial. Como o clima é de festa, convido o leitor a participar do tributo. Qual, afinal, é o jogador tático de seu time?

O estranho caso do Barcelona

Entendendo o time do Barcelona

Em certo momento de O Estranho Caso de Angélica, último longa de Manoel de Oliveira, o protagonista Isaac, transtornado com a assombração da falecida, vai ao campo tentar esquecer seus fantasmas. Chegando lá, segue uma carroça que trota pela estrada. O que vemos então, em se tratando de uma obra de Manoel, parece-nos quase inaceitável. O filme, de súbito, sem aviso prévio ou preparação, procura nesse trotar reproduzir o estado de espírito do fotógrafo judeu; a câmera na mão, cambaleante, desgovernada, imita o passo dos cavalos e a tensão de Isaac, os dois no mesmo movimento: um exterior e outro interior.

São dois planos em sequência, absolutamente alheios à estética do filme e, podemos afirmar, à do próprio Manoel. A câmera mais parece um objeto roubado de um curta ruim dos irmãos Dardenne, atrapalhada, tateante, de uma maneira ingênua, quase infantil. Assistimos, em choque, a essa curta sequência alienígena, uma sequência fracassada, que talvez devesse ser esquecida na hora da montagem. É quando percebemos que se trata, na verdade, de uma sequência absolutamente fundamental, talvez a mais fundamental de todo o filme.

No restante do Estranho Caso de Angélica, reconheço, estamos em terreno familiar: os bons e velhos enquadramentos precisos, pictóricos; os planos rigorosos, fixos, ou quando não, movimentos suaves e elegantes de câmera; os cortes desestabilizadores, rearrumando o eixo à necessidade das cenas; o senso de humor agudo e discreto; a frontalidade desconcertante e reveladora das ações. Mesmo nas novidades, que não são poucas (em especial o uso brilhante, fantasmático e quase nostálgico de efeitos digitais), Manoel mantém uma identidade facilmente reconhecível.

Mas existe um momento, no entanto, que essa identidade propositalmente escapa: são os dois planos citados anteriormente, os planos da câmera na mão. E esses “erros” talvez sejam mais significativos do que todo o resto de seus acertos.

Manoel, do alto de seu centenário, poderia repetir para sempre o que vem praticando desde jovem, e provavelmente conseguiria aí mais uma meia-dúzia de obras-primas. Todos aplaudiriam; eu, inclusive, seria o primeiro. Como diz o ditado: “em time que está ganhando não se mexe”. Mas o Homem não envelhece; por isso tenta, e por isso erra. Ele não se acanha em empunhar uma câmera na mão canhestra e desajeitada, como um pobre estudante qualquer. Manoel sabe que a arte não é feita apenas de acertos. Ele tenta ir além, encontrar aquilo que, em oitenta anos de cinema, ainda não aprendeu. O medo, esse sentimento dos medíocres, dos covardes, dos retranqueiros, Manoel deixa para os simples mortais.

Mas regressemos à terra. Esse blog, afinal, é um blog de futebol.

Na semana passada, no bar, enquanto reclamava do Renato Abreu como novo camisa dez da gestão de Joel Santana no Flamengo (mas tergiverso; isso é um texto futuro), iniciei uma conversa com Guilherme Martins sobre o melhor time, por unanimidade, dos últimos cinco anos. Nela, criticava o Barcelona e seus recentes fracassos, argumentando que isso, talvez, viesse de uma necessidade boba de Pep Guardiola em mudar seu esquema. Uma necessidade sem necessidade alguma.

Afinal, ele barrou Pedro e Villa – titulares da campanha irretocável do ano passado – sem nem dar aos dois uma chance real nessa temporada (digo isso antes da séria contusão do espanhol); colocou Daniel Alves na ponta quando ele funcionava perfeitamente começando na linha dos zagueiros, ocasionando assim uma série de impedimentos do lateral seguida de gols nas suas costas; atrasou Messi mais para o meio-de-campo, onde seus dribles demoram para encontrar a área adversária e consequentemente o gol; ele, enfim, sem mudar o esquema de fato, tentou melhorar o que, na temporada passada, aparentava ser perfeito.

Já passadas algumas Serramaltes (explico: eu estava em São Paulo), eu dizia, para quem quisesse ouvir, que do ponto-de-vista prático, essas ações eram inaceitáveis. Afinal, “em time que está ganhando não se mexe”. A velha máxima futebolística, tão antiga quanto a própria criação da bola, aqui se estabelecia novamente. Guilherme concordou, balançou a cabeça, pensou e deu a sentença definitiva: – “mas para o Barcelona ganhar talvez não seja o princípio”.

Eu voltei andando pelas ruas bêbado (creio que nesse momento da história isso já pareça uma redundância), pensativo, remoendo as palavras de Guilherme. Como alguém pode subverter uma máxima tão óbvia, clara, cristalina? Uma máxima tão máxima quanto a terra é redonda e dois e dois são quatro? Uma máxima tão simples e correta quanto a regra de impedimento? Como, para um time de futebol, o princípio máximo, mínimo e único pode não ser ganhar?

Quando, no dia seguinte, assisti ao Estranho Caso de Angélica, pude, enfim, encontrar a resposta. A cada plano de Manoel, entendia melhor a filosofia de Pep Guardiola. Os enquadramentos únicos, perfeitos, me remetiam aos dribles de Messi. A obsessão de Ricardo Trêpa aos passes de Xavi. O CGI que conduz Pilar Ayala rumo aos céus à posse de bola sobrenatural de seus jogadores. A câmera tremida de um Paul Greengrass amador às derrotas e falhas inexplicáveis dessa temporada.

Está certo: para o Barcelona chegar a Manoel de Oliveira, ainda precisa comer muito arroz de polvo. Mas talvez o time catalão hoje, após um ano de sucesso absoluto e outros muito acima da média, após nos ensinar como se pratica um futebol nunca antes visto, esteja como a carroça desembestada do filme do sábio português. Procurando novos caminhos, voltando à escola, fracassando miseravelmente; porque ganhar, acertar, encantar sempre talvez não seja mesmo, no fundo, o princípio de absolutamente nada.

***

Esse é o terceiro de uma série de textos que estou escrevendo sobre o Barcelona. Os dois primeiros podem ser lidos aqui e aqui.

Crônica de uma morte anunciada

Na temporada brasileira, que se iniciou nas últimas semanas, dois confrontos já adquiriram caráter decisivo: são os duelos entre Flamengo X Real Potosí e Internacional X Once Caldas pela pré-Libertadores, ambos definidos na próxima quarta-feira. Em caso de eliminação de algum dos dois times nacionais, sua participação no restante do semestre fica um tanto reduzida – sem Copa do Brasil, por ter ido à pré-Libertadores, e sem Libertadores, por ter ficado nela, o clube tem que se contentar com as migalhas de um campeonato regional inchado, falido e pouco competitivo. Como o cronista que vos escreve é carioca e, portanto, flamenguista, analisarei alguns pontos do rubro-negro da Gávea.

Apesar do quarto lugar no Campeonato Brasileiro do ano passado, uma posição até bastante razoável, mesmo que aquém das expectativas do clube e de sua altíssima folha de pagamento, não deve haver um torcedor rubro-negro que encha o peito, solte o grito e diga: “tivemos um bom ano”. Sim, ganhamos mais um Carioca de praxe. Sim, passamos o primeiro semestre praticamente invictos – apenas com uma derrota, que valeu por dez e custou a Copa do Brasil. Sim, contratamos a maior estrela do futebol brasileiro. Sim, mantivemos a maior parte desse elenco teoricamente vitorioso. Ainda assim, o time parece começar 2012 prestes a desabar num precipício sem fim, sem que haja qualquer corda de proteção à vista.

E por quê? Lembremos de alguns motivos:

1) Elenco. Ao contrário do que a presidenta Patrícia Amorim costuma pregar, o Flamengo não tem de fato um bom elenco, e seu time, em termos de quantidade, qualidade e flexibilidade, está muito distante de rivais do mesmo porte – Corinthians, Fluminense, Santos, Inter, São Paulo…

O plantel titular, envelhecido, não corre e tampouco marca direito, o que faz do time previsível no ataque e frágil na defesa. O goleiro é bom, apesar de não saber sair do gol, e seu maior problema é ter uma personalidade parecida com Bruno, de cuja história é melhor nem lembrar nem mencionar aqui. Passemos então aos zagueiros. Desatentos, descuidados, desajeitados e especialmente ruins em bolas aéreas, são como uma dupla antiga de filme de comédia, dessas que infelizmente não se fazem mais – ou melhor, se faz no Flamengo. Wellington, em especial, nosso rei das gags físicas, nosso Oliver Hardy sem bigode, com seu recorrente e infeliz problema para manter o peso e a bola, parece estar em campo apenas para Luxemburgo vendê-lo ao exterior e assim ganhar seus dez por cento por fora. Mas quem quer comprar?

Os laterais, apesar de bons, não representam mais a ameaça de antigamente, quando a força ofensiva de Juan e principalmente de Leo Moura abria espaços para o time e liberava a pressão do meio-de-campo. Se panela velha é que faz comida boa, essa já está um bocado requentada. Os volantes têm um problema curioso, alguns diriam um pouco contrário à própria essência do futebol: sabem marcar, mas não sabem passar, e isso quando já não sabem mais nenhuma das duas coisas, caso de Renato Abreu. Para piorar, o meio titular do Flamengo, hoje, é composto apenas desses volantes, porque futebol, afinal, não precisa de passe nem de velocidade nem de ataque. Do que precisa, bem, isso só o Luxa sabe responder.

O ataque tem um gênio (ou ex-gênio) do futebol, que parece muitas vezes ter perdido o interesse pelo jogo, talvez por não receber seus salários há meses, talvez por estar cansado da noitada anterior, talvez porque não tenha companheiros à altura mesmo. Parado na esquina, sem vontade de decidir nos momentos cruciais – como um LeBron James dos campos -, é, disparado, o nosso melhor jogador. Para finalizar, ou não finalizar, ou finalizar para fora, o centroavante é o Deivid. Desse não preciso escrever mais nada.

A base é variada, mas não é completa: temos, é verdade, a proeza de alguns volantes que até sabem passar, mas em geral os jogadores são ainda ou muito novos (Adryan, Thomás) ou muito limitados, caso de Negueba, cujo único fundamento que domina é o de correr, e depois disso de correr mais um pouco. Até Eder Luis sabe que fazer um cruzamento de vez em quando tem alguma importância. Não é o caso de pedir aqui por um Neymar ou um Lucas, que a gente sabe que quem não tem CT não pode cobrar muito, mas a verdade é que o Flamengo dos últimos anos ainda não conseguiu produzir nem um Oscar.

O resto do banco tem o Bottinelli – e só.

Visto assim, é quase um milagre termos alcançado o quarto lugar do Campeonato Brasileiro.

2) Esquema Tático. Esse item poderia se chamar Vanderlei Luxemburgo, mas certos nomes não merecem ser escritos em negrito que é para não inflar o ego. Como escrito, o Flamengo passou o primeiro semestre inteiro do ano passado com apenas uma derrota. Mas, como quem viu as partidas bem sabe, o Flamengo também passou o semestre inteiro do ano passado sem nenhum bom jogo. Se a presidenta do clube, por razões de marketing, pode até exaltar o primeiro feito, o técnico teoricamente deveria olhar apenas para o segundo. Mas, alheio a isso, Vanderlei manteve, até às raias do inacreditável, um time com base nesse grande retrospecto de sucessos magros contra os Boavistas e Bonsucessos e vitórias nos pênaltis contra os Vascos e Fluminenses. No discurso, uma (falsa) invencibilidade serviu como garantia de uma equipe bem montada pelo restante do ano.

E assim tivemos no Brasileirão um time cujos pontas (Gaúcho e Thiago Neves) ficavam isolados nos lados do campo, sem comunicação com o restante da equipe. Por não serem exatamente pontas de movimentação nem excelentes jogadores em nível tático, os dois mantinham-se por ali, esperando uma bola chegar, torcendo para ter alguém para passá-la. O grande problema é que esse alguém era um pouco difícil de existir, pois no restante do meio-de-campo ficavam Airton, fixo atrás, Williams, que até aparecia, mas errava o passe depois, e, bem, Renato Abreu, que não marca nem passa nem se coloca em campo. Renato Abreu funciona como uma autêntica âncora: se por um lado serve para dar espaços na defesa, por outro serve também para anular as jogadas de ataque.  Igualmente nulo em todos os sentidos. Mas, por motivos insondáveis, era – e ainda é – nosso titular absoluto.

Os laterais em geral não tinham espaço para subir, pois, naturalmente, as pontas já estavam ocupadas, e por isso mantinham-se meio atrás, meio na frente, meio em lugar nenhum, sem saber direito onde deveriam estar. Sobrava na frente Deivid, preso entre os zagueiros, e sinceramente ele não parecia preocupar-se muito com isso.

Para piorar, dos quatro homens mais adiantados da equipe (Deivid, Gaúcho, T. Neves e Renato), só o agora tricolor dava alguma movimentação, não sendo também exatamente um velocista. Dessa forma, restava um time lento e sem jogadas, absolutamente incapaz de criar uma triangulação, fazer uma movimentação de ataque anteriormente treinada, existir de fato como um time.

Os jogos seguiam num ritmo monocórdico, no qual os gols pareciam não uma dificuldade, mas uma impossibilidade física. Se praticamente tivemos o melhor ataque do Brasileirão, muito se deu por causa de lances isolados de habilidade de Ronaldinho Gaúcho (e essa estatística mostra que eles não foram tão isolados assim), de lances de sorte de Thiago Neves (que não jogou particularmente bem, mas teve estrela) e de lances de oportunismo de Deivid (o que nos faz imaginar de como seria se o time tivesse alguém de verdade na frente).

Fora isso, essa estatística diz muito, mas muito, sobre a qualidade técnica do Brasileirão como um todo. Onde mais um time mal treinado, lento, sem ataque e sem jogada, previsível, com um craque velho e desinteressado, ia se tornar praticamente o líder de gols de um Campeonato?

A defesa era um outro problema. Como nenhum dos quatro nomes acima mencionados marca de verdade, o Flamengo se tornava, absurdamente, um time de retranca no qual a retranca ficava sobrecarregada. E sobrecarregar Wellington só tem um resultado: bola na rede. Para pior, Alex Silva, a solução, voltou sem ritmo e sem vontade de jogo, rivalizando com Wellington para ver quem deixava mais o atacante do outro time entrar. Não que David Braz, Ronaldo Angelim ou Gustavo tenham feito papeis melhores. Um time lento, sem ataque e sem defesa – eis o Flamengo de 2011.

Quando percebeu que o esquema que tinha idealizado de fato não funcionava (e foram necessários dez jogos sem vitória para isso), Vanderlei tentou mudanças, lançou jovens promessas e voltou com velhos nomes felizmente esquecidos, como Fierro. Mas suas mudanças eram aleatórias e muitas vezes simplesmente não faziam sentido. As substituições no decorrer do jogo pareciam programadas de antemão, como se o jogo em si de fato não importasse. Garotos eram promovidos, barrados e assim queimados sem nenhuma explicação aparente. A única explicação possível é que o técnico tinha apenas um esquema, um único esquema possível, na cabeça, e sem ele simplesmente pifou. Técnico pifado só tem uma solução…

Novamente: visto assim, é quase um milagre termos alcançado o quarto lugar do Campeonato Brasileiro.

É claro que qualquer clube sério demitiria um técnico desses no início, no meio ou até no final do Brasileiro. Mas esse é o Flamengo. Uma multa milionária e o fato de Vanderlei gerenciar também a construção do CT impedem, ou pelo menos, dificultam muito que ele saia. Isso, aliás, merece um capítulo à parte.

3) A administração do clube. O Flamengo iniciou o ano passado com uma ótima notícia. Através de uma parceria com a Traffic, conseguiu contratar Ronaldinho Gaúcho, outrora melhor jogador do mundo, pela “bagatela” de um milhão por mês. Do Flamengo, saíam apenas 250 mil reais, e da empresa parceira o restante. Como ela lucraria? Sendo a responsável por achar um patrocinador máster para o time e conseguindo um percentual sobre o contrato quando o patrocínio passasse de 20 milhões.

Teoricamente, um ótimo negócio para o clube, não? O grande problema é que a Traffic não conseguiu esse tal contrato acima de 30 milhões (que é o quanto ela precisava para começar a ganhar dinheiro nas negociações), e, como não ganhava nada com um patrocínio menor, simplesmente preferiu não fechar patrocínio algum. Com isso, o Flamengo passou o ano sem ninguém para estampar a marca na camisa.

Precisando dessa grana, o time fechou com uma empresa sem avisar a Traffic, que ficou sem um tostão na negociação e se sentiu passada para trás. Como, absurdamente, nunca tinha assinado nenhum contrato com o Flamengo e toda essa parceria milionária estava amparada apenas por um “acordo de cavalheiros”, a Traffic naturalmente preferiu deixar de pagar o Gaúcho, esquecer o prejuízo e deixar tudo para lá. E como por fim, aparentemente, o Flamengo também não tem grana para o salário de seu craque, preferiu botar a culpa na empresa parceira e não pagar o maior nome do elenco.

Fora isso, o Flamengo não conseguiu, nesse meio tempo, fazer um, um, apenas um projeto de marketing vinculando a imagem do dentuço a algum produto ou projeto que revertesse sua presença em lucro. Mesmo com os “seis meses de invencibilidade”. Mesmo com a maior torcida do Brasil.

E assim começamos 2012. É só capitular.

O time com a maior torcida do Brasil sem nenhum patrocínio ou projetos de marketing; o time sem dinheiro para pagar salários em dia ou fazer contratações porque, afinal, passou o ano anterior inteiro sem patrocínio ou projetos de marketing; a grande contratação da zaga no segundo semestre do ano passado (Alex Silva) deixando o time na mão numa hora crucial porque o time está sem dinheiro para pagar salários em dia; o time devendo cinco meses de salário ao maior nome do elenco e postergando infinitamente o prazo de pagamento porque tomou calote da Traffic e passou o ano anterior inteiro sem patrocínio ou projetos de marketing; o maior nome do elenco desinteressado, chateado e fazendo o que bem deseja porque tem cinco meses de salário atrasado nas costas; o time sem poder cobrar do maior nome do elenco absolutamente nada porque deve a ele cinco salários; o treinador estrela brigado com o maior nome do elenco porque quer que ele treine, mas ninguém, nem ele, pode cobrar isso; o treinador estrela brigado com o vice de futebol e o diretor de finanças porque o time prometeu contratações, mas não tem grana para isso; o treinador estrela brigado com todo mundo porque, afinal, é uma estrela e se acha mais importante que o time, mas o time não tem dinheiro para demiti-lo porque, bem, acho que vocês já sabem.

Faltou apenas dizer que, como desculpa para isso tudo, o time manteve uma postura de dizer que, antes de contratar, estava trabalhando para renovar com as contratações da temporada passada – e esse trabalho todo resultou em, depois de meses de investidas e tratativas, ver um de seus maiores ídolos, Thiago Neves, trocar, por baixo do pano, a camisa do Flamengo pela do Fluminense. E que, para aplacar a ira da torcida, o time acabou contratando, a preço de ouro, um jogador supervalorizado mas identificado com o clube, como se fosse um ótimo negócio.

E assim chegamos a fevereiro.

Não é de se estranhar quando vemos o rubro-negro cabisbaixo, triste, revoltado, mesmo tendo o time na (pré)Libertadores da America, mesmo tendo tido um 2011 muito acima de 2010. Quando encontramos o rubro-negro sentado na calçada, antevendo a derrota, a desgraça, a tragédia, não é caso de confundi-lo com um torcedor do Botafogo que inadvertidamente trocou a camisa: a culpa não é do destino; a culpa é do próprio Flamengo.

E assim, se na próxima quarta-feira o time fizer o vexame de perder em casa para um grupo de jogadores semiprofissionais que mal sabem passar a bola (meio como onze Renatos Abreus), nenhum torcedor, pelo menos nenhum torcedor razoavelmente razoável, se surpreenderá. E se o Flamengo golear, porque afinal nada leva a crer que o Real Potosí seja melhor do que o Bonsucesso ou o Boavista, a peneira estará tapada – mas o sol, inclemente, continuará queimando.

O caso Xavi ou Quando passar a bola para o lado virou arte

(Esse é o segundo texto de uma série de artigos que escreverei sobre o Barcelona da atualidade. O primeiro pode ser lido aqui.)

Xavi e seu passe para o lado

Xavi Hernández é um caso curioso. Titular do Barça há aproximadamente dez anos, passou boa parte da carreira sendo visto como um jogador útil, porém sem maiores destaques. No Barcelona de Ronaldinho Gaúcho, quando se encontrava no auge de sua forma física (nascido em 1980, contava já com 26 anos quando os dois conquistaram a Champions), não passava de um coadjuvante de luxo – e mesmo assim de um luxo substancialmente menor que o de Eto’o, Deco e alguns diriam até que do limitadíssimo Giuly, ou de quem quer que se encontrasse em seu lugar. Hoje, no Barcelona de Lionel Messi, o catalão é indubitavelmente a segunda peça mais importante do elenco. O argentino pode ser o craque, o gênio, o homem que coloca a bola dentro do gol, mas é Xavi quem traduz, em seus toques curtos e precisos, o que é o time atual. Como Ruy Gardnier escreveu, seus pés, mais do que armas letais, mais do que atributos corpóreos, simbolizam acima de tudo uma filosofia.

Mas como explicar essa transformação súbita, de formiga a cigarra, de Iranildo a Zidane, de reles mortal a lenda dos campos, de carregador de piano a maestro? Talvez dizendo inicialmente que não houve transformação. Ou pelo menos que esta não partiu do próprio Xavi, que permaneceu fazendo o mesmo trabalho de formiga de sempre, levando sem reclamar as folhas para o seu reino, até ver a rainha morrer e decidirem colocá-lo em seu lugar.

Michael Cox, em seu ótimo e recomendadíssimo blog Zonal Marking, escreveu num texto bastante esclarecedor que, em certo momento da década passada, a função do médio-centro passador, representada pelo hoje técnico do Barcelona Pep Guardiola, foi substituída em favor de um futebol de pegada, no qual Davids surge como grande exemplo, matando os ataques no círculo central e abrindo espaço para os meias de ligação trabalharem com liberdade. Numa época em que se acreditava que a melhor forma de deslocar o corpo era através da pancada, Guardiola foi aposentado cedo, antes do que deveria e poderia. E com calma, aguardou o seu novo momento.

Este veio naturalmente com Xavi Hernández, sua cria, seu pupilo, o jovem que surgiu vendo seus passes e movimentações precisas sendo constantemente negados e ridicularizados e enfim extintos, o jovem que cresceu e, talvez por vingança talvez por teimosia, tornou-se uma versão tão irretocável do médio-centro passador que acabou por extinguir não só o meia de força como também o meia de ligação, unindo suas qualidades sem nenhuma dose de risco, fazendo-os obsoletos perto do que ele poderia oferecer. Em vez do bote para recuperar a bola, simplesmente não perdê-la; em vez do contato entre os corpos para reavê-la quando enfim perdida, a antecipação no espaço vazio; em vez do risco dos passes verticais, o domínio absoluto dos horizontais; em vez de olhar para frente ou para trás, olhar acima de tudo para o lado.

Surgiu aí, após o reinado de Ronaldinho Gaúcho, após o reinado dos Davids e Gravesens, uma nova mentalidade. A mentalidade de Xavi e Guardiola, a mentalidade do Barcelona e da seleção espanhola campeã do mundo. De quem pretende fazer, se possível, um time composto de um goleiro e dez médio-centro passadores. Dez Xavis piorados. Ou seriam dez Guardiolas?

Que esse futebol é eficiente, não restam dúvidas. Os inúmeros títulos do Barcelona podem até ser relativizados pela presença do melhor jogador do mundo (obviamente aqui não falo mais de Xavi), mas o primeiro título mundial da Espanha, somado à conquista da Eurocopa e a anos de invencibilidade, não. Só que isso fazer de Xavi um craque já é outra questão, e aí os patamares mudam de figura.

Os méritos de seu jogo são claros, evidentes. Xavi comanda um time como poucos, mantendo a posse de bola, encontrando sempre o jogador desmarcado, acertando a movimentação de ataque e de defesa. Movimenta-se sem parar, mas nunca se cansa. Toca na pelota centenas de vezes por jogo, praticamente em todas as jogadas, e acerta a marca absurda de noventa e cinco por cento dos passes – acima de qualquer jogador de renome em qualquer posição. Seus times não perdem a posse de bola, e por isso não são atacados. Seus times não perdem a posse de bola, e por isso são uma ameaça constante ao adversário. Xavi é uma máquina, e se isso por um lado é seu maior mérito, também é aquilo que o separa dos gigantes.

Se para os gigantes, todos, o futebol em alguma instância se aproxima de uma forma de arte, para Xavi o velho esporte bretão é primo da ciência da computação, de uma equação matemática, de uma lista de afazeres. O estilo do espanhol distancia-se do impreciso, do arriscado, do falho – e assim distancia-se catedraticamente também do humano. Não há drama, tragédia, superação, não há dias ruins ou bons, não há inspiração nem erro, não há dribles nem arrancadas – há a certeza do passe para o lado, sempre.

Voltemos à comparação com os meias. Nada mais distante do futebol de Xavi que, por exemplo, o de nosso último grande dez clássico: Zinedine Zidane. Em Zidane, o passe tinha sempre a intenção direta do gol, a verticalidade direta do gol, o objetivo de atravessar os obstáculos e superar os desafios à frente, sempre à frente, zagueiros, goleiros, distâncias, linhas retas e curvas, na direção natural do gol. Em certas partidas, vê-lo era quase patético; ali estava um homem prostrado, sem tocar na bola, errando tudo do início ao fim. Mas vê-lo acertar um passe, um que fosse, um que decidisse a partida, valia o ingresso: era presenciar o novo, o inexplicável, o mágico. E o humano.

Xavi não tenta o gol. O gol, para ele, é questão de tempo. O gol é para os outros. E se o gol parece não sair, como nos jogos da seleção espanhola, como nos jogos sem Messi, ele simplesmente aguarda, mantendo seu jogo, alheio a tudo que não seja o programado, o acertado, o correto, o previsível. Xavi só dá a assistência como a última possibilidade. Xavi só procura o centroavante à contragosto. O toque para o lado lhe agrada muito mais. Não que seja uma questão de técnica; ele já mostrou, em diversos jogos, que sabe dar um passe direto, encontrar o atacante livre, passar a bola por entre os zagueiros. É sobretudo uma questão de gosto. Xavi não tem o lançamento de um Pirlo, não tem o cruzamento de um Beckham, não tem a genialidade de um Zidane; diabos, ele não tem sequer a inversão de um Roberto Carlos. O que Xavi tem é seu passe para o lado, que resolveu transformar em sua marca pessoal. Os Renatos Abreus da vida agradecem.

E talvez aqui seja também uma questão de gosto, uma incompatibilidade de estilos, um saudosismo ingênuo e ridículo, mas cá com meus botões continuo a acreditar que quem nasceu para Zinho, por melhor que seja, nunca chega a Romário.

O único

O time do Barcelona, contra os seus marcadores.

Desde que acompanho futebol, já pude presenciar alguns grandes times e, especialmente, alguns grandes jogadores. Vi quando garoto Van Basten – meu primeiro ídolo – fazer gols e mais gols pelo Milan antes de ter sua carreira precocemente interrompida. Vi o Manchester United de Alex Ferguson nas encarnações de Eric Cantona, David Beckham e Cristiano Ronaldo. Vi Romário dar uma Copa do Mundo para o Brasil, e depois Ronaldo e Rivaldo darem outra. Vi Zidane acabar duas vezes com o Brasil. Vi o Palmeiras (e o Cruzeiro) de Vanderlei Luxemburgo. Vi o Vasco de Juninho, Felipe e Edmundo. Vi, felizmente, o Flamengo de Júnior e o de Petkovic. Vi o futebol praticamente ser soterrado nas retrancas vitoriosas de Once Caldas na Libertadores e da Grécia na Eurocopa. Vi e me decepcionei após algum tempo com os galácticos no Real. Vi e me encantei barbaramente com os dribles de Ronaldinho Gaúcho, talvez o mais puro talento do futebol, levando à loucura a defesa do Real Madrid. Vi muito, muito mais coisa.

Mas, durante esses vinte anos de futebol, nunca vi algo próximo ao atual time do Barcelona, que se aperfeiçoa a cada ano, mesmo que não mantenha necessariamente o vigor. O Barcelona é diferente. É o único time do mundo. É o ponto de chegada possível. É a perfeição tática jamais imaginável. É o inabalável. O infalível. O apolínio. Vê-lo jogar é ter a sensação maravilhosa e angustiante de testemunhar o final da História.

Os elogios podem parecer hiperbólicos – e naturalmente são, o escriba aqui assume – mas não são de forma alguma infundados. Peguemos um jogo do Barcelona, qualquer um. A goleada de 4 a 0 sobre o Santos. As vitórias polêmicas sobre o Real Madrid de Mourinho. As vitórias fáceis sobre o Manchester United de Ferguson. Os empates contra Milan e Espanyol. A derrota para o Getafe. Os resultados variam, mas o jogo é sempre o mesmo. Barcelona com a posse de bola, comandando as ações, marcando por pressão, roubando a redonda no campo de ataque. O outro time, qualquer outro time, do poderoso Real ao frágil Getafe, na retranca. Todos os jogos. O mesmo Barcelona de um lado. A mesma retranca do outro, na tentativa de um contra-ataque salvador.

É claro que um defensor do futebol contemporâneo certamente diria que cada retranca é uma retranca, que os Once Caldas e as Grécias do mundo têm suas qualidades únicas, que a posição de dez jogadores parados naquele espaço mínimo que se chama “sua própria área” pode sim variar de jogo a jogo, mas sejamos francos: os ataques se diferem uns dos outros, as retrancas não. Algumas calham de ganhar jogos e, quando você tem o pior time (ou seja, todos os times que não são o Barcelona), sua eficiência é comprovadamente alta, e infelizmente quando você tem o melhor time, às vezes também.

Mas não estamos aqui para discutir as falsas variações das retrancas – ou estamos? quem sabe em um próximo texto – e sim times de verdade. Ou um, especificamente. Porque os outros, quando enfrentam o Barça, são sempre o mesmo. Eis a grande questão de se assistir a uma partida do escrete catalão. Parece que assistimos ao mesmo jogo, em loop, repetidas vezes, com a diferença que o número de gols, felizmente, de vez em quando muda. É como acompanhar o fundo de tela de uma televisão sem programação, com a marca correndo lentamente de um lado para outro feito pingue-pongue, e torcer para um dia ela acertar a quina.

Hoje, o esquema de jogo do Barça é tão conhecido quanto um drible do Garrincha e, como um drible do Garrincha, ninguém no mundo sabe como parar. Ele vai para a direita, sempre para a direita, previsivelmente para a direita, e o marcador que o estudou e o conhece como a palma de sua mão, que já levou aquele drible nos jogos anteriores e mesmo naquele, cinco minutos antes, o marcador que se aplicou taticamente dias e dias (ou meses, no caso do Santos),  o marcador que se concentra e pensa “agora vai” vai também, e toma o drible. Todos tomam. Mourinho que o diga.

Mas não é culpa exclusiva de Mourinho. O que ele faz nos jogos com o Barça todo mundo faz. Ou melhor, o Barça faz com todo mundo. Ao prender a posse de bola incessantemente e roubá-la em uma fração de segundos, ao diminuir o espaço do campo em cinquenta por cento (nos jogos do time culé, só existe o campo de ataque), ao se movimentar como se tivesse vinte e dois jogadores em vez de onze, ao brincar de bobinho com um time adversário inteiro e ainda assim não perder a bola, ao ser esse “monstro que”, como disse Wisnik, “ataca sem se expor”, ao praticar um jogo tão belo quanto automático, ao ter Messi, acima de tudo, ao ter Messi, eu repito, ao ter Messi, eu nunca me cansarei de dizer, ao ter Messi o time não oferece outra possibilidade ao inimigo: é a retranca, e pronto. Acostume-se com ela, amigão.

Mourinho não se acostuma, é claro, e posso vê-lo irritado na conferência do título espanhol do Real Madrid em maio quando perguntado se aquele time dele, aquele esquadrão que ganha de todos os pequenos e não consegue ganhar de um, apenas um adversário, é mesmo o melhor time da Espanha. Ele ficará transtornado, como sempre fica, porque sabe que a resposta, a resposta que ele nunca irá assumir, é “não”.  Ferguson – e o time inteiro do Manchester, diga-se de passagem – entrou na final da Champions já ciente dessa resposta. Os outros, menores, nascem com essa certeza. É a retranca, e pronto. E assim os outros esquemas táticos, todos os outros que eu me acostumei a ver nos últimos vinte anos, vão sucumbindo: as estrelas e a profundidade do Real; a juventude e a rapidez do Arsenal; os talentos incontestes dos Meninos da Vila; a aplicação tática do Manchester United. Tudo vira Once Caldas.

Por isso o esquema do Barcelona, tão claro quanto impossível, ou tão claro porque impossível, sobra como o único esquema tático inventado. O único jogo inventado. O único futebol inventado. O único, com exceção da retranca. Os outros times tentam imitá-lo, mas não conseguem. Técnicos pensam em se aposentar, ou se suicidar, ou voltar ao maternal, ou se mudar para ligas menores, como a inglesa, a italiana e a alemã, onde não existe Barcelona e, portanto, não existe futebol. O Barcelona criou um buraco negro, sem ar, sem gravidade, sem esquemas, em que sobra apenas o time e a bola, rodando sem parar de pé em pé.

Pois aí, naturalmente, o Barcelona começa de fato a perder. O time, no quarto ano de uma série de títulos, jogadas, goleadas acachapantes, depois de mudar a história do futebol até seu final legítimo, encontra seu limite, nunca antes pensado: após destronar todos os adversários, um a um, com requintes de crueldade, como se fosse tão fácil quanto escovar os dentes, sobra apenas o desafio final, o óbvio ululante; destronar a si mesmo. Como a jiboia que come o próprio rabo porque já não existem bois.

É nessa arrogância típica dos soberanos, dos reis entediados com seu próprio poder, de quem tem tudo e por isso não tem mais nada, de quem detém a chave da história, que o time enfim cai, de cabeça erguida, sabendo que caiu para si e não para os outros – num processo onde talvez ainda caibam alguns espanhois e algumas Champions no caminho. Os jogos parecem chegar ao limite do sadismo; se eles sabem que podem fazer gols a qualquer momento, então por que de fato fazê-los? Sair de campo com um empate, ou mesmo uma derrota, mas a sensação de que isso aconteceu porque ele, o Barcelona, quis assim.  Não há nada mais humilhante.

E, em pouco tempo, se nenhum técnico vier com um novo esquema, um esquema de verdade, um esquema que reinvente o futebol, um esquema que leve a História para frente, assistiremos à contra-revolução, à volta retrógada do velho esporte bretão. Não que eu esteja reclamando; é assim que a roda gira, sempre. Mas que todos tenham certeza. Quando o Barcelona realmente começar a perder títulos por acreditar demais em seus próprios saltos, não estaremos acompanhando um novo capítulo na História do futebol, mas um regresso inegável, a descida do Olimpo, o retorno a um mundo terreno e imperfeito, onde os times jogam de igual para igual, os dramas são humanos, os resultados imprevisíveis, os jogadores não se chamam apenas Messi e os esquemas táticos se multiplicam.

Um mundo onde os Once Caldas da vida, para o bem ou para o mal, podem sonhar em novamente destruir o futebol e conquistar a Liga dos Campeões.

***

Esse o primeiro de uma série de textos que pretendo escrever sobre o time do Barcelona. Aproveito e indico alguns (bons) escritos sobre o time, que serviram de referência para esse aqui, e provavelmente para os próximos também. As colunas de José Miguel Wisnik e Francisco Bosco publicadas no O Globo após a goleada contra o Santos, disponíveis respectivamente aqui e aqui, e o texto de Jonathan Wilson sobre a decadência do Barça, indicado pelo leitor Bruno Amato, disponível aqui.

E, como os outros autores da Revista Contra-Ataque, aproveito para dar as boas-vindas a todos os leitores e dizer que espero que esse espaço vingue por muito, muito tempo.

Boas leituras.